sexta-feira, 8 de abril de 2022
IFEHP lançou no último dia 06/04, a terceira etapa da campanha sobre o abuso sexual nos meios espiritualistas
domingo, 20 de março de 2022
IFEHP lança Movimento de Sensibilização sobre o abuso sexual nos meios espiritualistas
terça-feira, 15 de fevereiro de 2022
IFEHP promoverá o minicurso "Morte, Luto e Imortalidade" a partir do dia 17/02
IFEHP promove palestra com o professor Sinuê Neckel Miguel no dia 16/02
domingo, 6 de fevereiro de 2022
Artigo: A vida não é útil - reflexões a partir de Ailton Krenak - por Lindemberg Castro
Talvez você conheça a poesia do Carlos Drummond de Andrade
“O Homem; as viagens”. Em caso negativo, listo-a abaixo.
O homem, bicho da
terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita
miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma
cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na
lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na
lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza
a lua.
Lua humanizada: tão
igual à terra.
O homem chateia-se na
lua.
Vamos para marte -
ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o
homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com
engenho e arte.
Marte humanizado, que
lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em
vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca
se não for a júpiter
Proclamar justiça
junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas
restam para outras colônias.
O espaço todo vira
terra-a-terra.
O homem chega ao sol
ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele
inventa
Roupa insiderável de
viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o
sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros
sistemas fora
Do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima
dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas
próprias inexploradas entranhas
A perene,
insuspeitada alegria
De conviver.
Conheci esse poema pelos olhos de Ailton Krenak, vencedor em 2020 do prêmio Juca Pato pela União Brasileira de Escritores; escritor, ativista do movimento ambiental, organizador da Aliança dos Povos da Floresta, que reúne comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia, e um dos maiores pensadores brasileiros da atualidade. Seu livro “A vida não é útil”, nada mais atual para tentar nos tirar da letargia que é “viver” em pleno sistema capitalista, que fetichiza e relativiza a vida e sua importância.
É fantástica e inegável a capacidade da ciência de nos permitir sonhar com viagens para outros mundos, Jeff Bezos que o diga. Esse conhecimento científico que nos tem levado cada vez mais distante nada é sem perguntas que possam construir sentidos para a Vida, afinal de contas, temos um planeta inteirinho para cuidar de forma imediata, e cujas notícias catastróficas sobre o meio-ambiente, por exemplo, não ocupam mais o lugar de previsão; diante do desgaste ecológico e ambiental em que nos encontramos, algumas notícias e apelos ambientais ainda soam como alertas para os desavisados, mas o fato que nos rodeia é que a crise ecológica já está atuando na degradação cada vez mais rápida do planeta, o que atinge a Vida em todos os seus níveis.
Temos uma contradição temporal de percepção entre o presente e o nosso futuro incerto. O futuro nos parece obscuro porque negligenciamos o presente, no entanto, esperamos sempre “por algo melhor”, algo como um “mundo de regeneração” que resolverá automaticamente todos os nossos problemas.
Saber
fazer boas perguntas é uma das habilidades que aprendemos ao nos tornarmos
cientistas, filósofos, livres pensadores, cada um em sua área do saber.
Deslocar pressuposições é parte desse caminho para chegarmos a possíveis
respostas e resultados. A maestria de artistas, poetas e filósofos em produzir
esses deslocamentos nos ajuda a resgatar o motivo e o que nos motiva a fazer
ciência, a produzir conhecimento, sobretudo em tempos de negacionismo atuando
em diferentes frentes, não apenas no campo científico, mas também na história,
na sociologia, na filosofia, na pedagogia, no Espiritismo, etc.
Sim, o negacionismo atinge de diferentes formas os meios espíritas também, seja pela lógica anti-vacina alinhada à ideologia bolsonarista ou pelo princípio místico de que a única vacina que funciona é a de cunho espiritual. Ou ainda, na compreensão da reencarnação com um fim utilitarista que a transforma em uma máquina de moer gente em plena pandemia, justificando mortes e genocídio como princípios espirituais aceitáveis. O período pandêmico no Brasil ficará marcado, inclusive espiritualmente, como um período em que um genocídio foi fomentado diante das nossas vistas, fazendo do nosso povo um joguete ideológico que visou lucros obscuros.
Para esses espíritas, dizemos: não, a vida não é útil! A vida humana não pode ser ideologizada para propagar a naturalidade da necropolítica.
Ailton Krenak, em seu supracitado livro, nos guia em uma viagem que entrelaça múltiplas formas de conhecimento sem sair do planeta, do país, da aldeia ou de casa. É um livro da hora urgente, extrema e necessária, em meio à pandemia que evidenciou dimensões até então não palpáveis de nossas desconexões e conexões globais, humanas e espirituais. Sim, seu livro possui uma espiritualidade fluida, ativa, voltada para a transformação do mundo. Mas não é uma transformação cega, que serve como fogos de artifício de discursos religiosos vazios de dominação das consciências; nele encontramos sentido para a transformação pelo engajamento, pelo senso de coletividade, para o cuidado de si e do mundo.
Hoje vivemos dia a dia com a descoberta de que nossos corpos em circulação ou em quarentena, alimentados pelo agronegócio e pelo utilitarismo capitalista, afetam e são afetados por milhões de vidas. Descobrimos também, que as pessoas mais ricas do planeta aumentaram em muito a sua fortuna em plena crise global; descobrimos ainda, que a pandemia no Brasil foi acalentada pela necropolítica, que define quais os corpos que merecem ou não viver. A pandemia escancarou que para o capitalismo a vida é apenas útil, nada mais; hora ela é mercadoria, hora é meio de produção, hora ela mal recebe a sua mais-valia de que é “merecedora”. A vida humana é, na estrutura capitalista, apenas mais uma forma de lucrar mais e mais.
Percorrendo caminhos entre músicos como Milton Nascimento, xamãs, filósofos e cientistas, Krenak constrói linha por linha o paraquedas-foguete da viagem para dentro de nós mesmos de que tanto necessitamos. A cada página, nos vemos convivendo com algo muito maior do que a ideia de humanidade comporta. Talvez nós espíritas possamos aprender com ele aquilo que não conseguimos aprender ainda: ou desenvolvemos uma visão global e um engajamento adequado sobre os problemas do mundo e sobre a própria reencarnação, ou continuaremos a tratar o progresso espiritual na mesmice da reforma íntima individualista. A provocação de Krenak quanto às religiões em geral coloca em xeque o esforço individual de elevação sem comprometimento efetivo com o coletivo, com o mundo. Isso é maravilhoso! Krenak sabe quais perguntas fazer.
Nos capítulos-paraquedas
(cujos temas servem para adiarmos o fim do mundo) do seu livro, Aílton Krenak,
um dos maiores pensadores brasileiros da atualidade (digo-o novamente), lança
perguntas centrais para repensarmos nossas vidas e nossa forma de produzir
sentidos.
1. Não se come dinheiro: A ideia de humanidade é útil
para o que e para quem? O que é a vida?
2. Sonhos para adiar o fim do mundo: Por que contar sonhos?
3. A máquina de fazer coisas: Quem é a praga que come o
mundo? Como recriamos mundos?
4. O amanhã não está à venda: Faz sentido esperar a volta à
“normalidade” depois da pandemia?
5. A vida não é útil: Por que vivemos? Vale a pena
adiar o fim de que mundos? Ao fim da leitura, me perguntei: quão longe a
ciência poderia ir com esses deslocamentos?
Esse é um livro para levar no peito e compartilhar, inclusive entre os irmãos espíritas. Ler, emprestar, anotar, trocar, reler e contar como se sonho fosse, contar com a alegria da novidade. Nas palavras de Krenak, contar sonhos é veicular afetos com pessoas com quem convivemos, dividindo um ideal coletivo capaz de refundar o conceito de humanidade, nos preparar para nosso cotidiano e afetar o mundo sensível. Contar sonhos equivale ao exercício do esperançar da utopia freireana, capaz de nos guiar de forma potente e engajada.
Afinal, de que serviria a reencarnação se não fosse para transformar o mundo?!
Referência:
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. 1ª ed. Companhia das Letras: São Paulo, 2020.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Os espíritas, o fanatismo e a (necro)política - por Jerri Almeida
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
Artigo "Um salve aos Espíritas Progressistas e vida longa aos Coletivos Espíritas Progressistas" - Por Alexandre Júnior
Por Alexandre Júnior - Pedagogo, Pós-graduado em Gestão Educacional e Coordenação Pedagógica. Escritor. Pesquisador de Gênero, Sexualidades e Espiritualidades. Coordenador do Ágora Espírita.
Pensando o momento sociopolítico que vivemos, e a aproximação evidente do movimento espírita brasileiro com o conservadorismo extremo, este mesmo conservadorismo que dá vida e voz ao Governo Federal que com suas políticas neoliberais vem demarcando suas práticas com Aporofobia e Necropolítica. Assusta-nos demasiadamente, quando vemos protagonistas deste movimento espírita conservador defenderem publicamente o atual presidente e as ações neoliberais e capitalistas que são as suas marcas registradas.
Não
encontramos a possibilidade de coadunarmos: Capitalismo, Necropolítica,
Aporofobia, Racismo, LGBTQIAP+fobia, Sexismo, Femínicídio, Misoginia, Xenofobia,
Desmatamento Florestal, Invasão de Terras Indígenas, Política Armamentista, com
amor ao próximo, em que pese, alguns conceitos enviesados sejam utilizados para
produzir a já tão conhecida do referido movimento, Pedagogia do Medo e da
Culpa, antes alimentada apenas pela obsessão, pelos obsessores e pelo
famigerado umbral, hoje amplia-se esta relação causal dos pavores acrescentando
o maldito progressismo e o não menos satânico “Comunismo.”
Segundo
algumas pessoas o objetivo maior deste Movimento Progressista é conduzir
àqueles que forem tocados por seus seguidores obsidiados e com as suas atuais
encarnações em derrocada ao umbral, além é claro, de trazer perturbação ao
movimento hegemônico onde reina a absoluta paz divina.
Diz
o poeta que: “Paz sem voz, não é paz é medo.”
Portanto,
precisamos compreender o preço desta suposta paz, que consiste em invisibilizar
vidas, pessoas, intimidades, silenciar os que pensam diferente sob pena de
cancelamentos. Se o Espiritismo não for
capaz de dialogar com as minorias sociais e oferecer-lhes acolhimento, afeto,
amor, compreensão, amparo, e oportunidade de engajamento significa dizer que
colocamos a doutrina acima das pessoas, e assim sendo, precisamos repensar de
que valem os espaços espíritas.
Acusam-nos
de enquanto Espíritas Progressistas: democratizarmos o conhecimento espiritista,
de discutirmos as minorias sociais com elas e não para elas, de darmos voz aos
excluídos, resgatarmos os autores clássicos do Espiritismo, de dialogarmos com
as ciências humanas para podermos criar justiça na nossa escrita e na nossa
fala, oferecendo aos protagonistas silenciados a oportunidade de eles próprios
falarem e escreverem as suas Histórias, as suas vivências, dores e conquistas,
tirando-os de debaixo do tapete como tem sido feito desde o século XIX. Chamam
a isso de “comunismo”!
Sendo
assim, precisamos manter acesa está chama que arde no Brasil chamada Movimento
Espírita Progressista que foi trabalhada por mentes libertas de dogmas e livres
pensadoras e pensadores, que deram a oportunidade aos coletivos Espíritas de
encontrarem algum respaldo para a construção de suas práticas, e respeito aos
seus legados.
Um
salve a Allan Kardec, Léon Denis, José Herculano Pires, Deolindo Amorim,
Humberto Mariotti, Manuel Porteiro, Wilson Garcia, Dora Incontri, Sérgio
Aleixo, Célia Arribas, Sinuê Miguel e Ana Cláudia Laurindo.
Vida
longa a CEPA – Associação Espírita Internacional; CPDoc - Centro de Pesquisa e
Documentação Espírita; o Ágora Espírita; Coletivo Girassóis - Espíritas Pelo
Bem Comum; Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires - IFEHP; ABREPAZ –
Associação Brasileira Espírita de Direitos Humanos e Cultura de Paz; CEJUS –
Coletivo de Estudos Espiritismo e Justiça Social; Coletivo Espírita pela
Transformação Social; Coletivo Espírita Maria Felipa e Espíritas à Esquerda.
Partindo
da premissa de que não se precisa de chancela de nenhuma personalidade ou ente
federativo para praticarmos, pensarmos e\ou dialogarmos com o Espiritismo, as
mentes Progressistas e livres pensadoras promovem a possibilidade de uma
alternativa ao que até o presente se encontra exposto como única corrente
pensadora espírita, de forma hegemônica e reprodutora de conteúdo.
Dialogar
com as ciências humanas com honestidade intelectual é robustecer a doutrina
espírita, equipando-a de recursos capazes de munir seus adeptos a se
relacionarem com as questões sociais de seu tempo e não serem apenas
contempladores do plano-Terra à espera de viverem uma vida de ócio nas colônias
espirituais que não foram pensadas para as minorias sociais e para os menos
abastados.
Tomando
como referência a frase popular: “Tal vida, tal morte,” se as referidas
colônias forem o retrato daquilo que nos diz o IBGE – Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, senso 2010. Sendo as colônias espirituais aquilo que é
o movimento espírita hegemônico, ou seja, branco, hétero e classe média, podemos
concluir que não há espaço para as outras categorias e há lutas de classe até
para se ter acesso aos “céus Espíritas”, isso não podemos negar.
O
que nos leva a crer que a democratização da espiritualidade tem levado incomodo
a uma parcela dos espíritas hegemônicos, que seguindo a frase já citada: “Tal
vida, tal morte,” desejam levar os seus privilégios para o mundo espiritual, como
na Terra não visam compartilhar aeroporto com determinadas classes sociais, no
“céu” não visam partilhar “aeróbus e colônia espiritual”.
O
Movimento Espírita Progressista se fortaleceu e parece mesmo que continuará sua
trajetória de luta para a produção de conhecimentos e saberes que se deem na
troca e na partilha, produzidos por livres pensadoras e pensadores, nunca por
força da imposição dogmática, da opressão oficial, do cancelamento ou da
negação ao diálogo com diferentes.
Sigamos
firmes cientes de que não há, principalmente nos dias atuais, uma única
vertente, ou um único caminho a ser seguido, bom, que possamos dizer que não se
trata de estarmos ou não com a razão, mas, de termos o direito de professarmos os
nossos pensamentos com todas, todos e todes àquelas pessoas que desejarem, o
que faz o Movimento Espírita Progressista plural e diverso, aumentando ainda
mais as suas formas e áreas de atuação.
Por
isso: Um Salve aos Espíritas Progressistas e vida longa aos coletivos Espíritas
Progressistas.
Referência Bibliográfica
Música
Paz sem voz é medo. Compositores: Alexandre
Monte De Menezes / Lauro Jose De Farias / Marcelo De Campos Lobato / Marcelo
Falcão Custodio / Marcelo Fontes Do Nascimento Vi Santana
-
Por Alexandre Júnior - Pedagogo, Pós-graduado em Gestão Educacional e Coordenação Pedagógica. Escritor. Pesquisador de Gênero, Sexualidade...
-
Sigmund Freud, um dos fundadores da psicanálise, introduziu o conceito das "feridas narcísicas" como uma maneira de explicar os ...
-
por Lindemberg Macena, professor de filosofia e de sociologia, pedagogo, psicanalista e logoterapeuta 1. Introdução: o e nigma do f ascí...

