sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Manifesto do IFEHP sobre as eleições 2026


Por Lindemberg Macena, Eduardo Silveira, Fábio Diório, Heloísa Canali, Ruth Barros, Raimundo Filho.

1- O IFEHP

Neste ano de 2026, o Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires (IFEHP) completa 17 anos. Jamais imaginávamos que, de um grupo de estudos pequeno fundado em 2007, por jovens idealistas, fôssemos chegar ao IFEHP, fundado em 2009 e toda a jornada que estava a nos esperar nos caminhos da filosofia. Com o nosso primeiro nome homenageamos o estado do Ceará, um dos pioneiros do Espiritismo no Brasil, e foi assim que nasceu o IFEC – Instituto de Filosofia Espírita do Ceará; posteriormente decidimos homenagear o nosso grande filósofo espírita Herculano Pires, e foi assim que nasceu o nome IFEHP. Ao longo desses 17 anos experimentamos diversos cenários, mas um deles sempre esteve conosco: o desafio de se estudar e difundir a Filosofia Espírita para contribuir com o tão urgente letramento filosófico.

O IFEHP insere-se hoje, no movimento espírita progressista, como um coletivo alinhado à filosofia social e à pesquisa filosófica, sociológica, histórica, antropológica e educacional, aproveitando ao máximo as suas vertentes de pesquisa e de atuação formativa. Como coletivo maduro, e que, continua exercitando aprendizados compartilhados, o IFEHP mantém-se firme em seus propósitos de ação no mundo, sempre com os olhos voltados para a epistemologia espírita kardeciana em diálogo com a tradição filosófica e com a filosofia espírita presente nos pensadores e pesquisadores que estudamos.

Nesse caminho, o IFEHP sempre prezou pela independência institucional, não tendo nunca se filiado a nenhum órgão federativo oficinal, pois entendemos que a liberdade institucional é necessária para o desenvolvimento e o amadurecimento do pensamento, ainda mais em se tratando de uma instituição filosófica, que por sua natureza é livre para se expressar e para produzir conhecimentos e apontar caminhos de pesquisa e de ação. Portanto, o IFEHP é um coletivo essencialmente livre-pensador, e com o espírito do livre pensamento é que conduzimos todas as nossas ações formativas. 

Após 17 anos, continuamos mais fortes em nossos objetivos: 1) realizar letramento filosófico no meio espírita, 2) pesquisar e difundir os pensadores espíritas clássicos, sobretudo os progressistas, 3) promover o diálogo da Filosofia Espírita com a tradição filosófica e com temas filosóficos contemporâneos, e 4) produzir materiais formativos como publicações, cursos, seminários, mesas de debates, etc.

2- Contexto Brasil

O Brasil passa por um momento decisivo e urgente de mudanças a que todos nós somos chamados a colaborar enquanto espíritos encarnados, porque não podemos pecar por omissão, afinal, o bem que se deixa de fazer também é um mal. Nos encontramos novamente em um momento histórico urgente, quando somos visitados novamente pelo fantasma do fascismo e da necropolítica. A necropolítica foi a tônica da gestão do governo bolsonarista durante a pandemia de COVID-19, acarretando milhares de mortes que seriam plenamente evitáveis se tivéssemos um combate eficiente de uma gestão responsável e comprometida com a vida. Nunca poderemos nos esquecer disso, pois as ações irresponsáveis do governo bolsonarista-fascista contra o povo brasileiro durante a pandemia deverão ser lembradas como um genocídio e um total descaso diante das necessidades de um povo já tão sofrido historicamente.

3- Posicionamento do IFEHP

Localizamos o IFEHP na perspectiva da Filosofia da Ação, conceito cunhado por Herculano Pires, no prefácio de um livro de Humberto Mariotti. Na perspectiva da Filosofia da Ação, não podemos nos omitir frente aos contextos sócio-históricos da reencarnação, ou seja, não podemos tratar a reencarnação como mero laboratório de experiências individuais reduzidas à reforma íntima. Somos chamados a transformar o mundo e a nós mesmos tanto quanto pudermos. Não podemos nos furtar ao combate ético contra o avanço da extrema-direita, que mais uma vez ameaça o mundo com sua pulsão de morte e de destruição diante de todas as conquistas humanas e sociais do nosso século.

Às vésperas das eleições gerais no Brasil, novamente somos convidados a avaliar a nossa atuação a partir dos ideais do Reino legados por Jesus, como sempre nos convidou Herculano Pires, pensando na atuação política de responsabilidade com a coletividade, como uma das formas de transformar positivamente a sociedade. Estar reencarnado no mundo atual requer mais do que nunca, compromisso com as questões históricas e sociais que se impõem diante de nós, e o combate à extrema-direita nos atravessa como resistência diante da barbárie.

Votar em acordo com os ideais do Reino, é escolher candidatos e legendas que reconhecidamente são comprometidos com o bem-estar social, com a igualdade de oportunidades, com a educação, com o meio ambiente, com a saúde, com a segurança alimentar, com o combate ao discurso de ódio, com o combate à violência contra a mulher, contra a homofobia, contra o racismo, a favor da diversidade humana, e de todos os temas importantes para implementação da justiça social. Por isso, é importante também ampliarmos a quantidade de parlamentares progressistas, para que haja uma governabilidade voltada para a justiça social e para o resgate de políticas públicas que beneficiem a população, sobretudo a mais pobre.

Pelo exposto, o IFEHP vem a público declarar o voto útil e necessário na candidatura Lula/Alckmin 13 e nas legendas e candidaturas que a apoiam, para decidir a eleição em primeiro turno, por entendermos que é a única possibilidade viável, nesse momento, para derrotar o projeto político da extrema-direita representada pelo bolsonarismo e seus seguidores: uma política de morte, desemprego, fome e descaso com a população, o que jogou 33 milhões de brasileiros no mapa da fome e da insegurança alimentar no governo distópico que tivemos entre 2018 e 2022.

Por fim, agradecemos aos nossos queridos amigos e mentores espirituais dedicados à divulgação da Filosofia Espírita: Herculano Pires, Humberto Mariotti, Manuel Porteiro, Amália Soler e Anália Franco; e ao mestre Allan Kardec por aceitar o desafio de viabilizar a encarnação do Espiritismo no mundo como potencializador de transformações necessárias ao estabelecimento do Reino, como nos lembrava sempre Herculano Pires.

Sigamos firmes e confiantes em um Brasil com mais amor e mais justiça social para todos, e continuemos com nosso trabalho de divulgação da filosofia espírita em memória de Kardec, pois há ainda muito a pesquisarmos e há ainda muito a fazermos. Que Deus abençoe o Brasil e os brasileiros!



sábado, 3 de janeiro de 2026

A banalidade do mal: diálogos entre Filosofia e Psicanálise - Lindemberg Macena

 


por Lindemberg Macena, professor de filosofia e de sociologia, pedagogo, psicanalista e logoterapeuta


1. Introdução: o enigma do fascínio destrutivo

A história humana é marcada, de forma recorrente e traumática, por explosões de violência sistemática e de extermínio em massa. Guerras, genocídios, massacres e formas persistentes de violência, como o feminicídio, impõem uma questão filosófica e psicológica incômoda: por que a destruição do outro exerce um fascínio tão poderoso sobre indivíduos e coletividades? Essa atração pelo mal, longe de ser um atributo exclusivo de monstros ou psicopatas, muitas vezes emerge em contextos de normalidade aparente, envolvendo pessoas comuns em maquinários de horror. É neste terreno paradoxal que o conceito seminal de Hannah Arendt, a "banalidade do mal", se torna fundamental. Desenvolvido a partir de sua cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, o burocrata nazista, o termo propõe uma reviravolta na compreensão da maldade: seu perigo maior não estaria na radicalidade satânica, mas na trivialidade, na irreflexão e na incapacidade de pensar a partir da perspectiva do outro.

Este breve artigo propõe um diálogo interdisciplinar entre a filosofia política arendtiana e as lentes interpretativas da psicanálise, sem a pretensão de apresentar uma verdade absoluta. Partindo da análise arendtiana, que enfatiza a dimensão política, ética e fenomenológica do mal, conectamos suas reflexões com os insights sobre a destrutividade oriundos da obra de Sigmund Freud, particularmente sua teoria das pulsões, e de Carl Gustav Jung, com seus conceitos de sombra, inconsciente coletivo e complexos culturais. A hipótese central é que o fascínio pelo mal pode ser compreendido de maneira mais plena na intersecção entre a falta de pensamento e de reflexão (Arendt), a força da pulsão de morte (Freud) e a atuação de complexos culturais traumáticos (Jung). Enquanto Arendt descreve o "como" do mal burocrático e irrefletido, a psicanálise investiga os "porquês" profundos, as motivações inconscientes que alimentam a violência individual e coletiva.


2. A contribuição de Hannah Arendt

A experiência de Hannah Arendt no julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém (1961) foi um divisor de águas em seu pensamento. Expectando encontrar um monstro ideológico ou alguém psicologicamente adoecido, deparou-se com um homem "terrivelmente e assustadoramente normal". Eichmann não era um ideólogo fanático, mas um funcionário diligente, cuja principal característica era uma profunda incapacidade de pensar – isto é, de refletir criticamente sobre a natureza e as consequências de seus atos. Ele operava por clichês linguísticos e uma lógica burocrática autônoma, onde a questão moral se reduzia ao cumprimento de ordens e à eficiência administrativa.

Arendt identifica neste fenômeno a essência da "banalidade do mal". O mal não é radical, mas raso; não nasce da profundidade diabólica ou de uma natureza humana profundamente má, mas da superficialidade do não-pensamento. Ele floresce em sistemas totalitários ou autoritários que destroem o espaço público da pluralidade – a condição humana fundamental de viver entre diferentes – e substituem a ação política pela mera execução de um processo. O indivíduo se torna uma engrenagem, e sua responsabilidade se dissolve na cadeia de comando. Nesse contexto, o fascínio pela violência pode ser menos um desejo ativo e mais uma aceitação passiva, um abandono da faculdade de julgar em favor da conformidade e do pertencimento a uma máquina maior.

A filosofia de Arendt, profundamente influenciada por seu mestre e amigo Karl Jaspers, se constrói sobre o valor do "mundo comum" (amor mundi) e da pluralidade. Para Jaspers, a existência autêntica se dá na comunicação e no reconhecimento do outro na sua liberdade e diferença. A violência totalitária, ao tentar eliminar essa diferença (seja racial, étnica, política, religiosa ou de gênero), é um ataque direto à condição humana. A obediência cega de um Eichmann representa, portanto, uma falha em assumir a própria liberdade e em realizar o "pensamento vicário" – a capacidade de visitar mentalmente o ponto de vista alheio, que Arendt associa à "mentalidade alargada" kantiana e vê exemplificada em Jaspers. O fascínio pelo extermínio, então, pode ser lido como a expressão final de uma fuga da responsabilidade que o pensamento e o juízo exigem. O fascínio pelo mal é também uma forma de preguiça em desejar e fazer o bem, sobretudo o bem coletivo; é a indiferença ética que impede o espírito de se importar.


3. A psicanálise de Freud e a pulsão de morte

Se Arendt descreve o cenário político e existencial onde o mal banal prospera, a psicanálise de Sigmund Freud oferece uma etiologia da destrutividade que mergulha nas profundezas da vida psíquica. A concepção freudiana clássica do conflito entre Eros (pulsões de vida) e Thanatos (pulsão de morte) fornece uma ferramenta crucial para entender o fascínio pela violência.

Freud postulou que além das pulsões libidinais, existe uma pulsão de morte, uma tendência inerente ao organismo para retornar a um estado inorgânico, de tensão zero. Essa pulsão pode ser dirigida para dentro, manifestando-se como masoquismo ou autodestruição (conforme discutido em contextos de suicídio), ou pode ser voltada para o exterior, transformando-se em agressão, crueldade e desejo de destruição do outro. A violência, nessa perspectiva, não é um mero produto da frustração social ou da falta de educação, mas uma força estruturante da psique, sempre presente e demandando elaboração por parte do indivíduo, que se vê identificado com uma forma violenta de ser, ao ponto de justificá-la ideologicamente.

O fascínio por guerras e extermínios pode ser interpretado como uma catarse coletiva da pulsão de morte. Em situações sociais que legitimam a violência, o indivíduo tem a oportunidade de descarregar, de forma socialmente sancionada e até heróica, impulsos destrutivos que, em condições normais, seriam reprimidos ou sublimados. A adesão a ideologias que desumanizam o outro que consideramos como inimigo, facilita esse processo, pois remove as barreiras morais e a empatia que freariam a agressão.

Freud, em "O Mal-Estar na Civilização", já alertava que o controle social da destrutividade humana é sempre precário. A violência reativa muitas vezes repete um gesto originário de destruição, dissolvendo os laços sociais e criando "escombros" psíquicos e históricos difíceis de integrar. O homo violens é, portanto, uma potencialidade constante do homo sapiens. A banalidade arendtiana encontra, na teoria freudiana, seu substrato psicológico: a pessoa comum, desprovida de um pensamento crítico robusto (o superego internalizado pode ser frágil ou substituído pela autoridade externa, devido a uma moral fragilizada no indivíduo), torna-se um canal fácil para a expressão coletiva da pulsão de morte.


4. A sombra coletiva: a psicologia analítica de Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung amplia consideravelmente o escopo da investigação ao introduzir a noção de inconsciente coletivo, um estrato psíquico comum à humanidade, povoado por arquétipos (padrões universais de comportamento e imagens). Para compreender fenômenos de violência em massa como genocídios, o conceito junguiano da Sombra é particularmente relevante. A Sombra é o arquétipo que reúne tudo o que o indivíduo ou a coletividade renega, nega ou considera inaceitável em si mesmo: impulsos selvagens, raiva, cobiça, crueldade, egoísmo, orgulho, ressentimento, etc.

Quando não é conscientemente reconhecida e integrada, a Sombra é projetada no outro. Grupos étnicos, religiosos, políticos ou de gênero diferentes tornam-se receptáculos convenientes para todas as qualidades negativas que o próprio grupo não quer enxergar em si. Essa projeção massiva desumaniza o outro, transformando-o num inimigo absoluto que deve ser combatido e, se necessário, exterminado. O fascínio pela violência, aqui, está ligado a um falso sentimento de pureza e autodefesa: ao destruir o "portador" da sombra, acredita-se estar destruindo o próprio mal. É assim que vemos a estruturação atual de totalitarismos como o neonazismo, capaz de cooptar consciências desavisadas para implementar seus projetos violentos.

A pesquisa de Bruno Correia da Mota (2019) sobre o trauma coletivo do racismo no Brasil oferece uma aplicação concreta dessa teoria através do conceito de complexo cultural. Complexos são constelações de ideias, imagens e emoções carregadas, que atuam de forma autônoma na psique humana. Um complexo cultural é um complexo compartilhado por um grupo, formado a partir de experiências históricas traumáticas. O racismo estrutural, a violência da escravidão e do genocídio contra populações negras geram um complexo cultural que atua no inconsciente da nação, perpetuando padrões de opressão e reação. A violência do feminicídio também pode ser analisada por essa lente, como a expressão de um complexo cultural patriarcal que projeta na mulher a sombra do desejo incontrolável, da "ameaça" à ordem familiar, da “ameaça” às normas de masculinidade ultrapassadas, legitimando sua destruição.

Para Jung, a psique individual e a coletiva estão em constante interação. O indivíduo desprovido de uma consciência reflexiva (o "Eichmann" arendtiano) é particularmente vulnerável a ser possuído por complexos culturais ativados. O fascínio por atos de extermínio pode ser, então, a expressão de uma possessão por um complexo coletivo da sombra, onde o indivíduo deixa de agir por sua consciência pessoal e moralizadora para tornar-se um agente de um script psíquico arcaico e destrutivo. A banalidade do mal se conecta aqui com a força arquetípica do mal que, quando não reconhecida, pode dominar uma cultura inteira.


5. Diálogo e síntese: pensamento, inconsciente e a responsabilidade

A confrontação entre Arendt, Freud e Jung revela um mapa multifacetado do fascínio pelo mal. A tabela abaixo sintetiza os principais aportes de cada perspectiva:


Perspectiva

Conceito Central

Explicação para o Fascínio pela Violência

Nível de Análise

Hannah Arendt

Banalidade do Mal, Não-Pensamento

Aceitação irrefletida de ideologias, obediência burocrática, perda do juízo e da pluralidade.

Político, Ético, Fenomenológico.

Sigmund Freud

Pulsão de Morte (Thanatos)

Descarga de uma força destrutiva inata, catarse socialmente permitida, desumanização do objeto.

Intrapsíquico, Biológico-Psíquico.

Carl Gustav Jung

Sombra e Complexos Culturais

Projeção coletiva de conteúdos psíquicos negados, possessão por padrões arquetípicos destrutivos, repetição de traumas históricos.

Psíquico-Coletivo, Arquetípico, Histórico-Cultural.

Arendt nos alerta para os mecanismos políticos e sociais que tornam o mal possível: a burocracia, a linguagem clichê, a destruição do espaço público e o pensamento falho em identificar e combater as ameaças do mal. Sua análise é imprescindível para evitar a psicologização excessiva que poderia isentar os perpetradores de sua responsabilidade. O mal banal é, antes de tudo, uma falha ética e política.

Freud e Jung, por outro lado, explicam por que esses mecanismos encontram solo tão fértil na psique humana. A pulsão de morte freudiana sugere que a destrutividade é um componente ineliminável da condição humana, que a civilização tenta domar a um custo elevado. A teoria junguiana dos complexos e da sombra mostra como essa destrutividade pode se organizar em padrões coletivos transgeracionais, criando uma predisposição cultural para a violência, como evidenciado no trauma do racismo ou na retórica desumanizante de conflitos contemporâneos que envolvem guerras. No caso do feminicídio, ao desumanizar a mulher, o machismo estrutural abre campo para a manifestação dos seus complexos culturais na tentativa desesperada de manter um padrão arcaico “do que é ser homem”, e, ao encontrar resistência, reage com ressentimento e violência.

A síntese possível indica que o fascínio pelo extermínio do outro emerge na confluência trágica de três fatores: (1) uma estrutura política ou social que promove a irreflexão e a obediência (Arendt); (2) impulsos destrutivos intrapsíquicos que buscam expressão (Freud); e (3) narrativas e complexos culturais que fornecem um roteiro e um objeto legítimo para essa expressão (Jung). O indivíduo "banal" é aquele em quem a consciência pessoal (ego) se rende completamente a essas forças externas (pressão do grupo, ideologias, irracionalidade) e internas (pulsão de morte, complexos, egoísmo), abdicando daquilo que Arendt considera mais humano: a capacidade de pensar, julgar e agir com responsabilidade em um mundo comum compartilhado com outros diferentes de si.


6. Conclusão

O diálogo entre a filosofia de Hannah Arendt, a psicanálises de Freud e a psicologia de Jung, revela que o fascínio humano pela violência e pelo extermínio é um fenômeno de uma complexidade irredutível. Não pode ser explicado apenas pela monstruosidade individual, nem apenas pela patologia social, nem apenas por instintos primitivos. Ele reside na interseção perigosa onde a falta de pensamento crítico permite que forças destrutivas da psique individual e coletiva se manifestem de forma organizada e devastadora.

Arendt oferece o contorno político e moral do problema, insistindo na responsabilidade humana mesmo diante de forças avassaladoras. Freud fornece a base dinâmica e conflituosa da psique, lembrando-nos da presença constante da agressividade. Jung expande o horizonte para o campo transindividual e histórico, mostrando como os traumas e as sombras não elaboradas de uma cultura podem voltar para assombrá-la sob a forma de genocídios e violências sistemáticas que lutarão arduamente para se manterem no seio social.

Compreender esse fascínio é o primeiro passo para combatê-lo e construir uma educação que de fato impeça que Auschwitz se repita, como nos alertou Theodor Adorno. Implica cultivar o pensamento reflexivo e o juízo independente e crítico (contra a banalidade), criar canais sociais para a sublimação construtiva da agressão (contra a pulsão de morte desenfreada) e, finalmente, empreender um difícil trabalho cultural de reconhecimento e integração da própria sombra histórica (contra a projeção e a possessão por complexos destrutivos). Somente um esforço consciente nesses três fronts – ético-político, psíquico-individual e psíquico-coletivo – pode criar os antídotos necessários contra a banal e arrepiante atração pelo mal que tanto marca nossa história, permitindo finalmente melhores aspirações para os espíritos encarnados nos seus tempos históricos e sociais.



Referências

ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

FARIAS, F. R. Rastros e escombros da violência: memórias do assassinato. Cadernos de Psicanálise (Rio de Janeiro), v. 34, n. 26, 2012. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-62952012000100008[citation:6

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MOTA, B. C. Na teia do racismo: trauma coletivo e complexo cultural... marcas do Brasil negro! 2019. 188 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Instituto de Educação, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2019. Disponível em: https://rima.ufrrj.br/jspui/handle/20.500.14407/14532?mode=full[citation:2

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PSICANÁLISE (Substack). Suicídio em Freud e... além. Por Fabio Bertolozzi. Disponível em: https://psicanalise.substack.com/p/suicidio-em-freud-e-alem[citation:1