O termo mediunidade decolonial foi elaborado em 2024, em um dos encontros do IFEHP – Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires, no decorrer de um dos nossos estudos em que debatíamos parte do capítulo “O Espiritismo dialoga com o pensamento decolonial?”, do livro “Kardec para o século XXI”, de Dora Incontri. O termo surgiu naturalmente, a partir da necessidade que identificamos, de se fomentar uma mediunidade crítica, autônoma, horizontalizada e pautada na pedagogia espírita e nas obras kardequianas. O leitor pode estranhar que propomos uma questão decolonial incluindo Kardec, acusado por muitos de ser excessivamente eurocêntrico, e que, portanto, não teria protagonismo nessa questão.
O primeiro ponto para situar os leitores do nosso texto é identificar em que sentido o termo “decolonial” é aplicado na proposta de uma mediunidade autônoma e crítica. Podemos compreender a decolonialidade a partir de algumas perspectivas: 1) um conjunto de saberes que questiona a suposta supremacia e universalidade da colonialidade sobre o modo de vida e o pensamento de povos que tiveram seu território invadido, dominado e colonizado por nações europeias ao longo da história; 2) um conjunto de saberes que questiona as formas hegemônicas de estruturação da sociedade, tais como o machismo, o racismo, a intolerância religiosa, o capitalismo, o neoliberalismo, etc.; 3) uma terceira via de compreensão da decolonialidade está em questionar os saberes considerados como verdades absolutas dentro de um sistema de pensamentos e de práticas; portanto, o nosso “decolonial” se aplica a colocar em xeque o conjunto de práticas desenvolvidas pelo movimento espírita religioso e hegemônico, em torno da mediunidade, e que fomentaram uma lógica de corpos e mentes dóceis que seguem parâmetros considerados como verdades inquestionáveis e infalíveis, o que fez com que os espíritas abandonassem a obra de Kardec no campo da pesquisa mediúnica, não raro afirmando que ele estaria ultrapassado frente às supostas revelações espirituais atualizadas através das obras dos espíritos André Luiz e Emmanuel, amplamente aclamados no meio espírita religioso e tradicional. A nossa perspectiva também é interseccional, uma vez que dialoga de forma dialética com as ideias decoloniais que põem em xeque as hegemonias ideológicas que deram origem ao racismo, ao machismo, ao capitalismo, etc.
É impossível falar sobre mediunidade decolonial sem falar de questões sociais em geral, pois tudo está implicado, inclusive na prática mediúnica em si. Vemos que o moralismo instituído pelo movimento federativo construiu um modus operandi que define, inclusive, os espíritos que podem se comunicar e os médiuns tidos mais “confiáveis”. Espíritos não são entidades amorfas e abstratas, são seres pensantes e políticos, e por isso, trazem consigo suas ideologias, suas tendências, etc. Um Espírito progressista, se interpelado sobre questões sociais diversas, irá aprofundar suas análises em torno da organização social e das ideologias que comandam o mundo, não só da moralidade; já um Espírito conservador sendo interpelado pelo mesmo assunto, irá fazer uma análise moralista tanto quanto puder, muitas vezes sugerindo que suportemos toda sorte de injustiças sociais em prol de nos mantermos “moralmente equilibrados”.
É preciso destacar que há uma armadilha pós-moderna em torno da decolonialidade, quando, diante de tanto revisionismo e cancelamento de pensadores clássicos que ocorrem na atualidade, muitas vezes as análises incorrem em esvaziamento do pensamento e dos referenciais em nome de purificar o conhecimento dos ranços machistas, racistas, eurocêntricos e/ou homofóbicos de outrora. É assim que temos visto colocarem Kardec ou mesmo Herculano Pires sob as mais diversas denominações pejorativas para saciar uma sanha decolonial que não visa construir conhecimentos e nem desenvolver práticas pedagógicas em torno da releitura dos clássicos. O IFEHP se posiciona contrariamente ao cancelamento e às denominações pejorativas a quaisquer pensadores clássicos, sejam eles espíritas ou não. Precisamos aprender a dialogar com os clássicos, sem retirar os autores do seu tempo histórico e social, sob pena de incorrermos em anacronismos que apenas colaboram com os discursos pós-modernos de esvaziamento do conhecimento. Aliás, a pós-modernidade já dominou completamente o movimento espírita tradicional, ao ponto de matar a metafísica espírita originária, transformando-a em um misticismo religioso e devocional; o IFEHP acredita que enquanto espíritas progressistas, temos o dever de resgatar a metafísica espírita, pois nela estão contidas as principais linhas do pensamento kardequiano, inclusive sobre a prática da mediunidade de forma crítica e livre.
Dora Incontri (2024, p. 255) elenca algumas questões que não podem ser deixadas de lado quando analisamos a figura histórica de Allan Kardec:
Ora, Kardec era um europeu, francês, mergulhado numa história narrada a partir da perspectiva eurocêntrica e não poderia fugir dessa condição. Por isso mesmo, é anacronismo exigir que Kardec tivesse defendido posições decoloniais que ele desconhecia e que não estavam dadas no contexto científico de seu tempo. Por outro lado, é possível articularmos fragmentos do pensamento espírita kardequiano para, neste século 21, fazermos dialogar com a decolonialidade e os saberes do Sul.
E continua na página 259:
(…) Rivail adentra o mundo dos Espíritos, para sondar como seria esse mundo e para constituir uma nova visão das coisas a partir do diálogo estabelecido com o Além. Mas ele estava embebido de um humanismo legitimamente cristão, de uma intenção sincera de amor universal e estava sob a inspiração do Espírito da Verdade – que era o próprio Cristo, que vinha falar àqueles que se diziam seus seguidores, mas eram incapazes de agir com fraternidade e respeito em relação a outros povos. O propósito de Kardec era nobre, era elevado, e não compactuava conscientemente com nenhum projeto de poder, dominação ou exploração. Kardec era um educador, interessado em promover desde sempre, na boa tradição de seus antecessores Comenius, Rousseau e Pestalozzi, um mundo mais justo e onde as relações entre os indivíduos e os povos fossem de real solidariedade.
Do pensamento esclarecido e emancipado de Kardec e da sua sensibilidade humanista brotam as mais brilhantes passagens de igualdade, de abolição dos preconceitos de castas e de cor, sobre o fim da sujeição da mulher, colocando a reencarnação como meio primordial pelo qual todas as desigualdades deverão sucumbir, para dar lugar a um mundo de paz e de justiça social, ou seja, um mundo reformado socialmente. Nesse sentido, parece que mesmo no meio espírita progressista ainda padecemos do mesmo problema desde a fundação da FEB: a incompreensão em torno das ideias e do trabalho de Kardec. Chamá-lo de racista ou de homofóbico pode até apaziguar os egos decoloniais inflados, mas não diminuirá a importância da sua obra humanista, tendo em vista que o Espiritismo se apresenta no século XIX como uma filosofia de ruptura frente aos conhecimentos hegemônicos da época.
Todo o debate fomentado em nosso encontro de estudos do IFEHP, avançou para a elaboração de uma proposta ousada: a criação de um curso inédito no meio espírita, chamado “Mediunidade Decolonial”, um curso para podermos elencar todas as questões pertinentes às críticas em torno da mediunidade heterônoma criada pelo movimento espírita tradicional; um curso de rupturas e de artesanias filosóficas com amplo espaço para o debate de ideias. Foi então que em setembro de 2024, o IFEHP deu a largada no curso pensado, maturado e elaborado por seis coordenadores do instituto: Lindemberg Castro, Heloísa Canali, Eduardo Silveira, Raimundo Filho, Ruth Barros e Fábio Diório. O curso foi montado da seguinte forma: Módulo I – Introdução (15 encontros), Módulo II – Filosofia e Mediunidade (11 encontros), Módulo III – Mediunidade e Atualidades (09 encontros), Módulo IV – Pesquisa Mediúnica (06 encontros), totalizando 08 meses de curso, com um encontro semanal às terças-feiras. O curso conta com professores do próprio IFEHP e convidados externos, na abordagem de temas diversos como “história das religiões mediúnicas”, “interexistencialidade e mediunidade”, “evocação como prática de autonomia”, “diálogos com a umbanda e o candomblé”, “a filosofia grega e a mediunidade”, “pós-modernidade e mediunidade”, “mediunidade e psicanálise”, etc.
Na ementa que elaboramos, consta o seguinte escopo:
O curso “Mediunidade Decolonial” visa apresentar uma proposta pedagógica que envolva a aprendizagem e a vivência da mediunidade de forma autônoma e crítica. O termo “decolonial” se apresenta como uma crítica aos métodos heterônomos de educação bancária, utilizados pelo movimento espírita tradicional e institucionalizado na formação de médiuns ao longo de sua história, construindo assim corpos e mentes dóceis na prática de uma mediunidade heterônoma, e não autônoma. Não é um curso de desenvolvimento mediúnico, é antes um curso de filosofia da mediunidade com bases kardecistas e em diálogo transdisciplinar com diversos pensadores da tradição filosófica, incluindo os pensadores espíritas clássicos, com base na pedagogia espírita, e nas obras de Kardec.
O peso colonialista em torno do movimento espírita brasileiro não vem da origem europeia de Allan Kardec, mas sim de alguns pontos que podemos destacar e que são historicamente observados: 1) a criação da Federação Espírita Brasileira, instituição que já nasce carregada de religiosismo e que através dos seus agentes históricos cria arquétipos que devem ser seguidos para quem se diz espírita e médium, 2) farta literatura mediúnica romanceada que apresenta supostas verdades incontestáveis que não raro entram em franca contradição com as obras de Kardec, 3) como derivação da literatura mediúnica romanceada há a criação de mitos em torno de certos espíritos considerados infalíveis e que são venerados como santos católicos o são, 4) a criação e o reforço da imagem de médiuns sacerdotes dotados de autoridade infalível e aos quais a massa deve seguir como fonte segura de instrução e de moralidade, mesmo que seja um médium, por exemplo, que no âmbito da tribuna espírita divulgue ideias de extrema direita, cheias de moralismos neopentecostais e de conservadorismos ideológicos.
É preciso destacar que no século XIX nenhum pensador era decolonial, simplesmente porque os estudos de decolonialidade não existiam à época; no entanto, encontramos diversos pensadores humanistas, dentre eles o próprio Allan Kardec, e que, apesar de terem reproduzido certas ideias eurocêntricas de sua época, vão muito mais além de preconceitos, e direcionam seus esforços intelectuais para o desenvolvimento de perspectivas amplas sobre o ser humano e sobre as mudanças sociais necessárias para uma nova ordem no mundo; no caso de Kardec envolve a nova ordem espiritual e suas consequências morais e sociais. Os diários de Albert Einstein elencam relatos os mais bizarros, sobre os povos que visitou em suas viagens entre 1922 e 1925; são relatos chocantes, eurocêntricos e que causam pavor a qualquer pessoa que os ler; no entanto, quem ousaria dizer que Albert Einstein deveria ser “cancelado” ou que o brilho da sua contribuição para a humanidade tornou-se imprestável por causa da sua visão eurocêntrica?
Para criarmos uma educação decolonial, primeiramente é preciso ampliar e entender a aplicação do conceito em diferentes frentes e usos, inclusive para questionarmos as hegemonias epistemológicas em geral, e não apenas o eurocentrismo; em segundo lugar, de forma pedagógica, contextualizar os pensadores clássicos sem recair em anacronismo, e em terceiro lugar, educar as novas gerações para que se construam conhecimentos capazes de ampliar cada vez mais a percepção da sociedade sobre os mais variados assuntos.
Destacamos abaixo os princípios pedagógicos que nortearam a elaboração do curso, e que tem norteado as nossas práticas na construção dos conteúdos abordados.
O termo decolonial se apresenta como uma crítica aos métodos heterônomos de educação bancária na formação de médiuns ao longo da história do Espiritismo no Brasil. São métodos que envolvem reprodução de teoria e prática como um modelo fabril de repetição institucional. Por isso, a mediunidade decolonial nasce conectada com a Pedagogia Espírita e suas profundas reflexões sobre o ser humano e sobre o exercício mediúnico, repensando teorias e construindo novas práticas.
A mediunidade heterônoma cria corpos e mentes dóceis, para utilizarmos um termo de Foucault ao se referir às sociedades disciplinares, inibindo naturalmente a autonomia. Ou seja, o movimento espírita institucionalizado possui o seu próprio panóptico que atua em constante vigilância para garantir que as práticas mediúnicas sejam heterônomas nos centros espíritas.
A mediunidade decolonial tem como base o kardecismo, pois é sua herdeira e também seu desdobramento natural. Ela é capaz de dialogar com todas as perspectivas contemporâneas em torno da mediunidade, inclusive sobre as questões sociais do nosso tempo. Sim, há algo que o movimento espírita tradicional jamais pensou a respeito: a relação entre mediunidade e a vida social; as reflexões do filósofo espírita argentino Humberto Mariotti em torno do conceito criado por ele sobre mediunidade social e as reflexões do filósofo brasileiro Herculano Pires e do filósofo argentino Manuel Porteiro sobre a sociologia espírita fomentaram um novo campo de pesquisa filosófica ainda pouco explorado, mas que é estudado pelo IFEHP.
A mediunidade decolonial é essencialmente filosófica, promovendo diálogos entre a Filosofia Espírita com os mais diversos filósofos da tradição filosófica, incluindo filósofos espíritas, espiritualistas e também ateus e agnósticos. Ou seja, a mediunidade decolonial possui um poderoso recurso de interseccionalidade que lhe permite os mais variados diálogos filosóficos.
O curso Mediunidade Decolonial não é um curso de desenvolvimento mediúnico, e sim um curso de Filosofia Espírita cujo o objeto de estudo é a mediunidade em uma perspectiva decolonial, nos moldes como já comentamos no decorrer do texto. Nossos principais referenciais espíritas, além de Allan Kardec, são: Herculano Pires, Manoel Porteiro, Humberto Mariotti, Amália Soler, Eurípedes Barsanulfo, etc.
A mediunidade decolonial dialoga de forma respeitosa com todas as tradições religiosas mediúnicas, sobretudo as suas irmãs mais próximas no Brasil, as religiões de matriz africana como Umbanda e Candomblé. Sabemos dos distanciamentos históricos e conceituais, mas destacamos também as aproximações entre Espiritismo, Umbanda e o Candomblé, pois sabemos que no cenário multicultural do Brasil e pelas práticas mediúnicas diversas, essas três escolas mediúnicas possuem entre si um grande potencial dialético e decolonial de resistência, de uma espiritualidade crítica e autônoma em meio a um país amplamente católico e neopentecostal.
A visão decolonial é naturalmente derivada de uma visão progressista, mas deve-se ter o cuidado de contextualizar, não cancelar pensadores e obras clássicos, e ainda, deve propor alternativas livres e autônomas que não cerceiem o pensamento livre e crítico. Uma visão progressista sobre a mediunidade elenca naturalmente uma perspectiva de horizontalidade em todos os processos mediúnicos, em que médiuns e espíritos podem agir livremente sem idolatria de nenhuma parte, ambos concorrendo para o mesmo fim: desenvolver uma mediunidade capaz de gerar impacto também social, e não apenas moral.
Esse é um texto introdutório, que visa apresentar brevemente a proposta em torno do conceito de mediunidade decolonial, mas que não encerra o assunto, que está em franco processo de construção teórica e prática. Em breve divulgaremos uma Parte II do texto, contendo 14 princípios que compõem a Mediunidade Decolonial, que são naturalmente derivados dos 7 princípios pedagógicos propostos acima. Esperamos que os leitores tenham aproveitado a leitura e a reflexão em prol de uma mediunidade livre, crítica, autônoma e horizontalizada.
Referências:
INCONTRI, Dora. Kardec para o século XXI. 1ª Ed. Bragança Paulista: Editora Comenius.