sábado, 8 de março de 2025

Mediunidade Decolonial: por uma espiritualidade autônoma e crítica - IFEHP

 



Por Lindemberg Castro, Heloísa Canali, Fábio Diório, Ruth Barros, Raimundo Filho, Eduardo Silveira.

O termo mediunidade decolonial foi elaborado em 2024, em um dos encontros do IFEHP – Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires, no decorrer de um dos nossos estudos em que debatíamos parte do capítulo “O Espiritismo dialoga com o pensamento decolonial?”, do livro “Kardec para o século XXI”, de Dora Incontri. O termo surgiu naturalmente, a partir da necessidade que identificamos, de se fomentar uma mediunidade crítica, autônoma, horizontalizada e pautada na pedagogia espírita e nas obras kardequianas. O leitor pode estranhar que propomos uma questão decolonial incluindo Kardec, acusado por muitos de ser excessivamente eurocêntrico, e que, portanto, não teria protagonismo nessa questão.

O primeiro ponto para situar os leitores do nosso texto é identificar em que sentido o termo “decolonial” é aplicado na proposta de uma mediunidade autônoma e crítica. Podemos compreender a decolonialidade a partir de algumas perspectivas: 1) um conjunto de saberes que questiona a suposta supremacia e universalidade da colonialidade sobre o modo de vida e o pensamento de povos que tiveram seu território invadido, dominado e colonizado por nações europeias ao longo da história; 2) um conjunto de saberes que questiona as formas hegemônicas de estruturação da sociedade, tais como o machismo, o racismo, a intolerância religiosa, o capitalismo, o neoliberalismo, etc.; 3) uma terceira via de compreensão da decolonialidade está em questionar os saberes considerados como verdades absolutas dentro de um sistema de pensamentos e de práticas; portanto, o nosso “decolonial” se aplica a colocar em xeque o conjunto de práticas desenvolvidas pelo movimento espírita religioso e hegemônico, em torno da mediunidade, e que fomentaram uma lógica de corpos e mentes dóceis que seguem parâmetros considerados como verdades inquestionáveis e infalíveis, o que fez com que os espíritas abandonassem a obra de Kardec no campo da pesquisa mediúnica, não raro afirmando que ele estaria ultrapassado frente às supostas revelações espirituais atualizadas através das obras dos espíritos André Luiz e Emmanuel, amplamente aclamados no meio espírita religioso e tradicional. A nossa perspectiva também é interseccional, uma vez que dialoga de forma dialética com as ideias decoloniais que põem em xeque as hegemonias ideológicas que deram origem ao racismo, ao machismo, ao capitalismo, etc.

É impossível falar sobre mediunidade decolonial sem falar de questões sociais em geral, pois tudo está implicado, inclusive na prática mediúnica em si. Vemos que o moralismo instituído pelo movimento federativo construiu um modus operandi que define, inclusive, os espíritos que podem se comunicar e os médiuns tidos mais “confiáveis”. Espíritos não são entidades amorfas e abstratas, são seres pensantes e políticos, e por isso, trazem consigo suas ideologias, suas tendências, etc. Um Espírito progressista, se interpelado sobre questões sociais diversas, irá aprofundar suas análises em torno da organização social e das ideologias que comandam o mundo, não só da moralidade; já um Espírito conservador sendo interpelado pelo mesmo assunto, irá fazer uma análise moralista tanto quanto puder, muitas vezes sugerindo que suportemos toda sorte de injustiças sociais em prol de nos mantermos “moralmente equilibrados”.

É preciso destacar que há uma armadilha pós-moderna em torno da decolonialidade, quando, diante de tanto revisionismo e cancelamento de pensadores clássicos que ocorrem na atualidade, muitas vezes as análises incorrem em esvaziamento do pensamento e dos referenciais em nome de purificar o conhecimento dos ranços machistas, racistas, eurocêntricos e/ou homofóbicos de outrora. É assim que temos visto colocarem Kardec ou mesmo Herculano Pires sob as mais diversas denominações pejorativas para saciar uma sanha decolonial que não visa construir conhecimentos e nem desenvolver práticas pedagógicas em torno da releitura dos clássicos. O IFEHP se posiciona contrariamente ao cancelamento e às denominações pejorativas a quaisquer pensadores clássicos, sejam eles espíritas ou não. Precisamos aprender a dialogar com os clássicos, sem retirar os autores do seu tempo histórico e social, sob pena de incorrermos em anacronismos que apenas colaboram com os discursos pós-modernos de esvaziamento do conhecimento. Aliás, a pós-modernidade já dominou completamente o movimento espírita tradicional, ao ponto de matar a metafísica espírita originária, transformando-a em um misticismo religioso e devocional; o IFEHP acredita que enquanto espíritas progressistas, temos o dever de resgatar a metafísica espírita, pois nela estão contidas as principais linhas do pensamento kardequiano, inclusive sobre a prática da mediunidade de forma crítica e livre.

Dora Incontri (2024, p. 255) elenca algumas questões que não podem ser deixadas de lado quando analisamos a figura histórica de Allan Kardec:

Ora, Kardec era um europeu, francês, mergulhado numa história narrada a partir da perspectiva eurocêntrica e não poderia fugir dessa condição. Por isso mesmo, é anacronismo exigir que Kardec tivesse defendido posições decoloniais que ele desconhecia e que não estavam dadas no contexto científico de seu tempo. Por outro lado, é possível articularmos fragmentos do pensamento espírita kardequiano para, neste século 21, fazermos dialogar com a decolonialidade e os saberes do Sul.

E continua na página 259:

(…) Rivail adentra o mundo dos Espíritos, para sondar como seria esse mundo e para constituir uma nova visão das coisas a partir do diálogo estabelecido com o Além. Mas ele estava embebido de um humanismo legitimamente cristão, de uma intenção sincera de amor universal e estava sob a inspiração do Espírito da Verdade – que era o próprio Cristo, que vinha falar àqueles que se diziam seus seguidores, mas eram incapazes de agir com fraternidade e respeito em relação a outros povos. O propósito de Kardec era nobre, era elevado, e não compactuava conscientemente com nenhum projeto de poder, dominação ou exploração. Kardec era um educador, interessado em promover desde sempre, na boa tradição de seus antecessores Comenius, Rousseau e Pestalozzi, um mundo mais justo e onde as relações entre os indivíduos e os povos fossem de real solidariedade.

Do pensamento esclarecido e emancipado de Kardec e da sua sensibilidade humanista brotam as mais brilhantes passagens de igualdade, de abolição dos preconceitos de castas e de cor, sobre o fim da sujeição da mulher, colocando a reencarnação como meio primordial pelo qual todas as desigualdades deverão sucumbir, para dar lugar a um mundo de paz e de justiça social, ou seja, um mundo reformado socialmente. Nesse sentido, parece que mesmo no meio espírita progressista ainda padecemos do mesmo problema desde a fundação da FEB: a incompreensão em torno das ideias e do trabalho de Kardec. Chamá-lo de racista ou de homofóbico pode até apaziguar os egos decoloniais inflados, mas não diminuirá a importância da sua obra humanista, tendo em vista que o Espiritismo se apresenta no século XIX como uma filosofia de ruptura frente aos conhecimentos hegemônicos da época.

Todo o debate fomentado em nosso encontro de estudos do IFEHP, avançou para a elaboração de uma proposta ousada: a criação de um curso inédito no meio espírita, chamado “Mediunidade Decolonial”, um curso para podermos elencar todas as questões pertinentes às críticas em torno da mediunidade heterônoma criada pelo movimento espírita tradicional; um curso de rupturas e de artesanias filosóficas com amplo espaço para o debate de ideias. Foi então que em setembro de 2024, o IFEHP deu a largada no curso pensado, maturado e elaborado por seis coordenadores do instituto: Lindemberg Castro, Heloísa Canali, Eduardo Silveira, Raimundo Filho, Ruth Barros e Fábio Diório. O curso foi montado da seguinte forma: Módulo I – Introdução (15 encontros), Módulo II – Filosofia e Mediunidade (11 encontros), Módulo III – Mediunidade e Atualidades (09 encontros), Módulo IV – Pesquisa Mediúnica (06 encontros), totalizando 08 meses de curso, com um encontro semanal às terças-feiras. O curso conta com professores do próprio IFEHP e convidados externos, na abordagem de temas diversos como “história das religiões mediúnicas”, “interexistencialidade e mediunidade”, “evocação como prática de autonomia”, “diálogos com a umbanda e o candomblé”, “a filosofia grega e a mediunidade”, “pós-modernidade e mediunidade”, “mediunidade e psicanálise”, etc.

Na ementa que elaboramos, consta o seguinte escopo:

O curso “Mediunidade Decolonial” visa apresentar uma proposta pedagógica que envolva a aprendizagem e a vivência da mediunidade de forma autônoma e crítica. O termo “decolonial” se apresenta como uma crítica aos métodos heterônomos de educação bancária, utilizados pelo movimento espírita tradicional e institucionalizado na formação de médiuns ao longo de sua história, construindo assim corpos e mentes dóceis na prática de uma mediunidade heterônoma, e não autônoma. Não é um curso de desenvolvimento mediúnico, é antes um curso de filosofia da mediunidade com bases kardecistas e em diálogo transdisciplinar com diversos pensadores da tradição filosófica, incluindo os pensadores espíritas clássicos, com base na pedagogia espírita, e nas obras de Kardec.

O peso colonialista em torno do movimento espírita brasileiro não vem da origem europeia de Allan Kardec, mas sim de alguns pontos que podemos destacar e que são historicamente observados: 1) a criação da Federação Espírita Brasileira, instituição que já nasce carregada de religiosismo e que através dos seus agentes históricos cria arquétipos que devem ser seguidos para quem se diz espírita e médium, 2) farta literatura mediúnica romanceada que apresenta supostas verdades incontestáveis que não raro entram em franca contradição com as obras de Kardec, 3) como derivação da literatura mediúnica romanceada há a criação de mitos em torno de certos espíritos considerados infalíveis e que são venerados como santos católicos o são, 4) a criação e o reforço da imagem de médiuns sacerdotes dotados de autoridade infalível e aos quais a massa deve seguir como fonte segura de instrução e de moralidade, mesmo que seja um médium, por exemplo, que no âmbito da tribuna espírita divulgue ideias de extrema direita, cheias de moralismos neopentecostais e de conservadorismos ideológicos.

É preciso destacar que no século XIX nenhum pensador era decolonial, simplesmente porque os estudos de decolonialidade não existiam à época; no entanto, encontramos diversos pensadores humanistas, dentre eles o próprio Allan Kardec, e que, apesar de terem reproduzido certas ideias eurocêntricas de sua época, vão muito mais além de preconceitos, e direcionam seus esforços intelectuais para o desenvolvimento de perspectivas amplas sobre o ser humano e sobre as mudanças sociais necessárias para uma nova ordem no mundo; no caso de Kardec envolve a nova ordem espiritual e suas consequências morais e sociais. Os diários de Albert Einstein elencam relatos os mais bizarros, sobre os povos que visitou em suas viagens entre 1922 e 1925; são relatos chocantes, eurocêntricos e que causam pavor a qualquer pessoa que os ler; no entanto, quem ousaria dizer que Albert Einstein deveria ser “cancelado” ou que o brilho da sua contribuição para a humanidade tornou-se imprestável por causa da sua visão eurocêntrica?

Para criarmos uma educação decolonial, primeiramente é preciso ampliar e entender a aplicação do conceito em diferentes frentes e usos, inclusive para questionarmos as hegemonias epistemológicas em geral, e não apenas o eurocentrismo; em segundo lugar, de forma pedagógica, contextualizar os pensadores clássicos sem recair em anacronismo, e em terceiro lugar, educar as novas gerações para que se construam conhecimentos capazes de ampliar cada vez mais a percepção da sociedade sobre os mais variados assuntos.

Destacamos abaixo os princípios pedagógicos que nortearam a elaboração do curso, e que tem norteado as nossas práticas na construção dos conteúdos abordados.

  1. O termo decolonial se apresenta como uma crítica aos métodos heterônomos de educação bancária na formação de médiuns ao longo da história do Espiritismo no Brasil. São métodos que envolvem reprodução de teoria e prática como um modelo fabril de repetição institucional. Por isso, a mediunidade decolonial nasce conectada com a Pedagogia Espírita e suas profundas reflexões sobre o ser humano e sobre o exercício mediúnico, repensando teorias e construindo novas práticas.

  2. A mediunidade heterônoma cria corpos e mentes dóceis, para utilizarmos um termo de Foucault ao se referir às sociedades disciplinares, inibindo naturalmente a autonomia. Ou seja, o movimento espírita institucionalizado possui o seu próprio panóptico que atua em constante vigilância para garantir que as práticas mediúnicas sejam heterônomas nos centros espíritas.

  3. A mediunidade decolonial tem como base o kardecismo, pois é sua herdeira e também seu desdobramento natural. Ela é capaz de dialogar com todas as perspectivas contemporâneas em torno da mediunidade, inclusive sobre as questões sociais do nosso tempo. Sim, há algo que o movimento espírita tradicional jamais pensou a respeito: a relação entre mediunidade e a vida social; as reflexões do filósofo espírita argentino Humberto Mariotti em torno do conceito criado por ele sobre mediunidade social e as reflexões do filósofo brasileiro Herculano Pires e do filósofo argentino Manuel Porteiro sobre a sociologia espírita fomentaram um novo campo de pesquisa filosófica ainda pouco explorado, mas que é estudado pelo IFEHP.

  4. A mediunidade decolonial é essencialmente filosófica, promovendo diálogos entre a Filosofia Espírita com os mais diversos filósofos da tradição filosófica, incluindo filósofos espíritas, espiritualistas e também ateus e agnósticos. Ou seja, a mediunidade decolonial possui um poderoso recurso de interseccionalidade que lhe permite os mais variados diálogos filosóficos.

  5. O curso Mediunidade Decolonial não é um curso de desenvolvimento mediúnico, e sim um curso de Filosofia Espírita cujo o objeto de estudo é a mediunidade em uma perspectiva decolonial, nos moldes como já comentamos no decorrer do texto. Nossos principais referenciais espíritas, além de Allan Kardec, são: Herculano Pires, Manoel Porteiro, Humberto Mariotti, Amália Soler, Eurípedes Barsanulfo, etc.

  6. A mediunidade decolonial dialoga de forma respeitosa com todas as tradições religiosas mediúnicas, sobretudo as suas irmãs mais próximas no Brasil, as religiões de matriz africana como Umbanda e Candomblé. Sabemos dos distanciamentos históricos e conceituais, mas destacamos também as aproximações entre Espiritismo, Umbanda e o Candomblé, pois sabemos que no cenário multicultural do Brasil e pelas práticas mediúnicas diversas, essas três escolas mediúnicas possuem entre si um grande potencial dialético e decolonial de resistência, de uma espiritualidade crítica e autônoma em meio a um país amplamente católico e neopentecostal.

  7. A visão decolonial é naturalmente derivada de uma visão progressista, mas deve-se ter o cuidado de contextualizar, não cancelar pensadores e obras clássicos, e ainda, deve propor alternativas livres e autônomas que não cerceiem o pensamento livre e crítico. Uma visão progressista sobre a mediunidade elenca naturalmente uma perspectiva de horizontalidade em todos os processos mediúnicos, em que médiuns e espíritos podem agir livremente sem idolatria de nenhuma parte, ambos concorrendo para o mesmo fim: desenvolver uma mediunidade capaz de gerar impacto também social, e não apenas moral.

Esse é um texto introdutório, que visa apresentar brevemente a proposta em torno do conceito de mediunidade decolonial, mas que não encerra o assunto, que está em franco processo de construção teórica e prática. Em breve divulgaremos uma Parte II do texto, contendo 14 princípios que compõem a Mediunidade Decolonial, que são naturalmente derivados dos 7 princípios pedagógicos propostos acima. Esperamos que os leitores tenham aproveitado a leitura e a reflexão em prol de uma mediunidade livre, crítica, autônoma e horizontalizada. 

Referências:

INCONTRI, Dora. Kardec para o século XXI. 1ª Ed. Bragança Paulista: Editora Comenius.


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Introdução às Feridas Narcísicas de Freud – Parte 1 - por Lindemberg Castro

 


Sigmund Freud, um dos fundadores da psicanálise, introduziu o conceito das "feridas narcísicas" como uma maneira de explicar os impactos profundos que certas descobertas científicas e filosóficas tiveram sobre a percepção humana de si mesma. Essas feridas representam momentos históricos em que a humanidade foi forçada a confrontar verdades desconfortáveis sobre sua posição no universo, desafiando a visão antropocêntrica predominante até então.

Para Freud, esses eventos não apenas abalaram as bases do pensamento humano, mas também provocaram reações emocionais profundas, comparáveis a traumas psicológicos coletivos.

A primeira dessas feridas é atribuída à revolução heliocêntrica, liderada por Nicolau Copérnico no século XVI. Antes dessa descoberta, a Terra era vista como o centro do universo, com os seres humanos ocupando um lugar privilegiado na criação divina. No entanto, ao demonstrar que a Terra girava em torno do Sol, Copérnico deslocou a humanidade de seu suposto pedestal cósmico, revelando que nosso planeta era apenas mais um entre muitos corpos celestes. Essa mudança de paradigma foi devastadora para o narcisismo humano, pois questionou diretamente a ideia de que o ser humano era o ponto focal do universo.

A segunda ferida narcísica surgiu com a teoria evolucionista de Charles Darwin, formalizada no século XIX. A publicação de A Origem das Espécies trouxe à tona a ideia de que os seres humanos não eram criaturas especiais, separadas do restante do mundo animal, mas sim descendentes de ancestrais primatas. Essa revelação desafiou a crença de que o homem era uma criação divina única e superior, colocando-o em igualdade biológica com outras formas de vida. O impacto dessa descoberta foi imenso, pois ela minou a autoimagem humana como senhor absoluto da natureza.

Por fim, a terceira ferida narcísica é atribuída à própria psicanálise, fundada por Freud no final do século XIX e início do XX. Ao propor que grande parte do comportamento humano é determinada por impulsos inconscientes, muitas vezes inacessíveis à consciência, Freud retirou do ser humano o controle total sobre suas próprias ações e decisões. Essa descoberta foi particularmente dolorosa, pois confrontou a ilusão de que o ego humano era plenamente racional e autônomo, revelando, em vez disso, que ele estava sujeito a forças internas e externas que escapavam ao seu domínio consciente.

As três feridas narcísicas de Freud – copernicana, darwiniana e freudiana – são, portanto, marcos históricos que desafiaram a centralidade humana no cosmos, na natureza e na mente. Cada uma delas causou uma ruptura significativa na forma como a humanidade se percebe, forçando-a a repensar sua identidade e lugar no universo. Este texto explorará cada uma dessas feridas em detalhes, analisando seus contextos históricos, implicações filosóficas e psicológicas, bem como seu impacto duradouro sobre a cultura e a ciência contemporâneas. Além disso, discutiremos como essas feridas continuam a influenciar nossa compreensão de temas como identidade, moralidade e o papel do ser humano no mundo moderno.

A Primeira Ferida Narcísica: A Revolução Heliocêntrica de Copérnico

A primeira ferida narcísica, conforme descrita por Freud, remonta ao século XVI e está intrinsecamente ligada à revolução heliocêntrica liderada por Nicolau Copérnico. Antes dessa descoberta transformadora, a visão dominante do cosmos era geocêntrica, baseada nas ideias de Aristóteles e Ptolomeu, que colocavam a Terra no centro do universo. Nesse modelo, os seres humanos ocupavam um lugar de destaque, sendo vistos como o ápice da criação divina e o propósito principal do universo. Essa perspectiva não apenas refletia a cosmologia científica da época, mas também sustentava sistemas filosóficos, religiosos e culturais que enxergavam o ser humano como a medida de todas as coisas. No entanto, a publicação póstuma de De Revolutionibus Orbium Coelestium (1543), obra seminal de Copérnico, desafiou essa visão ao propor que a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário. Esse novo modelo heliocêntrico deslocou a humanidade de seu suposto pedestal cósmico, revelando que nosso planeta era apenas mais um corpo celeste em um vasto sistema solar.

O impacto dessa descoberta foi avassalador, tanto do ponto de vista científico quanto psicológico. Durante séculos, a humanidade havia construído sua autoimagem em torno da ideia de que ocupava um lugar central e único no universo. Essa crença não era apenas uma questão de orgulho intelectual, mas também um pilar fundamental da teologia cristã medieval, que via o homem como o centro da criação divina. A revolução copernicana, ao contestar essa visão, gerou uma crise existencial que abalou profundamente a percepção humana de si mesma. Como observou Freud, esse evento representou a primeira grande ferida narcísica, pois confrontou a humanidade com a dura realidade de que ela não era o centro do cosmos, mas apenas uma pequena parte de algo muito maior e indiferente.

Além disso, a revolução heliocêntrica teve implicações filosóficas profundas. Pensadores como Giordano Bruno ampliaram as ideias de Copérnico, sugerindo que o universo era infinito e que outros mundos poderiam existir além da Terra. Essa expansão do cosmos levantou questões desconcertantes sobre o lugar da humanidade no universo. Se a Terra não era o centro do cosmos, qual seria o propósito do ser humano em um universo tão vasto e aparentemente indiferente? Essas perguntas desafiaram não apenas a ciência, mas também as tradições religiosas e filosóficas que haviam moldado a civilização ocidental por séculos. A visão antropocêntrica do mundo começou a ruir, dando lugar a uma nova perspectiva que enfatizava a insignificância relativa do ser humano no esquema geral do universo.

Do ponto de vista psicológico, a revolução copernicana pode ser vista como um trauma coletivo. Conforme Freud destacou, o ser humano tem uma tendência natural ao narcisismo, ou seja, à necessidade de se ver como especial e central. A descoberta de Copérnico confrontou essa necessidade, forçando a humanidade a reconhecer sua pequenez e vulnerabilidade em um universo imenso e indiferente. Essa ferida narcísica não foi apenas um golpe ao ego individual, mas também ao ego coletivo da humanidade, que viu sua autoimagem ser profundamente abalada. A transição de uma visão geocêntrica para uma visão heliocêntrica do cosmos foi, portanto, mais do que uma simples mudança científica; foi uma transformação cultural e psicológica que exigiu uma redefinição radical da identidade humana.

Em resumo, a revolução heliocêntrica de Copérnico foi um divisor de águas na história da ciência e da filosofia, marcando o início de uma nova era de pensamento que desafiou a centralidade humana no cosmos. Ao deslocar a Terra de seu lugar privilegiado no centro do universo, Copérnico lançou as bases para uma compreensão mais humilde e realista do lugar do ser humano no universo. Essa descoberta não apenas transformou a astronomia, mas também deixou cicatrizes profundas no ego humano, inaugurando o que Freud chamaria de primeira ferida narcísica. Essa ferida continua a ecoar até hoje, lembrando-nos constantemente de nossa pequenez diante da vastidão cósmica.

A Segunda Ferida Narcísica: A Teoria Evolucionista de Darwin

A segunda ferida narcísica, tal como formulada por Freud, está profundamente enraizada na teoria evolucionista proposta por Charles Darwin no século XIX. Publicada em 1859 em sua obra monumental A Origem das Espécies , a teoria da seleção natural desafiou diretamente a visão tradicional de que os seres humanos eram criaturas únicas, separadas do resto do mundo animal e dotadas de uma origem divina especial. Em vez disso, Darwin apresentou evidências convincentes de que os humanos compartilham um ancestral comum com outras espécies, incluindo primatas como chimpanzés e gorilas. Essa descoberta revolucionária colocou o ser humano em igualdade biológica com outras formas de vida, minando a ideia de que ele era uma criação divina distinta e superior. Para Freud, essa revelação representou uma ferida narcísica ainda mais profunda do que a revolução heliocêntrica de Copérnico, pois atingiu diretamente a autoimagem humana como ser especial e dominante na cadeia da vida.

Antes de Darwin, a visão dominante sobre a origem humana era moldada pela narrativa bíblica da criação, que colocava o homem como o ápice da criação divina, feito à imagem e semelhança de Deus. Essa perspectiva não apenas legitimava a supremacia humana sobre o mundo natural, mas também sustentava sistemas sociais, éticos e religiosos que justificavam a exploração e o domínio sobre outras espécies. A teoria de Darwin, no entanto, desafiou essa visão ao demonstrar que a evolução das espécies ocorria através de processos naturais, como mutação genética e seleção natural, sem intervenção divina. Ele argumentou que as diferenças entre os seres humanos e outros animais eram de grau, e não de natureza, e que características como inteligência, emoções e comportamentos sociais tinham raízes evolutivas compartilhadas. Essa conclusão foi devastadora para o narcisismo humano, pois questionou diretamente a crença de que o homem era uma criatura singular e superior, separada do resto do mundo animal.

Além disso, a teoria evolucionista de Darwin teve implicações filosóficas e éticas profundas. Ao demonstrar que os seres humanos eram produto de milhões de anos de evolução biológica, Darwin desafiou a noção de que o ser humano tinha um propósito predestinado no universo. Essa visão materialista do mundo questionou as bases da moralidade religiosa, que frequentemente vinculava o valor humano à ideia de uma alma imortal ou de um plano divino. Sem essa justificativa metafísica, surgiram novas perguntas sobre o significado da existência humana e sobre a origem dos valores morais. Filósofos e cientistas começaram a debater se a moralidade era um produto da evolução, desenvolvido para promover a cooperação e a sobrevivência em sociedade, ou se tinha uma origem transcendental. Essas discussões abriram caminho para uma nova ética secular, baseada em princípios humanistas e científicos, mas também geraram tensões entre aqueles que resistiam à ideia de que o ser humano poderia ser reduzido a meros processos biológicos.

Do ponto de vista psicológico, a teoria de Darwin também representou um golpe ao narcisismo humano ao confrontar a ilusão de superioridade moral e intelectual. Freud observou que o ser humano tem uma tendência natural a se ver como especial, dotado de qualidades únicas que o distinguem de outras formas de vida. A descoberta de que o ser humano compartilha um ancestral comum com outras espécies, e que suas características distintivas, como inteligência e linguagem, surgiram gradualmente ao longo de milhões de anos, foi uma verdade difícil de aceitar. Essa ferida narcísica não apenas abalou a autoestima individual, mas também desafiou a visão coletiva da humanidade como seres superiores e destinados a governar o mundo natural. A teoria de Darwin forçou a humanidade a reconhecer sua própria animalidade, levando a uma redefinição de sua identidade e de seu lugar no mundo.

Em termos culturais, a teoria evolucionista de Darwin teve um impacto duradouro, influenciando áreas tão diversas quanto a literatura, a arte e a política. Movimentos como o naturalismo literário, liderado por escritores como Émile Zola e Thomas Hardy, exploraram as implicações da teoria evolucionista ao retratar os personagens como produtos de forças biológicas e ambientais. Na política, a teoria de Darwin foi usada tanto para justificar ideologias progressistas, que enfatizavam a igualdade e a cooperação, quanto para fundamentar ideologias opressoras, como o imperialismo e o racismo social-darwinista. Esses usos controversos da teoria evolucionista destacam a complexidade de suas implicações e o impacto profundo que teve sobre a sociedade moderna.

Em suma, a teoria evolucionista de Darwin foi um divisor de águas na história da ciência e da filosofia, marcando o início de uma nova compreensão do ser humano como parte integrante do mundo natural. Ao desafiar a visão antropocêntrica tradicional e colocar o ser humano em igualdade biológica com outras espécies, Darwin lançou as bases para uma visão mais humilde e realista da condição humana. Essa descoberta não apenas transformou a biologia, mas também deixou cicatrizes profundas no ego humano, inaugurando o que Freud chamaria de segunda ferida narcísica. Essa ferida continua a ecoar até hoje, lembrando-nos constantemente de nossa conexão com o mundo natural e de nossa própria animalidade.

A Terceira Ferida Narcísica: A Psicanálise de Freud

A terceira ferida narcísica, tal como articulada por Sigmund Freud, emerge diretamente de sua própria contribuição à psicologia: a fundação da psicanálise. Esta ferida é particularmente penetrante, pois atinge o núcleo da identidade pessoal e da autonomia humana, desafiando a noção de que o indivíduo possui controle total sobre suas ações e decisões. Freud introduziu a ideia de que grande parte do comportamento humano é dirigida por impulsos inconscientes, muitos dos quais permanecem inacessíveis à consciência. Esta revelação foi especialmente perturbadora porque confrontava a ilusão de que o ego humano era plenamente racional e autônomo, expondo-o, em vez disso, como sujeito a forças internas e externas que escapam ao seu domínio consciente.

Freud desenvolveu a psicanálise no final do século XIX e início do século XX, uma época em que a psicologia estava emergindo como uma disciplina científica independente. Ele propôs que a mente humana poderia ser dividida em três componentes principais: o id, o ego e o superego. O id representa os impulsos primitivos e instintivos, enquanto o superego incorpora as normas e valores sociais internalizados. O ego, por outro lado, tenta mediar entre as demandas conflitantes do id e do superego, bem como entre as realidades externas. A psicanálise revelou que muitas das decisões e ações humanas são influenciadas por processos inconscientes que operam abaixo do nível da consciência, muitas vezes em conflito direto com as intenções conscientes do indivíduo.

Essa descoberta teve implicações profundas para a compreensão do comportamento humano. Antes de Freud, a visão predominante era de que os seres humanos eram agentes racionais que tomavam decisões baseadas em razão e lógica. A psicanálise desafiou essa visão ao mostrar que muitas das escolhas humanas são motivadas por desejos e medos inconscientes, muitas vezes originados na infância. Isso não apenas alterou a maneira como os psicólogos entendiam a mente humana, mas também teve um impacto significativo na cultura e na sociedade. A ideia de que nossas ações podem ser influenciadas por forças que não controlamos plenamente foi uma revelação desconcertante, forçando uma reavaliação de conceitos como livre-arbítrio e responsabilidade moral.

Além disso, a psicanálise de Freud também desafiou a visão otimista do progresso humano. Enquanto muitos pensadores do século XIX acreditavam que a educação e a civilização poderiam eliminar os aspectos irracionais e primitivos da natureza humana, Freud argumentou que esses elementos eram inerentes e inevitáveis. Ele introduziu o conceito de "pulsões" ou "instintos", como a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Thanatos), que estão em constante conflito dentro do indivíduo. Esses impulsos inconscientes, segundo Freud, não só moldam o comportamento individual, mas também têm implicações sociais e culturais mais amplas. Por exemplo, ele sugeriu que muitos dos conflitos sociais e políticos poderiam ser entendidos como manifestações de pulsões agressivas e destrutivas que residem no inconsciente coletivo.

Do ponto de vista psicológico, a terceira ferida narcísica foi um golpe ao narcisismo humano ao confrontar a ilusão de controle e racionalidade. Freud observou que o ser humano tem uma tendência natural a se ver como um agente autônomo e racional, capaz de tomar decisões baseadas em razão e lógica. A descoberta de que grande parte do comportamento humano é dirigida por forças inconscientes foi uma verdade difícil de aceitar. Essa ferida narcísica não apenas abalou a autoestima individual, mas também desafiou a visão coletiva da humanidade como seres racionais e autônomos. A psicanálise forçou a humanidade a reconhecer a complexidade e a ambiguidade da mente humana, levando a uma redefinição de sua identidade e de seu lugar no mundo.

Em termos culturais, a psicanálise de Freud teve um impacto duradouro, influenciando áreas tão diversas quanto a literatura, a arte e a política. Movimentos literários e artísticos, como o surrealismo, foram profundamente influenciados pelas ideias de Freud sobre o inconsciente e os sonhos. Na política, a psicanálise foi usada para entender e explicar fenômenos como o autoritarismo e o fascismo, que Freud via como expressões de pulsões agressivas e destrutivas. Esses usos diversos da psicanálise destacam a complexidade de suas implicações e o impacto profundo que teve sobre a sociedade moderna.

Em resumo, a psicanálise de Freud foi um divisor de águas na história da psicologia e da filosofia, marcando o início de uma nova compreensão do ser humano como um ser complexo e multifacetado. Ao desafiar a visão de que o indivíduo possui controle total sobre suas ações e decisões, Freud lançou as bases para uma visão mais humilde e realista da condição humana. Essa descoberta não apenas transformou a psicologia, mas também deixou cicatrizes profundas no ego humano, inaugurando o que ele chamaria de terceira ferida narcísica. Essa ferida continua a ecoar até hoje, lembrando-nos constantemente de nossa própria complexidade e das forças inconscientes que moldam nossas vidas.

Implicações Filosóficas e Psicológicas das Três Feridas Narcísicas

As três feridas narcísicas descritas por Freud – copernicana, darwiniana e freudiana – não apenas transformaram a ciência e a filosofia, mas também provocaram reflexões profundas sobre a identidade humana, a moralidade e o papel do ser humano no mundo. Cada uma dessas feridas abalou pilares fundamentais da autoimagem humana, forçando a humanidade a repensar sua posição no cosmos, na natureza e na própria mente. Essas mudanças, por sua vez, geraram implicações filosóficas e psicológicas que continuam a influenciar debates contemporâneos sobre temas como liberdade, responsabilidade moral e a busca de sentido.

Identidade Humana: A Perda do Centro Cósmico e Biológico

A primeira ferida narcísica, associada à revolução heliocêntrica de Copérnico, deslocou o ser humano de seu suposto pedestal cósmico. Até então, a Terra era vista como o centro do universo, e os seres humanos ocupavam um lugar privilegiado nessa ordem divina. A descoberta de que a Terra girava em torno do Sol foi devastadora para a identidade humana, pois confrontou a humanidade com sua insignificância no vasto cosmos. Essa perda de centralidade cósmica foi amplificada pela segunda ferida narcísica, a teoria evolucionista de Darwin, que revelou que os seres humanos não eram criaturas únicas, mas sim descendentes de ancestrais primatas. Juntas, essas duas feridas desafiaram a ideia de que o ser humano era especial e central no universo, forçando uma redefinição da identidade humana como parte de um sistema natural maior e indiferente.

Filosoficamente, essas descobertas levantaram questões sobre o significado da existência humana. Se o ser humano não era o centro do cosmos nem uma criação divina distinta, qual seria seu propósito? Essas perguntas deram origem a novas correntes de pensamento, como o existencialismo, que enfatiza a responsabilidade individual na criação de sentido em um universo aparentemente indiferente. Autores como Jean-Paul Sartre e Albert Camus exploraram as implicações dessas feridas narcísicas, argumentando que a ausência de um propósito predestinado não diminui a importância da vida humana, mas, pelo contrário, coloca o ônus da criação de significado nas mãos do indivíduo. Essa perspectiva, embora libertadora para alguns, foi profundamente angustiante para outros, pois confrontava a humanidade com a possibilidade de que sua existência poderia ser, em última análise, arbitrária.

Psicologicamente, essas feridas também tiveram um impacto significativo na forma como os seres humanos percebem a si mesmos. A perda da centralidade cósmica e biológica abalou a autoestima coletiva, levando a uma sensação de alienação e desamparo. Como observou Freud, o ser humano tem uma tendência natural ao narcisismo, ou seja, à necessidade de se ver como especial e central. As descobertas de Copérnico e Darwin confrontaram essa necessidade, forçando a humanidade a reconhecer sua pequenez e vulnerabilidade. Essa percepção de insignificância pode levar a sentimentos de ansiedade existencial, que foram posteriormente explorados por psicólogos como Viktor Frankl, que argumentou que encontrar um sentido na vida é essencial para lidar com essa angústia.

Moralidade: A Base Instável do Comportamento Humano

A terceira ferida narcísica, associada à psicanálise de Freud, teve implicações ainda mais profundas para a moralidade. Ao revelar que grande parte do comportamento humano é dirigida por impulsos inconscientes, Freud desafiou a ideia de que os seres humanos são agentes racionais e autônomos, capazes de tomar decisões baseadas em razão e lógica. Essa descoberta questionou as bases da moralidade tradicional, que frequentemente vinculava o valor humano à ideia de livre-arbítrio e responsabilidade moral. Se as ações humanas são influenciadas por forças inconscientes que escapam ao controle consciente, como podemos responsabilizar alguém por seus atos? Essa questão levou a debates intensos sobre a natureza do livre-arbítrio e a responsabilidade moral.

Filosoficamente, a psicanálise de Freud influenciou movimentos como o estruturalismo e o pós-estruturalismo, que enfatizam a influência de estruturas sociais, culturais e psicológicas sobre o comportamento humano. Autores como Michel Foucault e Jacques Lacan exploraram as implicações dessas ideias, argumentando que o indivíduo não é um agente autônomo, mas sim um produto de forças externas e internas que moldam sua identidade e comportamento. Essa perspectiva desafiou a moralidade tradicional, que frequentemente pressupõe que os indivíduos são responsáveis por suas ações. Em vez disso, ela sugere que a moralidade deve ser entendida em termos de contextos sociais e psicológicos mais amplos, levando a uma reavaliação de conceitos como culpa, punição e redenção.

Psicologicamente, a terceira ferida narcísica também teve implicações significativas para a prática clínica. A ideia de que o comportamento humano é influenciado por forças inconscientes levou ao desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas, como a terapia cognitivo-comportamental e a terapia psicanalítica, que buscam ajudar os indivíduos a compreender e gerenciar essas forças. Além disso, a psicanálise de Freud influenciou a compreensão de transtornos mentais, como a depressão e a ansiedade, que muitas vezes são resultado de conflitos internos e traumas inconscientes. Essa perspectiva ajudou a desestigmatizar doenças mentais, reconhecendo que elas não são falhas morais, mas sim condições que podem ser tratadas com intervenções psicológicas e médicas.

O Papel do Ser Humano no Mundo: Uma Perspectiva Multifacetada

Finalmente, as três feridas narcísicas de Freud também tiveram implicações profundas para o papel do ser humano no mundo. A primeira ferida, ao deslocar a Terra de seu lugar central no cosmos, forçou a humanidade a reconhecer sua pequenez em relação ao universo. A segunda ferida, ao colocar o ser humano em igualdade biológica com outras espécies, desafiou a ideia de que ele era o senhor absoluto da natureza. E a terceira ferida, ao revelar que o comportamento humano é influenciado por forças inconscientes, confrontou a ilusão de controle e racionalidade. Juntas, essas descobertas levaram a uma visão mais humilde e realista do lugar do ser humano no mundo, que enfatiza sua conexão com o cosmos, a natureza e a própria mente.

Filosoficamente, essa visão multifacetada do papel humano no mundo influenciou movimentos como o ambientalismo, que enfatiza a interdependência entre os seres humanos e o meio ambiente. Autores como Aldo Leopold e Arne Naess argumentaram que a humanidade deve abandonar a ideia de superioridade sobre a natureza e adotar uma ética ecocêntrica, que reconhece o valor intrínseco de todas as formas de vida. Essa perspectiva foi ampliada pela psicanálise de Freud, que revelou que os seres humanos não são agentes racionais e autônomos, mas sim parte de um sistema natural maior que inclui forças internas e externas que escapam ao seu controle.

Psicologicamente, essa visão também teve implicações significativas para a saúde mental e o bem-estar. A ideia de que o ser humano é parte de um sistema natural maior ajudou a desenvolver abordagens terapêuticas que enfatizam a conexão entre o indivíduo e o mundo exterior. Práticas que buscam ajudar os indivíduos a reconectar-se com a natureza e a si mesmos, promovendo um senso de equilíbrio e harmonia. Essas abordagens reconhecem que o bem-estar humano depende não apenas de fatores internos, como pensamentos e emoções, mas também de fatores externos, como o meio ambiente, as questões sociais e históricas e as relações sociais.

Em resumo, as três feridas narcísicas de Freud tiveram e ainda têm implicações profundas para a identidade humana, a moralidade e o papel do ser humano no mundo. Essas descobertas desafiaram a autoimagem humana como ser especial e central, forçando uma redefinição de sua posição no cosmos, na natureza e na própria mente. Essas mudanças geraram reflexões filosóficas e psicológicas que continuam a influenciar debates contemporâneos sobre temas como liberdade, responsabilidade moral e a busca de sentido. Ao confrontar a humanidade com sua pequenez e vulnerabilidade, essas feridas narcísicas abriram caminho para uma compreensão mais humilde e realista da condição humana. Esse é o próprio papel da Psicanálise: analisar com realismo e assertividade a condição humana, sem permitir-lhe ilusões que facilmente a levariam ao fracasso civilizatório.


segunda-feira, 29 de julho de 2024

Em defesa da Pedagogia Espírita e do Espiritismo Crítico - IFEHP

 


Articulistas da Equipe IFEHP: Lindemberg Castro, Eduardo Silveira, Heloísa Canali, Fábio Diório, Ruth Barros, Raimundo Filho.

Desde a década de 1970, quando Herculano Pires lançou as bases da Pedagogia Espírita, o movimento espírita em geral, mesmo sem conhecer a proposta a fundo, ignora e até faz campanha contra as ideias de Herculano acerca da educação espírita. Ainda atualmente, a resistência à Pedagogia Espírita continua, e de tempos em tempos vemos campanhas contrárias sendo propagadas entre os espíritas tradicionais religiosos, mas também, e essa é a grande novidade atual, partindo de parte dos espíritas considerados progressistas. Assim como em 1970, quando Herculano Pires publicou o número 1 da Revista Educação Espírita, através da Edicel, em 2024 o cenário não é muito diferente, embora os claros avanços da Pedagogia Espírita, sobretudo a partir da fundação da Editora Comenius em 1998, da fundação da ABPE – Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, em 2004, da criação do Curso de Pós-graduação em Pedagogia Espírita em 2005, e da fundação da Universidade Livre Pampédia em 2015, projetos coordenados por Dora Incontri, e que prestam grandes serviços educacionais a partir da educação espírita.

Ao criar a Revista Educação Espírita, Herculano sofreu toda sorte de “cancelamentos” por parte do movimento espírita da época; foi acusado de autopromoção, foi acusado de fazer uma interpretação equivocada do Espiritismo, e também foi acusado de tentar promover lucro a partir da revista. Poucos foram aqueles que o apoiaram além de Frederico Gianini, então editor-proprietário da Edicel, o que fez com que a Revista tivesse apenas seis números, encerrando as suas atividades em 1974. E aqui destacamos os nomes de Humberto Mariotti e Deolindo Amorim, dentre os confrades apoiadores do projeto desde o início. Ou seja, a indiferença do movimento espírita, transformada em difamação, foi a tônica daquele momento, e assim o movimento espírita ignorava mais uma vez (e hoje não é diferente), as condições materiais da existência, em não compreender que uma revista impressa sobretudo naquela época, sem internet, precisava de recursos financeiros para se manter. A incompreensão também ocorreu pelo preceito falseado de acusar de autopromoção todos os pensadores espíritas autônomos, capazes de desenvolver filosófica e cientificamente o legado de Allan Kardec; certamente Herculano não foi o primeiro a ser acusado desta forma, pois, para o movimento espírita institucionalizado, era e é um lugar-comum utilizar dessa “metodologia” de invisibilização dos pensadores críticos e autônomos.

O Espiritismo é um projeto de educação, foi a compreensão de Herculano, e nós do IFEHP – Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires, endossamos a premissa mais básica da Pedagogia Espírita: “o educando é um ser reencarnado”. Tal concepção veio para revolucionar a nossa compreensão da educação do espírito, mas não é uma concepção para a “vida futura numa colônia espiritual”, é algo a ser implementado como proposta pedagógica em um tempo histórico e social. E nesse sentido, também declaramos o nosso apoio irrestrito à ABPE, nas pessoas de Dora Incontri e Maurício Zanolini, que têm se dedicado a uma tarefa pedagógica gigantesca desde 1998 com a fundação da ABPE e todos os projetos desenvolvidos a partir de então, sobretudo a pós-graduação livre em Pedagogia Espírita, a Universidade Livre Pampédia e a Editora Comenius. Os projetos da ABPE são como um oásis no meio espírita encharcado de igrejismo, de fundamentalismo e de concepções tacanhas, uma vez que oferece um robusto material crítico e de pesquisa em forma de cursos e de livros.

Infelizmente, continuamos no mesmo debate de 1970, pela incompreensão sobre a questão dos custos para manter um projeto como a ABPE ou qualquer outro projeto de educação espírita. Mesmo entre espíritas progressistas essa questão por vezes é tabu, o que mostra como o movimento espírita religioso foi eficiente em criar um arquétipo de gratuidade como sinônimo de simplicidade e humildade, uma verdadeira pieguice; e esse arquétipo possui como fundamento a caridade compreendida de forma enviesada, desenvolvido na medida para manter mentes e corpos dóceis, dependentes da lógica que ignora as condições práticas da existência.

Enquanto o movimento espírita se debate sobre essa questão inócua, há no Brasil centenas de escolas pautadas na Pedagogia Waldorf, criada a partir da Antroposofia, escola espiritualista fundada por Rudolf Steiner; e para manter toda essa estrutura, há custos, obviamente, e as Escolas Waldorf cobram mensalidades, pagam professores e coordenadores (afinal, são trabalhadores), fazem formações em 21 estados brasileiros, compram materiais diversos para o funcionamento das escolas, etc. E não vemos nenhum questionamento sobre como essa estrutura é mantida a partir de condições práticas, materiais. Seria ingenuidade achar que a caridade material seria suficiente para manter um projeto de educação tão robusto como o da Pedagogia Waldorf, que em 2020 completou 100 anos de existência e é apontada pela UNESCO como capaz de responder aos desafios do nosso tempo. Ou seja, nós espíritas estamos mais do que atrasados, presos a um debate purista e moralista.

Herculano, assim como a ABPE e nós do IFEHP, compreendia o espiritismo também como um projeto cultural; aliás ele sustentava fortes críticas contra o movimento espírita religioso que não via os centros espíritas como centros culturais de difusão de uma cultura espírita conectada com o mundo, com o tempo histórico da reencarnação. Por isso mesmo, ele propôs a criação das Escolas de Espiritismo, escolas essas que não deveriam esperar pela boa vontade de um mecenas, para que pudessem funcionar a contento; na proposta de Herculano, as escolas teriam que gerar recursos para pagamento de espaço, de professores, de coordenadores e diretores, de materiais, espaço e recursos para formar uma biblioteca, etc. Os cursos deveriam ser de nível acadêmico e universitário, e conectados com as áreas do conhecimento humano, desenvolvendo assim um trabalho cultural e educacional.

Herculano até convida os “mecenas espíritas” a direcionarem seus vastos recursos não somente para projetos caritativos, mas também para projetos educacionais; “os espíritas ricos deverão pensar seriamente na urgência da criação das Escolas de Espiritismo” (Pires, 2004). Contudo, passados mais de 50 anos desta proposição, poucos “mecenas espíritas” se preocupam com o desenvolvimento cultural do espiritismo.

A ABPE possui o legado direto de Herculano Pires quanto à Pedagogia Espírita, e implementou o que o próprio filósofo não viu sendo possível em sua época. O IFEHP se coloca como irmão da ABPE, pois o instituto surgiu a partir da leitura do livro “Pedagogia Espírita”, do Herculano, e há 15 anos temos estado na jornada em prol da filosofia e da pedagogia espíritas.



Convidamos a todos e todas a lerem duas obras fundamentais para compreendermos todo o debate em torno das questões que levantamos acima; a primeira é “Pedagogia Espírita”, de Herculano Pires, e a segunda é “Pedagogia Espírita: um projeto brasileiro e suas raízes”, de Dora Incontri. Sem o conhecimento mínimo dessas obras e suas proposições, toda e qualquer posição sobre a pedagogia espírita se torna uma mera opinião, portanto, é necessário que conheçamos sobre aquilo sobre o qual falamos, é um preceito básico.

E convidamos também a todos e todas a apoiarem os projetos da ABPE, da Editora Comenius, da Universidade Livre Pampédia, do IFEHP, e de todos os grupos que produzem conhecimento e cultura espíritas de forma autônoma, livre e kardecista. Como Herculano bem escreveu, precisamos desenvolver uma formação cultural-espírita como legado, pois o interesse pela assistência social não é suficiente para que a cultura espírita tenha a sua condição de cidadania no mundo.  

Referências:

PIRES, Herculano. Pedagogia Espírita. 10ª ed. São Paulo: Editora Paidéia, 2004.


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Manifesto de 13 anos do IFEHP - Por um Brasil mais justo e contra a necropolítica

 



Parece que realmente nos mistérios da vida nada acontece por acaso! No ano em que o IFEHP completa 13 anos, o Brasil passa por um momento decisivo e urgente de mudanças a que todos nós somos chamados a colaborar enquanto espíritos encarnados, porque não podemos pecar por omissão, afinal, o bem que se deixa de fazer também é um mal.

Ao longo desses 13 anos experimentamos diversos cenários, mas um deles sempre esteve conosco: o desafio de se estudar e difundir a Filosofia Espírita em um país que já tem dificuldades em lidar com a Filosofia, e no seio de um movimento espírita institucionalizado, religioso e que não conhece os próprios pensadores espíritas clássicos. Por isso, o IFEHP está afeito desde a sua fundação às contracorrentes, fazendo o seu trabalho à revelia de condições favoráveis, criando as suas próprias condições.

Jamais imaginávamos que, de um grupo de estudos pequeno fundado em 2007 por jovens idealistas, fôssemos chegar ao IFEHP fundado em 2009 e toda a jornada que estava a nos esperar nos caminhos da filosofia. Com o nosso primeiro nome homenageamos o estado do Ceará, um dos pioneiros do Espiritismo no Brasil, e foi assim que nasceu o IFEC – Instituto de Filosofia Espírita do Ceará; posteriormente decidimos homenagear o nosso querido filósofo Herculano Pires, e foi assim que nasceu o nome IFEHP – Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires.

Em nossa fundação e ações posteriores, seguimos os passos de instituições que nos inspiraram e ainda nos inspiram até hoje, como a ABPE – Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e a CEPA, atualmente designada como Associação Espírita Internacional, que tem como um dos seus fundadores outro grande pensador espírita que inspira a nossa pesquisa filosófica: Humberto Mariotti.

O IFEHP sempre prezou pela independência institucional, não tendo nunca se filiado a nenhum órgão federativo oficinal, pois entendemos que a liberdade institucional é necessária para o desenvolvimento e o amadurecimento do pensamento, ainda mais em se tratando de uma instituição filosófica, que por sua natureza é livre para se expressar e para produzir conhecimentos e apontar caminhos de pesquisa e de ação. Portanto, o IFEHP é um coletivo essencialmente livre-pensador, e com o espírito do livre pensamento é que conduzimos todas as nossas ações formativas. É por isso também que o IFEHP se posiciona contra a criação de uma instituição que represente os espíritas progressistas, sob pena de cometermos os mesmos erros da institucionalidade que já presenciamos no meio espírita ao longo de mais de um século, e também porque os coletivos progressistas devem manter sua liberdade de ação e de pensamento, atuando em regime de colaboração e não de submissão a quem quer que seja. Ninguém representa os espíritas progressistas a não ser eles mesmos, em sua diversidade e em sua liberdade.

O IFEHP insere-se hoje no movimento espírita progressista como um coletivo alinhado à filosofia social e à pesquisa filosófica, sociológica, histórica, antropológica e educacional, aproveitando ao máximo as suas vertentes de pesquisa e de atuação. Como coletivo maduro e que continua exercitando aprendizados, o IFEHP mantém-se firme em seus propósitos de ação no mundo, sempre com os olhos voltados para a epistemologia espírita kardeciana em diálogo com a tradição filosófica e com a filosofia espírita presente nos pensadores e pesquisadores que estudamos.

Após 13 anos, continuamos mais fortes em nossos objetivos: 1) realizar letramento filosófico no meio espírita, 2) pesquisar e difundir os pensadores espíritas clássicos, sobretudo os progressistas, 3) promover o diálogo da Filosofia Espírita com a tradição filosófica, e 4) produzir materiais formativos como publicações, cursos, seminários, mesas de debates, etc.

Por tudo o que expomos até aqui, localizamos o IFEHP na perspectiva da Filosofia da Ação, conceito cunhado por Herculano pires, no prefácio de um livro de Humberto Mariotti. Na perspectiva da Filosofia da Ação, não podemos nos omitir frente aos contextos sócio-históricos da reencarnação, ou seja, não podemos tratar a reencarnação como mero laboratório de experiências individuais reduzidas à reforma íntima. Somos chamados a transformar o mundo e a nós mesmos tanto quanto pudermos.

É na hora extrema em que nos encontramos que o IFEHP vem a público declarar o voto útil e necessário na candidatura Lula/Alckmin 13 e nas legendas e candidaturas que a apoiam, para decidir a eleição em primeiro turno – conforme apontam as pesquisas de intenção de voto - por entendermos que é a única possibilidade viável, nesse momento, para derrotar o projeto político da extrema-direita do atual governo: uma política de morte, desemprego, fome e descaso com a população, o que jogou 33 milhões de brasileiros no mapa da fome e da insegurança alimentar. É importante também ampliarmos a quantidade de parlamentares progressistas, para que haja uma governabilidade voltada para s justiça social e para o resgate de políticas públicas que beneficiem a população, sobretudo a mais pobre.

A necropolítica foi a tônica da gestão do atual governo durante a pandemia de COVID-19, acarretando em milhares de mortes evitáveis se tivéssemos um combate eficiente de uma gestão responsável e comprometida com a vida. Nunca poderemos nos esquecer disso, pois as ações irresponsáveis do atual governo contra o povo brasileiro durante a pandemia deverão ser lembradas como um genocídio.

Tivemos um membro do IFEHP, um grande amigo, vitimado em 2021 pela COVID-19, em um período em que o Brasil ainda se debatia sobre a questão da vacina, mesmo já tendo vacina disponível ao redor do mundo. Nosso manifesto também vem em memória de Eugênio Rodrigues Lemos, que estará sempre conosco em nossos corações.

Por fim, agradecemos aos nossos queridos amigos e mentores espirituais dedicados à divulgação da Filosofia Espírita: Herculano Pires, Humberto Mariotti, Manuel Porteiro, Amália Soler e Anália Franco; e ao mestre Allan Kardec por aceitar o desafio de viabilizar a encarnação do Espiritismo no mundo.

Sigamos firmes e confiantes em um Brasil com mais amor e mais justiça social para todos, e continuemos com nosso trabalho de divulgação da filosofia espírita, pois há ainda muito a pesquisarmos e há ainda muito a fazermos. Que assim seja!

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Manifesto do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP pelo voto útil na chapa Lula/Alckmin 13, para decidir a eleição de 2022, em primeiro turno.

 


MANIFESTO DO FÓRUM DE MULHERES ESPÍRITAS DO IFEHP PELO VOTO ÚTIL NA CHAPA LULA/ALCKMIN13, PARA DECIDIR A ELEIÇÃO DE 2022, EM PRIMEIRO TURNO.

    

O Fórum de Mulheres Espíritas do Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires (IFEHP), composto por mulheres espíritas de várias regiões do Brasil, ante o cenário político eleitoral brasileiro, em 2022, e a poucos dias do pleito, vem a público declarar o voto útil e necessário na candidatura Lula/Alckmin 13 e nas legendas que o apoiam, para decidir a eleição em primeiro turno – conforme apontam as pesquisas de intenção de voto - por entendermos que é a única possibilidade viável, nesse momento, para derrotar esse projeto político da extrema-direita do atual governo: de morte, fome e descaso com a classe trabalhadora desse país. Um projeto lastreado por um histórico de gestão irresponsável, necrófila e destruidora dos bens públicos brasileiros e dos direitos da classe trabalhadora; de posturas e atitudes machistas, misóginas, racistas, com desdobramentos no aumento da violência contra a mulher e dos números de feminicídio, bem como a naturalização com que vem sendo tratada a gestação de crianças por estupro, em situações de vulnerabilidade, inclusive fechando o debate para a questão da descriminalização do aborto.

Para o espiritismo, o homem e a mulher são iguais perante Deus e tem os mesmos direitos (Questão 817, Lei de Igualdade, Cap IX, Livro Terceiro, O Livro dos Espíritos). Com a Doutrina Espírita, a igualdade da mulher não é mais uma simples teoria especulativa; não é mais uma concessão da força à fraqueza, mas é um direito alicerçado nas próprias leis da Natureza. Dando a conhecer estas leis, o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, assim como abre a da igualdade e da fraternidade. (Revista Espírita, Janeiro de 1866). Nessa esteira, nosso Manifesto foi elaborado no sentido de convidar todas as mulheres a enfileirarem-se e abraçarem conosco essa ação coletiva urgente e relevante, pois queremos e precisamos ir além nas conquistas de políticas públicas de gênero dos governos progressistas do passado, destruídas pelo atual governo.

As gestões progressistas do passado deixaram um legado para as mulheres brasileiras e nós precisamos lutar por retomar o que foi destruído e também ampliar os direitos das mulheres e minorias nos próximos governos. Destacamos algumas iniciativas de políticas públicas do legado dos governos Lula e Dilma no campo das políticas para as mulheres, ratificando que continuaremos na luta, porque queremos e merecemos muito mais.

 • Criação, em 2003, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, sendo a responsável principal pela elaboração e monitoramento do Plano de Políticas para as Mulheres;

• Lançamento do Programa Bolsa Família, em 2003. Ênfase no protagonismo feminino no núcleo familiar quando da determinação que, sempre que possível, fosse da mulher a titularidade do cartão de pagamento.

• Transformação da Central de Atendimento à Mulher (disque 180) em Disque-Denúncia que, em 10 anos, atendeu a quase 5 milhões de mulheres.

• Promulgação, em 2006, da Lei Maria da Penha que, até 2015, possibilitou que mais de 300 mil vidas de mulheres fossem salvas e 100 mil mandados de prisão fossem expedidos.

 • Criação, em 2009, do Programa Minha Casa, Minha Vida, cujo lançamento seguiu a mesma lógica do Bolsa Família, ou seja, as chaves da casa própria seriam entregues nas mãos das mulheres, tendo a preferência na assinatura da escritura e permanecendo o imóvel com a mulher em caso de separação. 

• Criação, em 2011, da Rede Cegonha, que passou a oferecer atendimento e parto humanizado em todo o Brasil.

• Criação em 2014, da Casa da Mulher Brasileira, com o objetivo de reunir os serviços necessários à interrupção da violência, com atendimento humanizado, inclusive com alojamento temporário e atenção psicossocial. E ainda, o atendimento especializado também para mulheres brasileiras que vivem no exterior, chegou a 13 países.

• Promulgação em 2015, da Lei do Feminicídio, que transformou o homicídio contra a mulher em crime hediondo.

• Promulgação em 2015, da Lei das Domésticas, que assegura os direitos trabalhistas para milhões de mulheres trabalhadoras em lares de famílias, em sua maioria, negras e pobres.

• Construção de 8.664 creches finalizadas ou com recursos garantidos. A medida permitiu que milhões de mulheres pudessem se qualificar e entrar no mercado de trabalho.

• Documentação da trabalhadora rural, linhas de crédito PRONAF Mulher e o Programa de Organização produtiva de mulheres rurais. Com isso, as mulheres do campo passaram a ser melhor assistidas.

• Crescimento do número de mulheres matriculadas no ensino superior. Em 2002 saltou de 2 milhões para 3,7 milhões, em grande parte apoiadas pelo ProUni e Fies. Muitas delas foram as primeiras pessoas da família a ter um diploma universitário.

 Conhecedoras, portanto, do legado construído nos governos progressistas passados, interrompido pelo golpe jurídico-parlamentar-midiático que arrancou do poder a primeira mulher eleita pelo voto popular para a presidência da república do Brasil, depositamos nossas esperanças em dias melhores e na construção coletiva de políticas públicas para as mulheres e minorias. Por fim, se você pensa em abster-se do voto nessa eleição de 2022, porque não se alinha com os projetos em disputa, saiba que corremos o grande risco de que a alta abstenção contribua para fortalecer o projeto do fascismo que deseja se perpetuar no poder, e, como nós, do Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP, comungamos com a ideia de que votar em candidato ou candidata da 3ª via não nos levará a nada e que o cenário eleitoral está claro e não vai mudar, nos manifestamos pelo voto útil de bom senso na candidatura Lula/Alckmin13, para vitória no primeiro turno, sob pena de aprofundarmos o retrocesso em nosso processo civilizatório.

Seu voto fará toda a diferença!

 Fórum de Mulheres Espíritas do IFEHP - Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires

sexta-feira, 29 de julho de 2022

IFEHP publica Edital para publicação de livro coletivo dos seus membros

 


No último dia 27/07 o IFEHP publicou edital para selecionar artigos para o livro coletivo dos seus membros, cujo título provisório é "Espiritismo Dialético e temas diversos". 

Quem pode participar: membros do IFEHP e do Fórum de Mulheres Espíritas, tendo como referência a data da publicação do Edital, que é 27/07. Os novos membros que ingressarem no IFEHP e no Fórum de Mulheres após essa data poderão participar na próxima oportunidade de um novo edital; o que não impede que unam-se a nós, desde já, nas ações do IFEHP, elaborando textos que poderão, após análise do grupo gestor do IFEHP, ser publicados no nosso Blog.

Demais informações podem ser conferidas na íntegra no Edital, acesso pelo link: Edital do Livro Coletivo do IFEHP


domingo, 3 de julho de 2022

O Espiritismo e sua essência pedagógica - por Jerri Almeida

 


Artigo escrito por Jerri Almeida, escritor e livre-pensador gaúcho, publicado originalmente na página "Jerri Almeida Café com Filosofia Espírita", e gentilmente cedido pelo autor.

"O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e da Moral; é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas." [1] Allan Kardec
Ao apresentar, em 1857, a primeira edição de O Livro dos Espíritos, e ao longo do século XIX, o conjunto de sua obra, Allan Kardec desvelou um novo paradigma conceitual e filosófico para compreendermos um pouco melhor, a complexa dimensão do Ser.
O inquietante problema do futuro do Ser, com seus possíveis castigos e punições eternas, ou com sua consagração ao eterno ócio, nada criativo, serviu para atemorizar ou tornar cético os indivíduos: “Outra razão que amarra às coisas terrenas até mesmo as pessoas que acreditam firmemente na vida futura, liga-se à impressão que conservam de ensinamentos recebidos na infância. O quadro apresentado pela religião, a esse respeito, temos de convir que não é muito sedutor nem consolador.” [2]
O espiritismo representou uma verdadeira ruptura epistemológica tanto em relação aos mitos ancestrais das culturas agrárias, como com o discurso culpabilizador das teologias do medo. Kardec tem a coragem do investigador e a competência do pedagogo para examinar comparativamente os ensinos de alguns sistemas teológicos, com o espiritismo nascente.
Homem aberto ao diálogo, Kardec, por vezes, lembrou que: “As ideias falsas, postas em discussão mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica.” [3] Assinala, ainda, que o critério de análise para a aceitação de um conhecimento, dito espírita, está no controle do ensino universal dos espíritos.
Na prática, significa que nenhuma verdade aparece isoladamente. A análise do conteúdo e significado das manifestações mediúnicas, por exemplo, foram obtidas por ele através de diferentes médiuns em diferentes localidades. Tais manifestações, antes de serem aceitas como verdadeiras, eram submetidas a uma análise comparativa para que se evidenciasse ou não, o consenso e o caráter de universalidade do ensino. Kardec, utilizando-se de diferentes médiuns, propunha-lhes temas pertinentes a certos problemas filosóficos, científicos e morais, com o objetivo de colher esclarecimentos ou ensinamentos compatíveis com a natureza dos assuntos investigados. Por isso, sua ênfase na “observação” e “dedução dos fatos”, submetidos ao critério da “concordância” ou da “universalidade do ensino”, para assim serem aceitos.
Há, naturalmente, uma busca incessante de conhecimentos e reflexões, iniciadas em O Livro dos Espíritos e que, evidentemente, não para com ele, nem mesmo o esgota em todo o seu potencial doutrinário. Isso oferece, ao conjunto da obra kardequiana, uma importante organicidade e nos convida ao estudo integrado de seus textos, de forma a evitarmos a fragmentação da teoria.
O espiritismo retifica todas as ideias equivocadas, construídas ao longo da história humana, sobre o futuro da alma, sobre o céu, o inferno, as penas e as recompensas; Demonstra, tanto pelas comunicações mediúnicas, balizadas pelo método da concordância universal, como pelo viés da razão e da lógica, a impossibilidade das penas eternas e dos demônios, numa palavra: “descobre-nos a vida futura e no-la mostra racional e conforme à justiça de Deus”. [4] Abre um novo campo à educação, numa perspectiva de pensarmos o presente e o futuro com menos temor, com mais lucidez diante de nossas possibilidades de ação e aprendizado.
Dissipando velhas ideias, Kardec asseverou em 1865: “...uma ciência nova, que dá tais resultados em menos de dez anos, não é acusada de nulidade, porque toca em todas as questões vitais da humanidade e traz aos conhecimentos humanos um contingente que não é para desdenhar.” [5] O espiritismo prende-se, como afirmou [6] o insigne pedagogo francês, a todos os ramos da filosofia, da metafísica, da psicologia, da moral e, poderemos acrescentar também, da educação.
A rigor, compreendemos que a doutrina espírita, por sua natureza dinâmica, racional e ética, é capaz de formular uma educação profunda, capaz de estimular uma nova concepção do homem e da vida, posto que depositária de uma ordem de ideias essencialmente humanista. Portanto, não seria demais afirmarmos que Kardec, na sua condição de pedagogo, imprimiu no espiritismo uma essência pedagógica com dimensões muito amplas.
Discutiu, por vezes, o impacto dessas novas ideias na formação infantil.
"Ele (o espiritismo) já prova sua eficácia pela maneira mais racional pela qual são educadas as crianças nas famílias verdadeiramente espíritas. Os novos horizontes que abre o Espiritismo fazem ver as coisas de modo bem diverso; sendo o seu objetivo o progresso moral da Humanidade, forçosamente deverá projetar luz sobre a grave questão da educação moral, fonte primeira da moralização das massas." [7]
A teoria espírita lançando significativos esclarecimentos sobre o mistério da existência agrega, inevitavelmente, novos elementos na estrutura familiar, especialmente na educação de pais e filhos. A dimensão educacional do espiritismo, segundo Kardec, teria efeitos na composição de novos elementos culturais através das gerações. Não se trata apenas de limitarmos os efeitos dessa filosofia ao aspecto moral, mas de ampliarmos tais efeitos para o universo da própria cultura.
Desde a infância, o ser começa a absorver a herança cultural que assegura sua formação e orientação ao longo do tempo. Quando essa herança é limitada ao pensamento materialista ou aos elementos mítico-religiosos, ela fecha o sujeito para voos mais amplos de compreensão e inserção mais plena na vida. Nesse sentido, o espiritismo, em sua perspectiva educacional, abre a cultura para os aspectos mais profundos da identidade espiritual e para o aperfeiçoamento integral do Ser.
Assim como, no dizer do sociólogo francês Edgar Morin, o patrimônio hereditário do indivíduo está inscrito no código genético, o patrimônio cultural está inscrito, primeiro, na memória (individual e coletiva) e, depois, na cultura formal (leis, literatura, artes, religião, educação, etc). Segundo Morin, a cultura é fechada e, ao mesmo tempo, aberta, pois enquanto o dogmatismo do pensamento enclausura o conhecimento, o dinamismo cultural o abre para novas possibilidades.
Nesse sentido, percebemos uma valiosa contribuição do espiritismo no campo educacional do espírito humano, abrindo a cultura para novas possibilidades de ver o mundo num contínuo dinamismo conceitual. Dessa ação pedagógica profunda (não formal), emergem novos significados sobre as leis da natureza, sobre a felicidade humana, sobre a morte, sobre o complexo familiar, sobre os conflitos e sofrimentos humanos, individual e coletivo.
Dessa forma, a essência pedagógica do espiritismo, sem nenhuma pretensão proselitista ou salvacionista, estabelece uma ação educativa no momento em que nos desafia para uma mudança de percepção sobre nós mesmos, nos oferecendo horizontes mais amplos de compreensão sobre a admirável estrutura das leis naturais e morais da vida, garantidoras de felicidade e paz.
NOTAS

[1] KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Segundo diálogo.
[2] KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, Primeira parte, Cap. II, item 6.
[3] KARDEC, Allan. Revista Espírita, 1865, p. 295
[4] KARDEC, Allan. O Que ensina o Espiritismo. In. Revista Espírita, agosto de 1865, item 3º.
[5] Idem. p. 224. Edicel.
[6] KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Segundo Diálogo.
[7] KARDEC, Allan. Primeiras Lições de Moral na Infância. In. Revista Espírita, fevereiro de 1864.