segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
Curso "O pensamento filosófico de Herculano Pires e Humberto Mariotti" - Parceria entre IFEHP e IEEF
domingo, 17 de janeiro de 2021
Odeio os indiferentes - Reflexões sobre o Movimento Espírita - Por Lindemberg Castro
Odeio
os indiferentes: reflexões sobre o movimento espírita
Por Lindemberg Castro - Coordenador do Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires
“Odeio”
os indiferentes espíritas-religiosos, aqueles que do alto da sua superioridade
forjada pela consciência de rebanho que os segue e os alça aos mais altos
patamares de legisladores da vida civil e espiritual dos seus seguidores, mas
ignoram completamente os sofrimentos e desigualdades desse mundo, em um
verdadeiro esbaldar masoquista. O meio espírita está cheio desses indiferentes
religiosos, que desenvolveram percepções cruéis sobre as leis de causalidade
espíritas, para justificarem o injustificável da barbárie cotidiana que
vivemos, sobretudo no Brasil, um país desgovernado e com o povo asfixiado,
morrendo pela negligência deliberada da necropolítica instaurada com o apoio
dos mais fundamentalistas meios espíritas.
Gramsci
(2020) nos diz acerca dos indiferentes, que “indiferença
é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida”, de modo que estar
reencarnado nos exige tomada de posição frente aos desafios históricos e
sociais em que estamos inseridos; precisamos de uma antropologia da
reencarnação, para que entendamos o retorno à carne como algo não contemplativo.
O moralismo, como nos diz Herculano Pires em “Educação para a Morte”, forjou e
ainda forja todo o trabalho das religiões da morte, que ávidas por prosélitos,
desenvolvem a sua estrutura de funcionamento não para o desenvolvimento da
autonomia das pessoas, mas para mantê-las sob as rédeas, ou como nos fala
Foucault, mantendo corpos dóceis para controle sobre a vida e sobre a morte. A docilização dos corpos visa tornar as pessoas “boazinhas”, sem lhes
dar um espaço de reflexão acerca de sua posição na sociedade ou no mundo.
Parte
considerável do movimento espírita, atuando de forma quase unicamente religiosa
ao longo de décadas, também ajudou a criar a “religião espírita da morte”, com
toda a estrutura das religiões tradicionais “cristãs”, religiões essas que
forjam o ápice das contradições entre indivíduo e sociedade, como bem nos
alertaram Freud, Marx e Weber. Na religião espírita da morte toda a consolação
espiritual advinda da pesquisa psicológica e espiritual de Kardec
transformou-se em lei de talião fatalista e capacitista, que culpa a vítima
pelo seu sofrimento, tal qual a estratégia do machismo estrutural que culpa a
mulher pela violência que ela sofre, e o racismo estrutural que culpa o negro
pela discriminação que sofre.
Na
religião espírita da morte, o amor foi transformado em meritocracia
necropolítica, sempre pronta a apontar o dedo para dizer: você é o único
culpado pelo seu sofrimento, não importa que tipo de sofrimento. E assim parte
do movimento espírita tem se empenhado em justificar toda sorte de tragédias
humanas passadas e presentes, desde desastres naturais a ditaduras, passando
por genocídios e escravizações; tragédias sociais (mesmo as que são
completamente evitáveis) também são justificadas por essa lógica, e não nos
surpreendamos caso surja algum texto “psicografado” dizendo que as pessoas que
morreram asfixiadas em Manaus esta semana, em plena pandemia devido à
negligência governamental, na verdade passaram por isso porque mereceram, pois
na vida passada foram nazistas que trabalharam nas câmaras de gás.
É
por esse tipo de pensamento, que encontramos mais espiritualidade em pensadores
considerados ateus como Judith Butler, Angela Davis, Nietzsche, Sartre, Freud, pois em suas reflexões encontram-se
questões fundamentais para a existência do Espírito encarnado. Se, por um lado,
os conhecimentos espiritualistas, dentre eles o Espiritismo, revelaram ao ser
humano a sua verdadeira condição existencial como Espírito, por outro lado, não
podemos ignorar os conhecimentos próprios do desenvolvimento do pensamento e
das ciências. Quando o Espiritualismo não conversa com a vida objetiva na
matéria, torna-se apenas contemplação; Herculano já prevera a vocação do
Espiritismo ao desenvolver o conceito que ele chama de Espiritualismo
Científico, mas que na prática, é um aspecto incompreendido pela maior parte do
movimento espírita até hoje.
Na
religião espírita da morte, há médiuns que se comportam como sacerdotes que, de
tempos em tempos vem ao público ditar regras de conduta moralista através de
verdadeiros sermões neopentecostais, pautados em obediência e justificação de
toda sorte de desigualdades. Em poucos dias vimos o médium Divaldo Franco dar
mostras de sua alienação frente aos contextos sociais deste tempo, de variadas
formas; foram publicadas duas mensagens supostamente psicografadas atribuídas
aos espíritos Ismael e Bezerra de Menezes, e mais recentemente foi publicado
artigo do próprio Divaldo se pronunciando sobre a legalização do aborto na
Argentina, escreveremos a posteriori um artigo específico sobre esse último texto
do médium baiano.
Das
supostas mensagens de Ismael e Bezerra de Menezes, já amplamente refutadas por
diversos artigos lúcidos de companheiros espíritas progressistas, temos apenas
a lamentar que mensagens tão enviesadas, anticientíficas e de teorias da
conspiração, sejam atribuídas a dois espíritos considerados de notória
evolução. Partes das mensagens parecem ter saído diretamente de um grupo de
whatsapp de extrema direita, em que lemos coisas do tipo: ataques às universidades
públicas, desconfiança sobre a “velocidade” de produção da vacina contra
COVID-19 e que apesar da vacina o sofrimento da humanidade continuará (?),
insinuações de que o Coronavírus foi criado em laboratório, insinuações de que
governantes desviaram recursos de combate à pandemia, além das já tradicionais
táticas discursivas baseadas em ameaça, medo, culpa e promessas de dias
melhores através da regeneração, o tão idolatrado período mágico que alguns
espíritas esperam que se realize, mas sem nenhuma atuação direta contra as
desigualdades sociais.
Definitivamente, não acreditemos em ninguém
que ataca universidades públicas, seja encarnado ou desencarnado!
Afinal de contas, quem mais produz ciência e pesquisa nesse país senão as
instituições públicas?! Atacar instituições públicas é discurso que se alinha
muito mais ao fascismo do que aos valores democráticos, pois o fascismo não
suporta instituições autônomas, e parece que certos médiuns e espíritos também
não suportam.
É
curioso observar que nos referidos textos psicografados por Divaldo, não haja
nenhuma referência à dramática situação que vivemos no Brasil atualmente,
dominado pela necropolítica, sabotado pelos que o governam em notória política
genocida; é também curioso observar que nenhum dos textos trata do aumento da
desigualdade social em plena pandemia, em que os bilionários do mundo
aumentaram em 31% a sua fortuna, aprofundando ainda mais as desigualdades a
partir do capitalismo voraz; também é de se admirar, que nenhum texto ou
posicionamento de Divaldo, seja agora ou anteriormente, faça referência ao
adoecimento psíquico causado pela pandemia e aprofundado pelas feridas da
desigualdade que a pandemia deixou a descoberto. Também é absolutamente
surpreendente que nenhum dos textos cite as bases das pesquisas mundiais que
mapearam os vírus das famílias SARS e MERS há anos, ao invés disso, um dos
textos insinua que houve pressa na produção da vacina contra a COVID-19.
Ao invés de tudo isso que citamos acima, os
textos insinuam teorias da conspiração ou apenas reafirmam a causalidade
necropolítica presente na justificação da pandemia enquanto castigo à
humanidade atrasada. Parece que a reafirmação constante da nossa “inferioridade
moral”, deve servir como alguma forma de mantra ou compensação psicológica para
determinados espíritos e médiuns que normalmente se colocam acima da própria
humanidade. É possível ser humano estando acima da humanidade?
Desses
pontos de vista que temos aludido até aqui, sobre as recentes produções do
médium Divaldo Franco, é ainda mais surpreendente quando lemos a seguinte
passagem de uma de suas obras psicografadas, ditada por Joanna de Angelis:
O pensamento de homens e mulheres audaciosos como Allan Kardec, Charles Darwin, Karl Marx, Sigmund Freud, Marie Curie, Albert Einstein, produziu uma revolução de tal porte nos conceitos e costumes das criaturas, que até hoje tentam adaptar-se ao novo mundo por eles descoberto (FRANCO, p. 13).
Essa passagem marca a importância dos grandes pensadores e pensadoras da humanidade para conseguirmos avançar no “novo mundo por eles descoberto”; o conhecimento produzido pelas vias da reencarnação não pode ser deixado de lado frente aos conhecimentos espirituais, enquanto continuarmos a reencarnar nesse mundo, sob pena de apenas contemplarmos a nós mesmos em uma reforma íntima individualista e alienada, enquanto aguardamos o desencarne para termos direito a uma casa em uma colônia espiritual. Seria essa a nova forma de comércio de indulgências?
“A indiferença é o peso
morto da história”, como nos alertou Gramsci, e cada vez que os espíritas se
alienam pela indiferença ao mundo material e aos contextos históricos e
sociais, cresce também a quantidade de espíritas que veem de outra forma, que
querem estudar, debater e entender melhor as dinâmicas sociais, porque
perceberam as contradições existentes em um movimento eminentemente religioso,
que preconiza a caridade material como principal forma de fazer o bem, mas que
parte dele se coloca contra as políticas públicas e sociais que beneficiam a população
mais pobre.
O bem-estar social para
todos e todas deveria ser entendido como um direito básico da existência do
Espírito na reencarnação, mas, ao contrário disso, vemos espíritas e médiuns
famosos atacando gratuitamente qualquer política pública de assistência social,
de saúde pública universalizada, de educação pública de qualidade, de acesso à
universidade, de produção científica, de produção e acesso às artes, políticas
de cotas e de reparação histórica, etc., como se elas fossem danosas, quando na
verdade elas visam o interesse público no mais alto nível, que é garantir a
vida encarnada digna para todos e todas que precisam.
Em um momento em que parece
que alguns espíritos e médiuns desdenham do conhecimento humano e da própria
vida humana, e que em tese deveriam ter uma visão mais ampla das coisas porque
teriam acesso a informações que muitas vezes não temos, pelo menos hoje nós
brasileiros temos um alento depois de dias tão terríveis dominados pela
política genocida; hoje, a primeira brasileira foi vacinada contra a COVID-19,
Mônica Calazans, uma mulher negra, da linha frente de combate à pandemia,
enfermeira, e que representa bem a diversidade do povo brasileiro.
As Ciências, e não apenas as
ciências duras, a cada dia vencem o fundamentalismo religioso, seja lá de que
matriz for, inclusive o de matriz espírita; agradeçamos a Deus o dom da
inteligência, da pesquisa, do desenvolvimento do pensamento, porque só assim
conseguiremos superar o obscurantismo medieval e o fascismo que de tempos em
tempos tentam retornar entre nós, seja através de espíritos encarnados ou
desencarnados.
Que tenhamos dias melhores e
abençoados em nosso país, que assim seja!
REFERÊNCIAS
ANGELIS, Joanna de (Espírito). Dias
gloriosos. Psicografado por Divaldo Franco. 4ª ed. Salvador: Livraria Espírita Alvorada Editora, 2010.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento
da prisão. Rio de Janeiro: VOZES, 2009.
GRAMSCI, Antonio. Odeio os indiferentes:
escritos de 1917. 1º ed. São Paulo: Boitempo, 2020.
PIRES, Herculano. Educação para a Morte. 1º
ed. São Bernardo do Campo: Correio Fraterno, 2016.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
Roda de Conversa - Pequeno Manual Antirracista para Espíritas
sábado, 21 de novembro de 2020
Pequeno Manual Antirracista para Espíritas - Por Lindemberg Castro
O
que nos inspirou a produzir as reflexões elencadas aqui, além da alusão ao mês
da Consciência Negra, e todas as situações deploráveis que temos visto nos
últimos dias, de racismo declarado, como os discursos absurdos do presidente e do
vice-presidente do Brasil, e o revoltante espancamento até a morte do homem
negro João Alberto Silveira Freitas,
em pleno Dia da Consciência Negra, também nos inspirou o livro “Pequeno Manual Antirracista”, da
filósofa brasileira Djamila Ribeiro.
Pensando em tudo o que a referida filósofa nos diz em sua obra, e contextualizando
com o movimento espírita no Brasil, vemos que o racismo, assim como as diversas
questões sociais, é amplamente invisibilizado, como se as casas espíritas não
estivessem inseridas em um mundo físico cheio de desigualdades, e como se nós
Espíritos não estivéssemos reencarnados em um tempo histórico e social que
reflete os preconceitos de sua época. Invisibilizar as diversidades, sejam elas
subjetivas ou sociais é a práxis recorrente do movimento espírita, marcado pelo
Igrejismo, como bem denuncia Herculano Pires (2005) em “A Pedra e o Joio” e
pela reforma íntima individualista e alienada das realidades sociais.
Em
pleno 2020 ainda é possível ver palestrantes de grande vulto dentro do
movimento espírita, com discursos que invisibilizam as diversidades, sempre
apelando para ideias como “somos todos iguais”, “precisamos de uma consciência
humana e não de uma consciência negra”, etc. O que os diletos palestrantes
ignoram é que enquanto ainda vivermos em um mundo de provas e expiações e cheio
de desigualdades sociais causadas por nós mesmos, conforme vemos em O Livro dos
Espíritos, a nossa consciência (no sentido de percepção das realidades e de nós
mesmos na encarnação), ainda precisa ter cor, gênero, orientação sexual, etnia,
cultura e classe. Sem essas perspectivas, viveremos apenas reencarnações
contemplativas em que a práxis será ascética e individual em prol de si mesmo. Alienar-se
da vida na matéria em favor de promessas de uma vida na colônia espiritual,
transformou algumas práticas espíritas em verdadeira venda de indulgências com
base na chamada reforma íntima, na qual a mansidão é mais importante do que
transformar o mundo em um lugar mais acolhedor para as próximas gerações; a
mansidão tornou-se mais importante do que o amor, infelizmente.
O
que dizer, por exemplo, de uma postagem da FEB – Federação Espírita Brasileira,
nas redes sociais, recheada de comentários racistas por parte de alguns
espíritas?! A FEB, apesar de diversos problemas institucionais merecedores de
crítica pelo movimento espírita, fez bem em aderir à campanha do Dia da
Consciência Negra, postando um conteúdo em alusão a essa luta; não demorou para
espíritas bolsonaristas e conservadores de toda sorte comentarem a postagem de
forma agressiva, anti-fraterna e com o racismo mais odiosamente declarado que
poucas vezes teremos a oportunidade de ver, principalmente porque no Brasil o
racismo é cínico, que não raro usa o disfarce recreativo, para utilizar um
termo de Silvio Almeida (2018) do
seu livro “O que é Racismo Estrutural?”,
para se projetar nos discursos e práticas.
Seguindo
os passos de Djamila Ribeiro, em relação à sua obra já mencionada acima,
nomearemos algumas seções do nosso artigo de acordo com o livro da filósofa,
procurando, no entanto, tecer reflexões para o movimento espírita, em diálogo
com autores espíritas e não espíritas.
1.
Informe-se sobre o Racismo
Compreender
as dinâmicas do racismo estrutural é fundamental para repensarmos as práticas e
os discursos que colaboram com os sistemas racistas, conforme nos aponta Silvio
Almeida (2018). Angela Davis (2016),
filósofa estadunidense, nos aponta em “Mulheres,
Raça e Classe”, que na base dos sistemas de opressão que regem o mundo, o
Racismo forma um tripé junto com o Capitalismo e o Machismo, portanto, é
crucial entender que a interseccionalidade entre eles forma as opressões
estruturais de difícil manejo e transformação, mas que exige de todos nós o
compromisso de não apenas nos dizermos não-racistas, mas de desenvolvermos práticas
efetivamente antirracistas, como bem aponta Angela Davis. O desafio de
desenvolvermos práticas antirracistas também convida os espíritas,
progressistas ou não, a se engajarem nessa luta.
Kabengele Munanga,
professor na Universidade de São Paulo, denuncia que duas das marcas do racismo
brasileiro é o silêncio e a negação; um país acostumado a não pautar como
deveria as suas questões sociais, invisibiliza a sua própria história para
criar um mito de igualdade racial que nunca existiu em terras tupiniquins, cuja
vocação para a pátria do evangelho ainda está longe de ser confirmada. A
invisibilização e a negação a que o Brasil se acostumou frente ao seu passado e
o seu presente, atualmente atinge esferas de mentiras conceituais forjadas por
líderes de governo, para escamotear ou difamar questões sociais importantes, do
racismo aos discursos de ódio, da lgbtfobia ao discurso anticiência, da
minimização de uma pandemia ao ataque à educação pública. Tudo isso atordoa uma
população marcada pela desigualdade e pela desinformação.
Devemos
aprender com a História, a Filosofia, a Sociologia, a Geografia, a Antropologia,
em fim, com as ciências humanas e sociais que nos trazem dados sobre a nossa
própria história, ao mesmo tempo em que propõem mudanças de práticas e
discursos. Devemos aprender com os grupos sociais diversos, que há décadas
lutam por direitos civis e sociais para setores da sociedade historicamente
excluídos, como a população negra. Devemos aprender com o Movimento Negro no
Brasil, sua atuação, sua luta, suas conquistas que estão sempre ameaçadas pelos
poderes hegemônicos.
Devemos
aprender com o Feminismo Negro, que
traça questões específicas e fundamentais sobre a mulher negra, pois incide
sobre ela a opressão de raça e classe, acrescida da opressão de gênero. Em
discurso na Universidade Federal da Bahia, quando da sua vinda ao Brasil em
2017, Angela Davis nos disse que: “quando a mulher negra se movimenta, toda a
estrutura da sociedade se movimenta com ela”; a sua afirmação tem por
entendimento que a mulher negra, dentro do sistema racista de opressão sofre
ainda mais, mas que, ao movimentar-se na luta, força a estrutura social a sair
do lugar comum.
Estudemos
autores negros para conhecer a percepção e as pesquisas que eles desenvolvem
sobre os mais variados temas, incluindo o racismo. Além de Djamila Riberio,
Kabengele Munanga, Silvio Almeida e Angela Davis, que já citamos acima, temos
ainda pensadores negros incríveis para a nossa pesquisa: Achille Mbembe, Karla Akotirene, Lelia Gonzalez, bell hooks, Chimamanda
Ngozi Adichie, Frantz Fanon, Sueli Carneiro, Milton Santos, Paulina Chiziane,
Audre Lorde, Sophie Oluwole, Joice Berth, Grada Kilomba, entre outros. No
final do seu livro “Pequeno Manual Antirracista”, Djamila elenca dezenas de
pensadores negros para a nossa cultura, sugerimos ao leitor que possa ler essa
obra da nossa filósofa brasileira.
E
sobre o que nós espíritas, em particular, que estamos inseridos em uma doutrina
progressista como o é o Espiritismo, estamos fazendo pela luta antirracista?! O
que nós, enquanto cidadãos, estamos fazendo contra o sistema de opressão
racista?! Sobre essas questões, Djamila (2019) nos diz que:
Chegamos, assim, à
seguinte pergunta: o que, de fato, cada um de nós tem feito e pode fazer pela
luta antirracista? O autoquestionamento — fazer perguntas, entender seu lugar e
duvidar do que parece “natural” — é a primeira medida para evitar reproduzir
esse tipo de violência, que privilegia uns e oprime outros. Simone de Beauvoir,
em referência a Stendhal, autor que segundo a filósofa atribuía humanidade às
suas personagens femininas, dizia que um homem que enxergasse a mulher como
sujeito e tivesse uma relação de alteridade para com ela poderia ser
considerado feminista. Esse mesmo raciocínio pode ser usado para pensar o
antirracismo, com a ressalva de que sobre a mulher negra incide a opressão de
classe, de gênero e de raça, tornando o processo ainda mais complexo (p. 11).
2. Enxergue a negritude
A
negritude, nas práticas sociais mais comuns, é relegada a um lugar social
subalterno, submisso, de modo que o tratamento para brancos e negros é
diferenciado desde a infância, nas práticas escolares, até a vida adulta. Os
currículos ainda são permeados pela superioridade da cultura européia, bem como
os valores e estéticas europeus. Joice
Berth (2018), afirma que “não me descobri negra, fui acusada de sê-la”;
isso porque, na análise de Djamila, o negro possui um não-lugar social por ser
apenas o contrário do branco e não o seu igual; a mesma alusão encontramos
também em Simone de Beauvoir ao
falar que para o machismo, a mulher não é um ser, é apenas um não-ser contrário
ao homem, portanto, não possui identidade social própria. Esse é um belo
exemplo de como os sistemas de opressão repetem estratégias de dominação, quer
seja na questão de raça, quer seja na questão de gênero.
O
apagamento das expressões e da cultura negra também ocorre em variados setores:
produção de conhecimentos, artes, estética, mídia e comunicação, etc. Portanto,
uma ação prática é tirarmos da invisibilidade essas questões e essas produções,
para atuarmos contra esses apagamentos. Grada
Kilomba nos diz que o racismo é uma problemática branca, pois em um dado
momento histórico foram os brancos que diferenciaram os negros, não os
considerando como seres humanos, mas como mercadorias; a escravização foi o
primeiro processo de fetichização em larga escala, direcionada a uma parcela da
população mundial: os negros. Apesar de ser uma problemática criada pelos
brancos, são os negros que pautam a luta antirracista, desde que sua cultura,
suas etnias, seus idiomas e seus costumes foram tomados de assalto a partir da
Colonização européia.
Sobre
tirarmos essas temáticas da invisibilidade, Djamila (2019) nos diz:
É importante ter em
mente que para pensar soluções para uma realidade, devemos tirá-la da
invisibilidade. Portanto, frases como “eu não vejo cor” não ajudam. O problema
não é a cor, mas seu uso como justificativa para segregar e oprimir. Vejam
cores, somos diversos e não há nada de errado nisso — se vivemos relações
raciais, é preciso falar sobre negritude e também sobre branquitude (p. 15,
2019).
Nós
espíritas, para colaborarmos com o processo de retirar da invisibilidade a
questão da luta antirracista, precisamos estudar mais a respeito, e
produzirmos: textos, cursos, seminários, artigos, livros, etc., pautando esses
temas. Precisamos entender que vivemos no mundo material e precisamos lidar com
a questões sociais e históricas do nosso tempo. Alguns espíritas se utilizam de
argumentos como “ah, mas somos todos iguais perante Deus”, ou “somos todos
Espíritos”; as duas sentenças estão corretas em seu sentido essencial, mas não
criam contextos com os processos reencarnatórios. É na reencarnação que
travamos as mais árduas batalhas morais e existenciais, e além das nossas
questões individuais para darmos conta, é no mundo material que enfrentamos as
injustiças e desigualdades, o preconceito, os processos anticivilizatórios, e
toda sorte de mazelas que, cabe a nós construirmos práticas e discursos que
transformem para melhor este mundo. Nenhum conceito espírita serve para secar o
nosso coração às dores dos outros, e nem para cruzar os nossos braços frente às
desigualdades sociais. A práxis máxima do Espiritismo é o amor, sentimento que
precisa ser transformado em ação de amparo, de empatia e de acolhimento a quem
sofre.
O
nosso papel frente à transformação do mundo, e não apenas de nós mesmos, está
explicitado nesta fala de Allan Kardec (2001) em “A Gênese”, sobre as questões
sociais:
Com
a reencarnação, desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo
Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe
ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos
invocados contra a injustiça da servidão e da escravidão, contra a sujeição da
mulher à lei do mais forte, nenhum há que prime, em lógica, ao fato material da
reencarnação. Se, pois, a reencarnação funda numa lei da Natureza o princípio
da fraternidade universal, também funda na mesma lei o da igualdade dos
direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade (p. 25).
3.
Sejamos todos antirracistas
Djamila
Ribeiro nos diz, no último capítulo do seu livro com o qual estamos trabalhando
nesse artigo, que o racismo, apesar de ser estrutural, possui uma capacidade
ampla de passar despercebido; isso acontece porque os sistemas de opressão que
atuam no mundo foram demarcados como naturais e essenciais à condição humana,
sendo assim, além do racismo, nós também podemos perceber o machismo e o
capitalismo como estruturais, ao ponto de uma enorme parcela da população
considerar difícil que pudéssemos ter outros valores e outras formas de viver
na reencarnação.
Não
é fácil, sobretudo em um país como o Brasil, percebermos os privilégios que
determinados grupos sociais possuem, em detrimento de uma população que em sua
maioria é historicamente explorada por toda sorte de opressões. No Brasil, não
é difícil de encontrarmos pessoas, por exemplo, que se incomodam profundamente
com o auxílio emergencial para a população em meio a uma Pandemia, mas que já
internalizaram a naturalidade dos privilégios da classe política e dos poderes
que governam o país; isso só para dar um exemplo da dificuldade que temos de
perceber como as desigualdades sociais são construídas e justificadas.
“Pessoas
brancas devem se responsabilizar criticamente pelo sistema de opressão que as
privilegia historicamente”, nos diz Djamila, e nós acrescentamos ainda que: os espíritas devem se responsabilizar em
pensar sobre o mundo e sobre as realidades sociais de forma crítica, percebendo
e denunciando os sistemas de opressão vigentes, e atuando, tanto quanto
puderem, na mudança de práticas e
discursos que colaboram com esses sistemas. Nós espíritas precisamos desenvolver
uma perspectiva para uma antropologia da vida na matéria, caso contrário,
continuaremos a patinar na reencarnação com perspectivas individualistas de
progresso, enquanto a necropolítica mata a população negra e a população mais
pobre, o machismo mata mulheres e lgbts, e o capitalismo exaure as forças
produtivas do Espíritos encarnados, que em algumas regiões do planeta,
incluindo o Brasil, mal tem com o que sustentar a sua vida na matéria.
Ninguém
deveria morrer de fome ou pela sua diversidade, se somos iguais em espírito,
somos diferentes nas diversidades que compõem os nossos aprendizados e nas
diversidades com as quais nos projetos na reencarnação. Espíritas, sejamos antirracistas,
antilgbtfóbicos, antimachistas, anticapitalistas, anti-preconceitos de toda
sorte, para que possamos efetivamente aplicar os ensinamentos do Evangelho, os
ensinamentos de Jesus, pois Jesus se estivesse reencarnado hoje, seria tudo
isso e muito mais para ajudar esse mundo turbulento a ser um lugar menos hostil
para todos nós.
Em
memória de João Alberto Silveira Freitas,
que os bons Espíritos possam acolher você, meu irmão. Em memória também de
George Floyd, o menino Miguel, e de tantos outros que sofreram com a violência
deste mundo.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Silvio. O que é racismo estrutural? 1º ed. Belo
Horizonte: LETRAMENTO, 2018.
BERTH, Joice. O que é empoderamento? 1º ed. Belo
Horizonte: LETRAMENTO, 2018.
DJAMILA, Ribeiro. Pequeno Manual Antirracista. Tradução
Heci Regina Canciani 1º ed. São Paulo: COMPANHIA DAS LETRAS, 2019.
DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. 1º ed. São
Paulo: BOITEMPO, 2016.
KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições
segundo o Espiritismo. Tradução José Herculano Pires. 20º ed. São Paulo:
LAKE, 2001.
PIRES, Herculano. A Pedra e o Joio. 3º ed. São Paulo:
PAIDEIA, 2005.
sábado, 7 de novembro de 2020
Necropolítca, Psicanálise e Espiritismo - Por Lindemberg Castro
NECROPOLÍTICA,
PSICANÁLISE E ESPIRITISMO
Por Lindemberg Castro - Coordenador do Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires
A pandemia causada pelo novo coronavírus
escancarou ainda mais diversas contradições a partir do mundo patologicamente
considerado “normal”, no qual, mesmo agonizando em inúmeras desigualdades
sociais, estávamos “acostumados” a viver (ou sobreviver). Com a ideia de um
“novo normal”, que para muitos parece uma realidade alternativa já instalada,
vemos que o tal “novo normal” é ainda mais cínico em seus discursos, justificando
as desigualdades sociais de toda ordem, movimentando vidas humanas como peças
de uma engrenagem (o que surpreenderia até mesmo Foucault), e banalizando a
vida, reificando o ser humano (exatamente como nos previu George Lukács). No
processo de reificação a partir das atividades capitalistas e produtivas, o ser
humano passa a ser identificado cada vez mais como objeto inanimado e seu valor
está diretamente relacionado com uma medida quantitativa dentro da produção de
objetos ou mercadorias circulantes, perdendo a sua autonomia, a sua autoconsciência
e a consciência da realidade que o cerca.
A Necroplítica nunca esteve tão fortalecida,
como em nossos tempos atuais! Passamos de uma normose da qual nos queixávamos
pela falta de tempo, pela baixa qualidade de vida ou pelo excesso de trabalho,
para uma normose amplamente difundida, aceita e justificada pelos discursos
neoliberais, discursos de ódio, notícias falsas, e relativização da vida humana
possivelmente vitimada em plena pandemia, mas não necessariamente uma vida
chorável ao ser perdida, como nos lembra Judith Butler (dentro da
necropolítica, nem todas as vidas perdidas são choráveis). O mal-estar da
civilização atingiu patamares ainda maiores, que surpreenderiam até mesmo
Freud, devido ao esforço contínuo do ser humano em normatizar todos os
instintos de morte a que nos alerta Herculano Pires em “Educação para a Morte” (2016).
Os discursos neoliberais, aliás, nunca
estiveram tão em evidência em nosso país, pois agora, parcela considerável da
população brasileira (incluindo parte dos espíritas) defende ações de
austeridade do governo federal, apesar de não faltarem recursos disponíveis
para o combate à pandemia, e mesmo sabendo que milhares de pessoas ou morrerão
na miséria e no abandono ou pelo vírus, ou pelos dois simultaneamente. Isso,
quando não justificam a inoperância governamental, que, indo além da relativização
da gravidade da pandemia e com diversos discursos anticientíficos, vem em
constante inação de prevenção e combate ao coronavírus, apesar da dramática
situação do nosso país como um dos epicentros da pandemia, no mundo. O Brasil já
ultrapassou a marca de 162 mil mortos, e por mais que parte dos espíritas se apoie na lei de causa de efeito para justificarem esses desencarnes, sabemos que a
negligência governamental pode ter sido muito mais letal do que o vírus.
Na perspectiva da necropolítica, não possuímos
liberdade e nem autonomia, há uma rejeição à
crença “romântica” da soberania como
algo em “que o sujeito é o principal autor, controlador do seu próprio
significado”, Achille Mbembe (2018) preocupa-se, sob uma ótica inteiramente
diversa sobre essas questões, “com aquelas formas de soberania cujo projeto
central não é a luta pela autonomia, mas ‘a instrumentalização generalizada da
existência humana e a destruição material de corpos humanos e populações’.
Estamos ignorando o luto coletivo mesmo com
nosso dramático cenário, mas um luto dessa magnitude, do ponto de vista psicanalítico,
não pode simplesmente ser ignorado, e a seu tempo, deverá cobrar o seu
pagamento frente à nossa indiferença. Parte dos espíritas tem se apegado à Lei
de Causa e Efeito para justificarem os mais de 162 mil desencarnes em nosso
país, devido à pandemia; essa é outra forma de normose e talvez o estágio
máximo da necropolítica espírita: justificar desencarnes, dos quais uma parte
poderia ter sido evitada com ações governamentais efetivas de proteção às
pessoas.
Aprendemos com o Espiritismo que nem todos os
acontecimentos durante a reencarnação estão determinados, uma vez que a
Filosofia Espírita não admite nenhuma forma de fatalismo; em O Livro dos
Espíritos entendemos que a sociedade é responsável por todos os que fazem parte
dela, e esse ponto traz consigo a necessidade de cada vez mais lutarmos por
condições dignas de existência, de modo que a cada geração o bem-estar social
seja ampliado. Aceitar que em meio a uma pandemia, as ações governamentais de
prevenção e cuidado com a saúde das pessoas não adiantariam em nada já que
“todas” estavam destinadas a morrer, nos coloca no mesmo patamar dos
indiferentes citados por Gramsci, e nos conduz em uma perspectiva de alienação
justificada pela necropolítica. De que servem então os meios materiais para a
qualificação da existência na carne, se não puderem ser utilizados para a
ampliação de oportunidades educacionais, culturais, econômicas, sociais, e em
favor da saúde física dos Espíritos reencarnados?! A filósofa nigeriana Sophie
Oluwole nos lembra que o desenvolvimento humano depende diretamente da
ampliação das liberdades em todos os âmbitos da existência: do aspecto
econômico ao cultural, do educacional ao social, da qualidade de vida à saúde;
quando estamos reencarnados em um país que funciona na base da necropolítica, a
nossa liberdade, já limitada pelo progresso espiritual tímido que realizamos até
aqui, se torna muito mais diminuta, uma vez que nos são interditadas, muitas
vezes, as condições básicas da existência material.
Também temos visto muitos espíritas reabrirem
seus centros em plena pandemia, respaldados pelos decretos governamentais
estaduais e municipais que permitem uma porcentagem de frequentadores em
templos religiosos. Mas, como a pandemia ainda não acabou, é o caso de
perguntarmos: há uma necessidade urgente em reabrir centro espírita agora, mesmo
que os meses de setembro, outubro e novembro tenham sido os que registram
maiores taxas de contaminação pelo coronavírus, no mundo?! Bom, alguns
justificam sua decisão com base nas “ordens superiores da Espiritualidade maior”
(seja lá o que signifique isso). Parece que parte dos espíritas esqueceu as
recomendações de Kardec, na Revista Espírita de 1865, em que ele disserta sobre
o papel dos espíritas durante a epidemia de cólera; Kardec afirma que desprezar
medidas sanitárias frente a uma epidemia seria verdadeiro suicídio, e que cabe
ao espírita velar pela saúde do seu corpo, para cumprir com seus deveres frente
à reencarnação.
Quem quer que tenha lido e meditado nossa obra O Céu
e o Inferno segundo o Espiritismo, sobretudo o capítulo
sobre as apreensões da morte, compreenderá a força moral que
os espíritas adquirem em sua crença, em presença do flagelo que dizima as
populações. Segue-se que vão negligenciar as precauções necessárias em casos
semelhantes e baixar a cabeça diante do perigo? Absolutamente não. Eles tomarão
todas aquelas que são aconselhadas pela prudência e por uma higiene racional,
porque não são fatalistas e porque, se não temem a morte, sabem que não devem
procurá-la. Ora, desprezar as medidas sanitárias que podem preservá-los seria
um verdadeiro suicídio, cujas consequências conhecem muito bem para a ele se
exporem. Consideram como um dever velar pela saúde do corpo, porque a saúde é
necessária à realização dos deveres sociais. Se buscam prolongar a vida corporal,
não é por apego à Terra, mas para ter mais tempo para progredir, melhorar-se,
depurar-se, despojar-se do homem velho e adquirir maior soma de méritos para a
vida espiritual (KARDEC, 1865).
Urgentemente, seria fundamental que nós espíritas retomássemos o estudo aprofundado a partir da obra de Kardec, talvez isso nos
tiraria da “paz de pantanal”, para usar um termo de Herculano Pires. Adorno (1967),
em “Educação após Auschwitz) já nos alertou que os processos civilizatórios não
se dão de forma a priori e nem são
universais, cabendo à “educação o fim último de que Auschwitz não se repita”;
mas, infelizmente a história humana conta em seu inconsciente coletivo, com
diversos episódios de desumanização, e ao que parece a normatização da tragédia
que envolve a pandemia é apenas mais um triste episódio do nosso processo de
autoreificação.
Judith Butler, em entrevista concedida este
ano, nos lança as seguintes perguntas: “em que circunstâncias é possível lamentar uma vida perdida? De quem
são as vidas consideradas choráveis em nosso mundo público?
Quais são essas vidas que, se perdidas, não serão consideradas em absoluto
uma perda? É possível que algumas de nossas vidas sejam consideradas
choráveis e outras não”? Essas perguntas são absolutamente necessárias para
todos nós que estamos reencarnados atualmente, quer sejamos espíritas ou não.
Butler (2020) ainda explica que:
Faço essas perguntas difíceis e perturbadoras porque eu, como vocês, me
oponho à morte violenta; à morte por meio da violência humana; à morte
resultante de ações humanas, institucionais ou políticas; à morte provocada por
uma negligência sistêmica por parte dos estados ou por modos de governança
internacionais.
Todos nós deveríamos nos
opor a todas as mortes provocadas pela negligência sistêmica que apaga as
diferenças, as diversidades, que instrumentaliza a vida das pessoas e elege
quem pode viver e quem pode morrer! Esse mecanismo não corresponde a uma lei
natural, é algo forjado pelos sistemas de opressão que comandam o mundo; em O
Livro dos Espíritos vemos que os problemas sociais são criados pelo ser humano,
e não por Deus.
Se tivéssemos o hábito
de não invisibilizarmos as questões sociais, compreenderíamos facilmente que a
Doutrina Espírita reafirma a preocupação com elas, conectando-as ao progresso
espiritual. Para o Espiritismo não há divisão entre a realidade social e a
realidade espiritual, uma vez que estamos encarnados, somos espíritos
encarnados, portanto, somos convidados a atuarmos no mundo. Mariotti (1967) nos
diz que “o progresso é uma sucessão de fatos morais e sociais determinados
pelas relações entre o elemento espiritual e o elemento material”.
Herculano Pires (2016)
nos traz elementos filosóficos e psicanalíticos para compreendermos a indiferença
ainda presente no ser humano e a frustração. Herculano diz que a frustração
transformou a morte na única herança possível que temos construído. A necropolítica,
na visão de Achille Mbembe surge como um projeto de poder dos que detém os
poderes político e econômico, contudo, ela se fortalece quando a frustração e a
indiferença de todos aqueles que se deixam contaminar por elas.
Para encerrar essas
reflexões que ora nos detemos, elencamos abaixo uma citação de Herculano Pires
(2016) ainda sobre os resultados da nossa frustração e da nossa indiferença,
que alimentam não somente a necropolítica mas todas as formas de opressão e
desigualdades:
Restaram em nossas mãos profanadoras apenas as heranças animais: a violência
assassina que é o meio normal de que as feras se servem para afastar obstáculos
do seu caminho; a astúcia da serpente para engolir e digerir os adversários
mais frágeis; a destruição dos bens alheios em proveito próprio, no vampirismo
desenfreado da selva social; a dominação arrogante dos que não dispõem de
forças para se defender; a mentira, a trapaça, a perfídia de que os próprios
selvagens se enojam, e que nós, os civilizados, transformamos, na alquimia da
canalhice generalizada, em processos sutis de esperteza, que, para vergonha do
século e da espécie, consideramos provas de inteligência. Nossos meios de fuga
reduzem-se à covardia da fuga de nós mesmos (p. 63-64).
O Espiritismo nos convida à transformação de nós
mesmos e das realidades sociais na reencarnação, a grande questão é:
aceitaremos esse convite, ou continuaremos a reproduzir padrões de
comportamento de violência, indiferença e negligência?
REFERÊNCIAS:
ADORNO, Theodor. Educação após Auschwitz. Disponível em: https://rizomas.net/arquivos/Adorno-Educacao-apos-Auschwitz.pdf. Acesso em 07 de novembro de 2020.
BUTLER, Judith. De quem são as vidas consideradas choráveis em nosso mundo público? Disponível em: https://brasil.elpais.com/babelia/2020-07-10/judith-butler-de-quem-sao-as-vidas-consideradas-choraveis-em-nosso-mundo-publico.html. Acessado em 07 de novembro de 2020.
COLOMBO, Cleusa Beraldi. Ideias
sociais espíritas. São Paulo: EDITORA COMENIUS, 2014.
FREUD, Sigmund. O mal-estar
na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: COMPANHIA DAS
LETRAS, 2010.
GRAMSCI, Antonio. Odeio
os indiferentes. Tradução de Alvaro Bianchi. São Paulo: BOITEMPO, 2020.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Tradução de José
Herculano Pires. 59ª ed. São Paulo: LAKE, 1998.
KARDEC, Allan. Revista
Espírita: edição de 1865. Tradução de Salvador Gentile. 1ª ed. São Paulo:
IDE, 1993.
PIRES, José Herculano. Introdução
à Filosofia Espírita. São Paulo: FEESP, 1993.
PIRES, José Herculano. Educação
para a Morte. 1ª ed. São Paulo: PAIDEIA, 2016.
MARIOTTI, Humberto. O
homem e a sociedade numa nova civilização. São Paulo: EDICEL, 1967.
MBEMBE, Achille. Necropolítica.
São Paulo: N-1 EDIÇÕES, 2018.
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