domingo, 4 de abril de 2021

Poema "Vida e Morte", de Herculano Pires - pelo artista Luciano Mendes

 



A pedido do Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires - IFEHP, o artista, compositor, cantor, escritor Luciano Mendes, aqui de Fortaleza, gravou um vídeo com o poema "Vida e Morte", do nosso saudoso Herculano Pires, agora musicado pela voz do nosso talentoso Luciano, a quem muito agradecemos pela inspiração de musicalizar o poema, e por gravar este vídeo em nosso pedido.

O poema "Vida e Morte", um dos mais belos escritos por Herculano, foi incorporado às edições mais recentes do livro "Educação para a Morte", figurando antes do capítulo 1. Esse livro, por sinal, é um dos mais profundos de Herculano Pires, refletindo a sua filosofia espírita e existencialista, vale a pena a leitura.

Segue abaixo o vídeo do nosso artista Luciano Mendes:




sábado, 3 de abril de 2021

Da hiperatividade social ao cansaço depressivo - por Marcio Sales Saraiva


DA HIPERATIVIDADE SOCIAL AO CANSAÇO DEPRESSIVO

por Marcio Sales Saraiva, escritor, sociólogo e cientista político 

A leitura do livro “Sociedade do cansaço” (2ª edição ampliada – Petrópolis, RJ: Vozes, 2019) do filósofo Byung-Chul Han (tradução de Enio Paulo Giachini) trouxe-me muitos insights sobre este tempo histórico que estamos vivendo. Eu fiz algumas anotações breves e destaquei algumas passagens que me marcaram muito. É isso que compartilho com você. Não é uma resenha, são apenas fragmentos sobre a doença que se tornou nosso mundo, nós mesmos.

Antes de começar, saiba que Byung-Chul Han nasceu na Coreia do Sul, mas fixou-se na Alemanha, onde estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. É professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim. Ok, o cara estudou bastante, mas vamos ao que ele está pensando sobre a vida.

“A sociedade disciplinar de Foucault, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos.”

“Alain Ehrenberg localiza a depressão na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho: ‘A carreira da depressão começa no instante em que o modelo disciplinar de controle comportamental, que, autoritária e proibitivamente, estabeleceu seu papel às classes sociais e aos dois gêneros, foi abolido em favor de uma norma que incita cada um à iniciativa pessoal: em que cada um se comprometa a tornar-se ele mesmo. [...] O depressivo não está cheio, no limite, mas está esgotado pelo esforço de ter de ser ele mesmo’”.

“O que causa a depressão do esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão de desempenho. Vista a partir daqui, a Síndrome de Burnout não expressa o si-mesmo esgotado, mas antes a alma consumida. Segundo Ehrenberg, a depressão se expande ali onde os mandatos e as proibições da sociedade disciplinar dão lugar à responsabilidade própria e à iniciativa. O que torna doente, na realidade, não é o excesso de responsabilidade e iniciativa, mas o imperativo do desempenho como um novo mandato da sociedade pós-moderna do trabalho.”

“(...) o sujeito de desempenho se entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção de maximizar o desempenho. O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. Essa autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência. Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal.”

“Essa atenção dispersa (hyperattention) se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo. Walter Benjamin chama a esse tédio profundo de um “pássaro onírico, que choca o ovo da experiência”. Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual. Pura inquietação não gera nada de novo. Reproduz e acelera o já existente. Benjamin lamenta que esse ninho de descanso e de repouso do pássaro onírico está desaparecendo cada vez mais na modernidade.”

A barbárie da hiperatividade no capitalismo pós-moderno...

“Mas a arte é uma ‘ação expressiva’. O próprio Nietzsche, que substituiu o ser pela vontade, sabe que a vida humana finda numa hiperatividade mortal se dela for expulso todo elemento contemplativo: ‘Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo’”.

“Precisamente frente à vida desnuda, que acabou se tornando radicalmente transitória, reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho e da produção. Também o aceleramento de hoje tem muito a ver com a carência de ser. A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre. Elas geram novas coerções. A dialética de senhor e escravo está, não em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria capaz também de ter tempo livre para o lazer. Leva ao contrário a uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a exploração é possível mesmo sem senhorio.”

Esta aceleração, a hiperatividade, é fruto da coerção do sistema sociocultural e político vivido na sociedade do desempenho. Ser livre, nesse contexto, significa dizer não a essa maquinaria do agir. É através da negatividade que podemos colocar algum freio à ordem do capital e seu paradigma de desempenho/cansaço.

“Hoje, vivemos num mundo muito pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios. No aforismo ‘A principal carência do homem ativo’, escreve Nietzsche: ‘Aos ativos falta usualmente a atividade superior [...] e nesse sentido eles são preguiçosos. [...] Os ativos rolam como rola a pedra, segundo a estupidez da mecânica’”.

A ira/indignação — se preferir, a revolução social — exige freio, tempo, crítica, mudança...

“A ira (...) coloca definitivamente em questão o presente. Ela pressupõe uma pausa interruptora no presente. É nisso que ela se distingue da irritação. A dispersão geral que marca a sociedade de hoje não permite que surja a ênfase e a energia da ira. A ira é uma capacidade que está em condições de interromper um estado, e fazer com que se inicie um novo estado. Hoje, cada vez mais ela cede lugar à irritação ou ao enervar-se, que não podem produzir nenhuma mudança decisiva.”

“A negatividade do não-para é também um traço essencial da contemplação. Na meditação zen, por exemplo, tenta-se alcançar a negatividade pura do não-para, isto é, o vazio, libertando-se de tudo que aflui e se impõe. Assim é um processo extremamente ativo, e algo bem distinto que passividade. É um exercício para alcançar em si um ponto de soberania, de ser centro.”

O zen é estruturalmente anticapitalista?

“A coação de desempenho força-o a produzir cada vez mais. Assim, jamais alcança um ponto de repouso da gratificação. Vive constantemente num sentimento de carência e de culpa. E visto que, em última instância, está concorrendo consigo mesmo, procura superar a si mesmo até sucumbir. Sofre um colapso psíquico, que se chama de burnout (esgotamento). O sujeito do desempenho se realiza na morte. Realizar-se e autodestruir-se, aqui, coincidem.”

“O responsável pela depressão, na qual acaba desembocando o burnout, é antes de mais nada a autorrelação sobre-exaltada, sobremodulada, narcisista, que acaba adotando traços depressivos. O sujeito de desempenho esgotado, depressivo está, de certo modo, desgastado consigo mesmo. Está cansado, esgotado de si mesmo, de lutar consigo mesmo. Totalmente incapaz de sair de si, estar lá fora, de confiar no outro, no mundo, fica se remoendo, o que paradoxalmente acaba levando a autoerosão e ao esvaziamento. Desgasta-se correndo numa roda de hamster que gira cada vez mais rápida ao redor de si mesma.”

Pior do que uma sociedade onde os indivíduos líquidos e desatrelados dos laços sociais de grupo/classe concorrem entre si é uma sociedade do desempenho onde os indivíduos concorrem consigo mesmo ou contra si, cindidos.

“Problemática não é a concorrência entre os indivíduos, mas o fato de tomarem a si mesmos como referência e de aguçar neles, assim, sua concorrência absoluta. O sujeito de desempenho concorre consigo mesmo e, sob uma coação destrutiva, se vê forçado a superar constantemente a si próprio. Essa autocoação, que se apresenta como liberdade, acaba sendo fatal para ele. O burnout é o resultado da concorrência absoluta.”

“É assim que doenças psíquicas como o burnout ou a depressão, que são as enfermidades centrais do século XXI, apresentam todas elas um traço altamente agressivo a si mesmo. A gente faz violência a si mesmo e explora a si mesmo. Em lugar da violência causada por um fator externo, entra a violência autogerada, que é mais fatal do que aquela, pois a vítima dessa violência imagina ser alguém livre.”

O capitalismo de desempenho coloca a sobrevivência como meta, abolindo a ideia aristotélica de boa vida. O fundamental não é viver ou bem viver, mas sobreviver no interior do sistema e, sorrindo, pois ninguém suporta tristezas.

“A economia capitalista absolutiza a sobrevivência. Ela se nutre da ilusão de que mais capital gera mais vida, que gera mais capacidade para viver. A divisão rígida, rigorosa entre vida e morte marca a própria vida com uma rigidez assustadora. A preocupação por uma boa vida dá lugar à histeria pela sobrevivência. A redução da vida a processos biológicos, vitais, deixa a vida desnuda, despe-a de toda narratividade. Retira à vida a vivacidade, que a vida é algo muito mais complexo que mera vitalidade e saúde. A mania da busca por saúde surge sempre que a vida se tornou desnuda, como uma cédula de dinheiro, e quando todo conteúdo narrativo se esvaziou.”

A mudança desse modelo de sociedade passa pela festa, pela celebração, pelo tempo contra o totalitarismo do trabalho e do desempenho.

“Talvez devêssemos reconquistar aquela divindade, aquela festividade divina, em vez de continuarmos sendo escravos do trabalho e do desempenho. Deveríamos reconhecer que hoje perdemos aquela festividade, aquele tempo de celebração na medida em que absolutizamos trabalho, desempenho e produção. O tempo de trabalho que hoje está se universalizando destrói aquela época celebrativa como tempo de festa.”

“Hoje em dia o tempo de celebração desapareceu totalmente em prol do tempo do trabalho, que acabou se tornando totalitário. A própria pausa se conserva implícita no tempo de trabalho. Ela serve apenas para nos recuperar do trabalho, para poder continuar funcionando.”

“Na época do relógio de ponto era possível estabelecer uma clara separação entre trabalho e não trabalho. Hoje edifícios de trabalho e salas de estar estão todos misturados. Com isso torna-se possível haver trabalho em qualquer lugar e a qualquer hora. Laptop e smartphone formam um campo de trabalho móvel.”

“A sociedade atual do sobreviver que absolutiza o sadio, destrói precisamente o belo. A mera vida sadia, que hoje adota a forma do sobreviver histérico, converte-se no morto; sim, num morto-vivo. Nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox. Assim hoje, estamos por demais mortos para viver, e por demais vivos para morrer.”

Não existe política se não há tempo, criatividade, alternativas, capacidade de construir coisas diferentes. É preciso espaço de criação para que o agir político se faça significativo e não mera administração de dados estatísticos na perspectiva de um eterno e linear processo de crescimento e expansão.

“A salvação do belo é igualmente o resgate do político. Hoje parece que a política vive ainda apenas de decretos de urgência. Já não é livre. Isto quer dizer: Hoje já não há política. Se ela já não admite nenhuma alternativa, acaba se aproximando de uma ditadura, da ditadura do capital. Os políticos, que hoje se degradaram em capangas do sistema, que no melhor dos casos são hábeis administradores da economia doméstica ou contadores, não são mais políticos no sentido aristotélico.”

Este não é um livro necessário?

___________________________________

Para conhecer mais sobre a obra do sociólogo Marcio Sales Saraiva, acesse seus livros pelo link: CLIQUE AQUI

O Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires agradece ao escritor Marcio Sales Saraiva, pela autorização de veicularmos o seu texto em nosso site, um texto que elenca reflexões fundamentais para o nosso tempo, e que vem ao encontro dos estudos desenvolvidos pelo IFEHP em torno da obra de Byung-Chul Han, incluindo um minicurso que iremos ministrar sobre aproximações do seu pensamento com o de Herculano Pires, no mês de maio.





 

domingo, 21 de março de 2021

Na pátria do racismo, os espíritas amam as florestas - Por Lindemberg Castro

 


Por Lindemberg Castro - Coordenador do Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires
lindembergsousac@gmail.com

Neste dia 21 de Março, é o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, um dia alusivo, um novo convite a repensarmos as nossas práticas cotidianas, as nossas relações e os nossos preconceitos estruturais. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas, para lembrar as vítimas que sucumbiram ou se feriram em um protesto no dia 21 de Março de 1960, em Johanesburgo, na África do Sul. O protesto seguia pacífico, um protesto legítimo contra a delimitação de circulação da população negra; mas, em se tratando do regime repressor em pleno Apartheid, em vigor no país desde 1948, a polícia abriu fogo contra a multidão, matando 69 pessoas e ferindo outras 186.

Hoje também é a data internacional alusiva à importância das Florestas para a biodiversidade no mundo e para a manutenção da vida, instituída também pela ONU, em 2012.

Daí você pode estar se perguntando o motivo de estarmos aproximando essas duas datas em um mesmo texto; apesar da consciência das datas, poderiam ser temas completamente distantes de se traçar qualquer paralelo. Mas, com os experimentos sociais que as redes nos permitem atualmente, é possível perceber que, para parte do Movimento Espírita Brasileiro em seus setores mais conservadores, aparentemente o Dia Internacional das Florestas é importante e necessário, enquanto o Dia Internacional contra a Discriminação Racial se configura como algo sem importância, porque afinal, “somos todos seres humanos”.

Em postagens que hoje foram veiculadas na página oficial da Federação Espírita Brasileira, no facebook, a instituição faz alusão à importância das duas datas, inclusive, na postagem sobre a luta contra a discriminação racial, cita a seguinte passagem do Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec (2009): “prescreve o respeito aos direitos de cada um, como cada um deseja que se respeitem os seus”; esse trecho nada mais é do que a reafirmação dos ensinamentos de Jesus, que nos orientou a desejar e fazer para os outros o mesmo que desejamos e fazermos para nós mesmos. É um princípio de amor e de fraternidade!

Contudo, parece que para alguns espíritas, qualquer perspectiva de amor e de fraternidade não se relaciona com a sua visão de mundo, criando um sistema alienante em que os ensinamentos espíritas são apenas teóricos e de aplicabilidade puramente individualista, e não possuem qualquer relação com práticas transformadoras no mundo. Basta passar o olhar nos comentários das duas postagens, para perceber que parte do movimento espírita não consegue dialogar com a realidade puramente humana, simplesmente não consegue aplicar ao mundo uma visão espírita da realidade.

Na postagem sobre a luta contra a discriminação racial, vemos de tudo, discursos moralistas, frases generalistas de que “somos todos humanos” ou que “todas as vidas importam”, vemos também algumas pessoas afirmando que a FEB está fugindo do “foco” ao fazer uma postagem com esse conteúdo, ou ainda, encontramos gente afirmando que esse tipo de data “comemorativa” reforça o racismo. Em contraposição a tantos pensamentos enviesados, na postagem sobre o dia internacional das florestas, todos os comentários são a favor da preservação das florestas; não há nenhum comentário do tipo: “montanhas também importam”, ou “somos todos Natureza”.

Ou seja, aparentemente, para alguns espíritas, as diversidades humanas não merecem respeito senão a partir de algumas diversidades apenas, e qualquer tentativa de retirar da invisibilidade temas importantes para grupos historicamente excluídos, é automaticamente alçado à categoria de heresia, como se o próprio Espiritismo não fosse uma filosofia preocupada com TODAS as questões sociais, com TODAS as diversidades humanas.

O racismo expresso nos comentários da postagem a que nos referimos acima, e em outros momentos, como na postagem em alusão ao Dia da Consciência Negra de 2020, feita pela própria FEB, nos coloca uma triste realidade acerca de parte do movimento espírita: há racismo escancarado em nome de ideologias excludentes, defendido por espíritas que, apesar de se dizerem cristãos, não conseguem aplicar ao mundo os preceitos básicos de fraternidade, de empatia, de acolher o outro a partir de seus desafios existenciais.

Há espíritas que se comportam como se no mundo não existissem desigualdades, preconceitos, injustiças, e demais problemáticas que atingem diretamente aos espíritos encarnados, e que, portanto, deveriam ser alvo da preocupação também dos espíritas, uma vez que Kardec deixou claro que a transformação da realidade não se dará somente pelo progresso pessoal impresso na tão famosa “reforma íntima”.

Kardec (2001), em “A Gênese”, deixa muito claro o objetivo principal da reencarnação frente aos processos transformadores no mundo,

Com a reencarnação, caem os preconceitos de raça e de casta, de vez que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grão-senhor ou proletário, patrão ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum há que saliente, pela lógica, o fato material da reencarnação. Portanto, se a reencarnação funda sobre uma lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, ela fundamenta sobre a mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade (p. 25).

 Ou seja, Kardec deixa claro que sem igualdade de direitos sociais, e sem a liberdade inerente a esses direitos, não há como pensarmos em progresso; Kardec fala de uma fraternidade universal, que, somente pode ser construída se tivermos “olhos para ver” o mundo com as suas contradições, e trabalharmos firmemente por um mundo melhor, mais justo, mais acolhedor e mais amoroso. Herculano Pires, Humberto Mariotti e Deolindo Amorim reforçaram o pensamento de Kardec quando nos afirmaram que ao lado da transformação pessoal é preciso ajuntar a transformação social, uma vez que as desigualdades são estruturais, são milenares, e não vão acabar como em um passe de mágica.

Herculano Pires (1969) foi um dos pensadores que sempre denunciaram os aspectos alienantes do movimento espírita em não dialogar com a realidade, e nem com seu tempo histórico e social. Ele chama o movimento espírita de misoneísta, ou seja, avesso a qualquer transformação profunda da realidade. E acrescenta:

Os espíritas que temem os problemas sociais e políticos, (...) são misoneístas extraviados no seio de um movimento espiritual renovador do mundo. Mas a participação espírita não é partidária, nem é política no sentido comum do termo. A revolução espírita não é um ato de violência, nem pode aceitar a violência, que é a negação do princípio de fraternidade, um crime contra o amor. Só a consciência da responsabilidade doutrinária, que resulta do conhecimento e da vivência da doutrina espírita, arma o homem para enfrentar a nova perspectiva política e revolucionária do espiritismo” (p. 15).

 Humberto Mariotti (1969) nos afirma que, “a ação solidária é transformadora dos sentimentos, e os sentimentos são transformadores da realidade social”; mas, aparentemente o movimento espírita está longe de compreender a segunda parte dessa reflexão, que diz respeito à transformação da realidade social. Ou seja, a frase pomposa e generalista que diz “somos todos espíritos, somos todos seres humanos”, poderia ser facilmente substituída por “somos todos misoneístas, odiamos mudanças estruturais”.

Diante desse quadro, é importante nos perguntar sobre os motivos que conduziram o movimento espírita em sua ala mais conservadora, a um discurso de neutralidade político-social, que simplesmente invisibiliza as vidas das pessoas, que simplesmente coloca na conta das leis de causalidade toda a explica das desigualdades, mesmo que em “O Livro dos Espíritos” haja a análise clara de que as desigualdades sociais foram criadas pelos espíritos encarnados, e estes é que precisam modifica-las.

Sinuê Miguel (2020) aponta algumas possibilidades para explicar a postura alienante da realidade social por parte do movimento espírita: discurso de neutralidade política, mas que na prática beneficia os sistemas de opressão vigentes, negação do pensamento social espírita por conta do perfil ideológico dos espíritas enquanto pertencentes à classe média, e a negação de qualquer relação entre Espiritismo e Socialismo, embora pensadores do quilate de Leon Denis, Herculano Pires e Humberto Mariotti, tenham produzido vasto material sobre essa relação.

Célia Arribas (2019) inclui ainda outras questões importantes, além das citadas acima por Miguel, incluindo outros recortes que explicam a alienação do movimento espírita para as realidades sociais:

O espiritismo, que poderia ser, pelos seus princípios, protagonista na promoção da igualdade, da fraternidade e da justiça social, se limitou, por conta de uma visão paralisante, confortável e conformista de mundo, que está na origem social dos espíritas – provenientes em sua grande maioria da classe média branca, escolarizada e heterossexual –, a uma explicação reencarnacionista da meritocracia, das desigualdades sociais (se há miseráveis e vulneráveis no mundo, eles e elas nada mais fazem do que “pagar” por seus erros de vidas passadas) e da salvação pela caridade material pontual, de cunho assistencialista, em plena conformidade, portanto, com o pensamento conservador e reacionário.

 Nós espíritas, temos muito trabalho pela frente em relação a todas as questões sociais, e para colaborarmos com o processo de retirar da invisibilidade a questão da luta antirracista, precisamos estudar mais a respeito, e produzirmos: textos, cursos, seminários, artigos, livros, etc., pautando esses temas. Precisamos entender que vivemos no mundo material e precisamos lidar com as questões sociais e históricas do nosso tempo. Alguns espíritas se utilizam de argumentos como “ah, mas somos todos iguais perante Deus”, ou “somos todos Espíritos”; as duas sentenças estão corretas em seu sentido essencial, mas não criam contextos com os processos reencarnatórios.

É na reencarnação que travamos as mais árduas batalhas morais e existenciais, e além das nossas questões individuais para darmos conta, é no mundo material que enfrentamos as injustiças e desigualdades, o preconceito, os processos anticivilizatórios, a necropolítica, e toda sorte de mazelas que, cabe a nós construirmos práticas e discursos que transformem para melhor este mundo. Nenhum conceito espírita serve para secar o nosso coração às dores dos outros, e nem para cruzar os nossos braços frente às desigualdades sociais. A práxis máxima do Espiritismo é o amor, sentimento que precisa ser transformado em ação de amparo, de empatia e de acolhimento a quem sofre; é a FILOSOFIA DA AÇÃO, a que se refere Herculano Pires, no Prólogo do livro de Humberto Mariotti, “O homem e a sociedade numa nova civilização”.

Para finalizarmos esse nosso breve artigo, exercitando as perguntas filosóficas como força motriz de nos questionarmos sobre a realidade, perguntamos: por que, uma data alusiva à discriminação racial incomoda tanto certos espíritas, mas o racismo não incomoda no mesmo nível? Por que parte do movimento espírita trata a luta antirracista como ideologia, mas propaga em alto e bom som, discursos fascistas da necropolítica que hoje governa o Brasil? Por que para parte do movimento espírita, a empatia frente às dores do outro só servem para desenvolver projetos sociais caritativos, mas não para defender vida digna a todos e a todas?

Sejamos todos antirracistas, nos convida Djamila Ribeiro (2019)!

São questões que precisamos pensar sobre elas, expô-las, e à moda como Herculano Pires sempre fez em toda a sua vida, precisamos denunciar essas práticas racistas e preconceituosas que correm a mancheias em setores conservadores do movimento espírita, afinal, o Espiritismo é uma filosofia progressista, e não para no tempo, malgrado o fundamentalismo religioso que impera em parte do movimento.

Ao sermos “nós”, que não invisibilizemos o outro! Se somos todos filhos de Deus, se somos todos espíritos, é preciso compreender que cada um de nós enfrenta toda sorte de desafios na realidade social em virtude das nossas diversidades. Como nos diz Grada Kilomba, precisamos ter o direito de sermos para além do que os outros nos definem, porque somente seremos a partir da coletividade, quando formos a partir da nossa individualidade e da nossa diversidade.

Ninguém deveria morrer de fome ou pela sua diversidade, se somos iguais em espírito, somos diferentes nas diversidades que compõem os nossos aprendizados e nas diversidades com as quais nos projetos na reencarnação. Espíritas, sejamos antirracistas, antilgbtfóbicos, antifascistas, anticapitalistas, anti-preconceitos de toda sorte, para que possamos efetivamente aplicar os ensinamentos do Evangelho, os ensinamentos de Jesus, pois Jesus se estivesse reencarnado hoje, seria tudo isso e muito mais para ajudar esse mundo turbulento a ser um lugar menos hostil para todos nós.

“Pessoas brancas devem se responsabilizar criticamente pelo sistema de opressão que as privilegia historicamente”, nos diz Djamila Ribeiro (2019), e nós acrescentamos ainda que: os espíritas devem se responsabilizar em pensar sobre o mundo e sobre as realidades sociais de forma crítica, percebendo e denunciando os sistemas de opressão vigentes, e atuando, tanto quanto puderem, na mudança de práticas e discursos que colaboram com esses sistemas.

 

REFERÊNCIAS

ARRIBAS, Célia. Espiritismo, Gênero e Política: uma equação tensa. Disponível em: https://revistaescuta.wordpress.com/2018/03/01/espiritismo-genero-e-politica-uma-equacao-tensa/. Acesso em 05 de janeiro de 2021.

 KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução José Herculano Pires. 20º ed. São Paulo: LAKE, 2001.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile. 365ª ed. São Paulo: IDE, 2009.

MIGUEL, Sinuê Neckel. Disposições políticas no Espiritismo brasileiro: entre neutralidade conservadora e aspirações socialistas. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/srh/article/view/50928. Acesso em 05 de janeiro de 2021.

 MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. Tradução de J. L. Ovando. São Paulo: EDICEL, 1969.

PIRES, Herculano. Prólogo. In MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. Tradução de J. L. Ovando. São Paulo: EDICEL, 1969.

RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. Tradução Heci Regina Canciani 1º ed. São Paulo: COMPANHIA DAS LETRAS, 2019.


sexta-feira, 19 de março de 2021

Reflexões Espíritas sobre a Sociedade do Cansaço - por Lindemberg Castro

 


Por Lindemberg Castro - Coordenador do IFEHP - lindembergsousac@gmail.com

No início de 2021, o Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires promoveu um curso relacionando temas de Saúde Mental com as obras de Herculano Pires, situando Herculano como um dos grandes pensadores ainda da atualidade, tendo em vista os debates suscitados pela sua vasta produção filosófica. Já no mês de fevereiro, o Centro Espírita Virtual Camilo Castelo Branco, promoveu em sua página no facebook, um bate-papo virtual com o mesmo título desse artigo: “Reflexões espíritas sobre a sociedade do cansaço”, e da qual também participamos; compartilhamos esse bate-papo virtual com os amigos Arivaldo Montalvão e Edson Tobler, a quem agradecemos pelas reflexões complementares que nos encorajaram a escrever esse artigo.

O presente artigo pretende estabelecer algumas relações entre três pensadores, o nosso filósofo espírita Herculano Pires, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han, e a psicanalista brasileira Maria Rita Khel; três pensadores necessários para compreendermos os desafios do mundo para os espíritos reencarnados, que tem que lidar com as questões históricas e sociais próprias do seu tempo. Indicamos aos nossos leitores, caso queiram aprofundar-se, utilizamos como principais referências os livros Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, Ressentimento, de Maria Rita Khel, e O Espírito e o Tempo e também Educação para a Morte, de Herculano Pires. É um artigo breve, que merecerá outros desdobramentos em momento oportuno, portanto, apresentamos aqui algumas questões iniciais para a reflexão dos leitores e leitoras.

Sociedade do cansaço é um livro curto – numa época de velocidade da informação e do esgotamento, trata-se de uma forma precisa de transmitir para o público leitor o aspecto tenebroso da valorização de indivíduos inquietos e hiperativos que se arrastam no cotidiano produtivo realizando múltiplas tarefas, ao mesmo tempo em que adoecem psiquicamente. Publicado originalmente em língua alemã, Sociedade do cansaço foi traduzido para o português em 2015 e ampliado na segunda edição em 2017 com dois textos anexos esclarecedores: “Sociedade do esgotamento” e “Tempo de celebração: a festa numa época sem celebração”.

No livro, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, professor de filosofia e estudos culturais da Universidade de Berlim, parte de uma constatação relativamente comum para o problema das relações entre sociedade e sofrimento psíquico: cada época tem suas enfermidades. Dado que os sofrimentos psíquicos são compreendidos nos dias atuais, sobretudo como desvios neuroquímicos, para ele a nossa época se configura como uma “violência neuronal” como consequência da sociedade adoecida sobretudo pelo capitalismo e suas diversas formas de opressão.

O termo “sociedade do cansaço” também se refere a sofrimentos psíquicos como síndrome de burnout , transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e depressão, que são apreendidos pela compreensão do autor em sua relação direta com o modo operatório do capitalismo contemporâneo. Ou seja, os indivíduos são convidados e estimulados a se explorarem e a explorarem os outros, e consideram que isso seja algum tipo de autorrealização, em processos que fetichizam a vida humana e o próprio indivíduo. Podemos dizer que o aprofundamento das contradições capitalistas coincide com o aprofundamento do adoecimento psíquico humano, sobretudo a partir do século XX, fazendo disparar as taxas de suicídio e depressão, por exemplo.

Em Educação para a Morte, Herculano Pires (2016) nos diz que as injustiças brutais da estrutura social nos pesam e nos adoecem, despertando em nós os impulsos da morte como a violência e o suicídio. Por outro lado, e como contradição da própria estrutura capitalista, “nosso anseio de transcendência é apenas horizontal, voltado sistematicamente para a conquista de prestígio social, dinheiro e poder temporal”. Todo esse desgaste nos leva ao esgotamento psíquico e a processos de ressentimento e frustração (para utilizarmos um conceito da psicanalista Júlia Kristeva) que reverberam simultaneamente na estrutura social e nos indivíduos em particular. O ressentimento, categoria de análise trazida por Maria Rita Khel, pode nos ajudar a compreender a própria dinâmica de adoecimento psíquico pelo qual passamos, e como isso se transforma em processos maiores que atingem a própria sociedade.

O ressentimento não é um conceito originário da Psicanálise, esse é um ponto importante; com exceção de Nietzsche, na filosofia, não houve em outras áreas autores que se dedicaram a esse assunto. O mais próximo disso na Filosofia diz respeito às Filosofias da Existência, que trouxeram à baila conceitos como frustração (Sartre), melancolia (Camus e Kierkegaard), angústia (Kierkegaard), relação entre o universal e o específico (Simone de Beauvoir, a respeito do feminismo), etc.

Para Maria Rita Khel, a atualidade do ressentimento enquanto tema, além de clínica, é política, e, portanto, social, e interfere diretamente na vida como um todo; espiritamente falando, a sua análise também compreende as consequências das questões sociais para os espíritos encarnados, envoltos em uma superestrutura de desigualdade e egoísmo. Além disso, ela nos diz:

O ressentimento é uma constelação afetiva que serve aos conflitos característicos do homem contemporâneo, entre as exigências e as configurações imaginárias próprias do individualismo e os mecanismos de defesa do eu a serviço do narcisismo. A lógica do ressentimento privilegia o indivíduo em detrimento do sujeito e contribui para sustentar nele uma integridade narcísica que independe do sucesso de seus empreendimentos (2020, p. 09).

Privilegiando o indivíduo em sua estrutura narcísica, e não os processos subjetivos próprios do ser humano, o ressentimento desumaniza as pessoas e os sujeitos ao seu redor, estes passam a ser considerados responsáveis pelo que fazem aqueles sofrerem, é uma compensação, uma barganha. No nível macro da sociedade, o ressentimento pode ser direcionado a grupos sociais diversos, que passam a ser considerados como inimigos, culpados por algum tipo de desordem social, e logo, precisam ser combatidos. Sobre esse ponto, recomendamos aos leitores a palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adichie, como título “O perigo de uma única história”, em que ela explica como esse processo também pode ser utilizado para a instalação de sistemas de exceção como o nazismo e a escravização.

Maria Rita Khel, ao se referir ao Brasil em específico, analisa que o ressentimento presente em nosso país é canalizado não para quem causa a verdadeira desordem social, como militares e sua ditadura, políticos corruptos, etc.; na verdade, o ressentimento social é direcionado a grupos sociais historicamente explorados ou que lutam por uma sociedade melhor e mais justa; é assim que um benemérito como o padre Júlio Lancelotti, por exemplo, causa tanto ódio por parte dos ressentidos. Se Gramsci odeia os indiferentes, os ressentidos tomam partido contra os que lutam por uma sociedade mais justa, pois estes causam desordem na ordem estabelecida. Ao mesmo tempo, Khel nos afirma que outras formas de compensação do ressentimento social brasileiro, são: 1) estar envolvido com política, mas não com transformação social, 2) práticas religiosas que não dialogam com a sociedade a não ser para direcionar seu fundamentalismo (podemos incluir aqui parte do movimento espírita), 3) cultura de massas, 4) figuras simbólicas que reafirmem o brasileiro como cordial e acolhedor; tudo isso funciona como formas de suavizar o ressentimento, ao mesmo tempo que invisibiliza todas as lutas sociais.

Em diálogo com Khel, podemos citar a passagem escrita por Herculano Pires (2005), em “O Espírito e o Tempo”, que também elenca uma descrição bastante verossímil sobre a situação atual do Brasil, mergulhado em pleno governo de práticas necropolíticas:

Os regimes totalitários fizeram uma inversão curiosa e trágica do processo de desenvolvimento cultural. Transformaram seus líderes em novos deuses, de um fanatismo brutal, em que o sentimento de humanidade foi revertido em ferocidade selvagem. As religiões da violência cevaram as massas de medo ao sobrenatural. Aos arbitrários poderes divinos e às prerrogativas sagradas da hierarquia clerical (p. 220).

Essa passagem escrita por Herculano Pires vem ao encontro de um Brasil ressentido, tomado pela necropolítica com amplo apoio dos setores conservadores e poderosos, que, em verdadeiro conluio sinistro contra o seu próprio povo, tem fomentado morte, miséria e adoecimento psíquico em plena Pandemia. As religiões da morte, como afirma Herculano, representadas aqui também pelo milhões de espíritas que votaram em um candidato que contradiz tudo o que professam, tornaram-se parceiras desse macabro projeto de asfixiar a população, com a licença nada poética da representação da divindade, mas que na verdade reproduzem simplesmente o que há de pior do fascismo tupiniquim.

Todo esse cenário em que estamos vivendo, confunde o Espírito encarnado, que, além das suas próprias questões internas para lidar, também precisa lidar com as contradições da sociedade, que incidirão sobre ele de forma mais ou menos aprofundada. No sistema capitalista, que, alinhado a outros dois sistemas de opressão principais - como nos diz Angela Davis, o machismo e o racismo, essas contradições são levadas ao extremo, de modo que a sociedade do cansaço é resultante do ser humano transformado em fetiche produtivista no sentido capitalista, e reprodutivista no sentido de reproduzir a estrutura desigual maior; sem o paradigma do espírito para lhe ofertar um contraponto, e ainda tendo que carregar consigo o ressentimento que pode ter sua fonte nas imperfeições do espírito ou como resultado das desigualdades sociais.

Em todas essas situações há um processo de desumanização dos sujeitos, que não são considerados como seres humanos a priori, mas passam a depender da fetichização e da colaboração com os sistemas opressivos para serem minimamente considerados humanos, mas jamais iguais aos que detém o poder majoritário. Todo esse processo sufoca o espírito encarnado, sequer considerado e valorizado, como resultado do materialismo presente na estrutura da desigualdade.

Parece uma visão distópica sobre um livro de George Orwell, contudo, as questões básicas da reflexão filosófica ainda permanecem em nossos dias: a questão do humanismo e da filosofia social e política; foi nesse cenário que Herculano Pires desenvolveu boa parte das suas obras, inclusive tentando trazer elementos filosóficos mais otimistas para fazerem frente ao pessimismo existencialista que marcou o século XX, foi assim que Herculano escreveu obras como “O Ser e a Serenidade”, “O Sentido da Vida” e “O Espírito e o Tempo”, sendo claras respostas a obras de Sartre, Heidegger, Kierkegaard, etc.

As contradições sociais que elencamos até aqui também nos ajudam a perceber que a estrutura social é complexa, tanto na sua organização como nos seus efeitos que retornam aos próprios sujeitos em diferentes formas de impacto nas suas vidas. Essa complexidade demostra que a estrutura social não obedece a imperativos das leis de causalidade que o Espiritismo nos apresenta, mas antes, são frutos das ações dos próprios seres humanos, pautados em sistemas de opressão seculares e estruturais, e contra os quais a vida moral individual nada pode, necessitando de nossa parte, uma atuação coletiva de transformação social mais ampla. Conforme nos explica o Espiritismo, em “O Livro dos Espíritos” (2016), a afirmação de que as desigualdades sociais são criadas pelo próprio ser humano (item 806 e seguintes), portanto, não são criadas como imperativos das leis de causalidade.

Em “A Gênese”, Kardec (2001) vai ainda mais longe, e determina a natureza que a missão da reencarnação possui, para o progresso e a transformação das realidades:

Com a reencarnação, caem os preconceitos de raça e de casta, de vez que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grão-senhor ou proletário, patrão ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum há que saliente, pela lógica, o fato material da reencarnação. Portanto, se a reencarnação funda sobre uma lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, ela fundamenta sobre a mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade (p. 25).

Sobre esse cenário desafiador da existência no mundo material, Herculano Pires nos diz:

A existência, em que o homem se afirma pela dignidade da consciência, pelo esforço constante de superação de si mesmo, foi trocada em miúdos, em níqueis inflacionados, pelo viver larvar do dia a dia rotineiro e da subserviência ao desvalor dos que conquistaram os postos de comando na sociedade aviltada. Inteligências robustas e promissoras esvaziam-se na consumação de si mesmas, servindo de maneira humilhante a senhores ocasionais, que podem assegurar-lhes o falso prestígio de salários altos e posições invejadas pela corja rastejante. (...) Os sonhos do antigo humanismo foram simples delírios de pensadores esquizofrênicos. A ordem geral, que todos aceitam, é viver para si mesmo e mais ninguém (2016, p. 64-65).

Por essas reflexões de Herculano, vemos que o individualismo, imperfeição nossa que deriva do orgulho e do egoísmo, tem a habilidade de se manifestar de diferentes formas na existência material, alimentando por vezes ilusões sobre nós mesmos e sobre a estrutura social; nos aviltamos para sermos encaixados no mundo, mesmo que o encaixe seja desproporcional e possa nos levar a condições de meros expectadores da desigualdade estrutural ou pior, reprodutores que colaboram com a desigualdade. A sociedade do cansaço precisa do individualismo para que possa funcionar a contento, pois é ele quem estimula o indivíduo a se auto-explorar e a explorar seu semelhante.

Yes, we can – o slogan utilizado pelo presidente estadunidense Barack Obama – expressa com precisão o excesso de positividade da sociedade do desempenho (HAN, 2017, p. 24). No lugar do enunciado disciplinar coercitivo “tu deves”, imposto de fora, entra em cena o novo enunciado “nós podemos”, o qual, em sua essência, remete a uma falsa liberdade ao impor aos indivíduos o imperativo da realização, da mobilidade, da velocidade e da superação constantes, transformando qualquer coisa diferente disso em culpa, medo, autoflagelo, etc.

Sobre essa questão do imperativo individualista camuflado no “nós podemos”, Byung-Chul Han nos diz que tudo reside na falsa liberdade e no processo destrutivo contido nesta transformação contemporânea que vivenciamos a partir do capitalismo. O filme Cisne Negro , de Aronofsky (2010), pode evidenciar sua tese. Neste thriller psicológico, a imposição da performance e do desempenho mediante a autossuperação é incorporada pela protagonista e levada às suas últimas consequências. A autodestruição da bailarina – que figura aqui apenas como metáfora do desempenho profissional e social – nada mais é senão a perseguição obstinada do enunciado “tu podes”. Em que pesem os efeitos destrutivos, o filme parece ratificar a constatação de Byung-Chul Han de que “[a] positividade do poder é mais eficiente que a negatividade do dever” (p. 25). Ou seja, a autossuperação postulada em yes, we can é capaz de extrair toda a potência e eficácia insuspeitas ao próprio sujeito, ainda que o custo da autossuperação possa ser a autossupressão, e o consequente adoecimento psíquico ou somático em forma de variadas doenças.

O capitalismo entretém o individualismo baseado no consumo e na produção excessiva da exploração do indivíduo pelo indivíduo, o machismo fortalece o individualismo da suposta supremacia do homem sobre a mulher e sobre os gêneros e as sexualidades considerados dissidentes, como as pessoas LGBTs, e o racismo entretém o individualismo pautado na diferenciação do outro pela sua cor de pele ou pela sua cultura, como se os Espíritos não reencarnassem em corpos e experiências diversas, como se não fosse da natureza da própria reencarnação, a diversidade de experiências; a natureza da reencarnação é a diversidade expressa na multiplicidade das vivências e habilidades humanas, e somente o nosso apego ao exterior é capaz de nos fazer crer em superioridade corporal ou cultural, qualquer que seja.

Como considerar que toda a estrutura de desigualdade descrita acima, não afeta em cheio a vida dos espíritos encarnados? Como considerar que apenas a chamada “reforma íntima” é suficiente para transformar a realidade? Como atribuir às leis de causalidade a responsabilidade frente às desigualdades criadas e fomentadas pelo próprio ser humano? A essas e outras questões, voltaremos a posteriori, em novo artigo que dará continuidade às reflexões introdutórias que elencamos até aqui.

Aos nossos leitores, agradecemos pelo exercício da leitura filosófica voltada para reflexões espíritas.

REFERÊNCIAS

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 1ª ed. Petrópolis: VOZES, 2015.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de José Herculano Pires. 1ª ed. São Paulo: EDICEL, 2016.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Victor Tollendal Pacheco. 20ª ed. São Paulo: LAKE, 2001.

KEHL, Maria Rita. Ressentimento. 3ª ed. São Paulo: Boitempo, 2020.

PIRES, Herculano. O Espírito e o Tempo. 9ª ed. São Paulo: PAIDEIA, 2005.

PIRES, Herculano. Educação para a Morte. 1ª ed. São Paulo: PAIDEIA, 2016.


quarta-feira, 17 de março de 2021

Uma tomada de consciência - por Herculano Pires

 


O apego ao contingente, ao imediato, apaga na consciência dos nossos dias o senso da responsabilidade espiritual. Nem mesmo a ronda constante da morte consegue arrancar o homem atual da embriaguez do presente. O problema do espírito e da imortalidade só se aviva quando ligado diretamente a questões de interesse pessoal. O católico, o protestante, o espírita se equivalem nesse sentido. Todos buscam os caminhos do espírito para a solução de questões imediatistas ou para garantirem a si mesmos uma situação melhor depois da morte.

A maioria absoluta dos espiritualistas está sempre disposta a investir (este é o termo exato) em obras assistenciais, mas revela o maior desinteresse pelas obras culturais. Apegam-se os religiosos de todos os matizes à tábua de salvação da caridade material, aplicando grandes doações em hospitais, orfanatos e creches, mas esquecendo-se dos interesses básicos da cultura. Garantem os juros da caridade no após-morte, mas contraem pesadas dívidas no tocante à divulgação, sustentação e defesa de princípios fundamentais da renovação da cultura planetária.

A imprensa, a literatura, o ensaio, o estudo, a fixação das linhas mestras da nova cultura terrena ficam ao deus-dará. Falta uma tomada de consciência, particularmente no meio espírita, da responsabilidade de todos na construção e na elaboração da Nova Era, que é trabalho dos homens na Terra. Ninguém ou quase ninguém compreende que sem uma estruturação cultural elevada, sem estudos aprofundados no plano cultural, que revelem as novas dimensões do mundo e do homem na perspectiva espírita, o espiritismo não passará de uma seita religiosa de fundo egoísta, buscando a salvação pessoal de seus adeptos, precisamente aquilo que Kardec lutou para evitar.

A finalidade do espiritismo, como Kardec acentuou, não é a salvação individual, mas a transformação total do mundo, num vasto processo de redenção coletiva. Proporcionar aos jovens uma formação cultural apoiada na mais positiva e completa base espiritual, que mostre a insensatez das concepções materialistas e pragmatistas, dando-lhes a firmeza necessária na sustentação e defesa dos princípios doutrinários, não é só caridade, mas também realização efetiva dos objetivos superiores do espiritismo nesta fase de transição. Sem esse trabalho não poderemos avançar com segurança e eficácia na direção da Era do Espírito. Temos de dar às novas gerações a possibilidade de afirmarem, diante do desenvolvimento das ciências e do avanço geral da cultura, como disse Denis Bradley: “Eu não creio, eu sei!” Porque é pelo saber, e não pela crença, pela fé racional e não pela fé cega, pelo conhecimento e não pelas teorias indemonstráveis, que o espiritismo, como revelação espiritual, terá de modelar a nova realidade terrena, apoiado na confirmação científica, pela pesquisa, dos seus postulados fundamentais. A revelação humana confirma e comprova a revelação divina.

Esse é o problema que ninguém parece compreender. Todos sonham com o momento em que a ciência deverá proclamar a realidade do espírito. Mas essa proclamação jamais será feita, se a ciência espírita não atingir a maioridade, não se confirmar por si mesma, podendo enfrentar virilmente, no plano da inteligência e da cultura, a visão materialista do mundo e a concepção materialista do homem. Por isso precisamos de universidades espíritas, de institutos de cultura espírita dotados de recursos para uma produção cultural digna de respeito, de laboratórios de pesquisa psíquica estruturados com aparelhagem eficiente e orientados por metodologia segura, planejada e testada por especialistas de verdade, capazes de dominar o seu campo de trabalho e de enfrentar com provas irrefutáveis os sofismas dos negadores sistemáticos. É uma batalha que se trava, o bom combate de que falava o apóstolo Paulo, agora desenvolvido com todos os recursos da tecnologia.

Chega de pieguice religiosa, de palestras sem fim sobre a fraternidade impossível no meio de lobos vestidos de ovelhas. Chega de caridade interesseira, de imprensa condicionada à crença simplória, de falações emotivas que não passam de formas de chantagem emocional. Precisamos da Religião viril que remodela o homem e o mundo na base da verdade comprovada. Da caridade real que não se traduz em esmolas, mas na efetivação da fraternidade humana oriunda do conhecimento de nossa constituição orgânica e espiritual comuns, ou seja, da inelutável igualdade humana. De exposições sábias e profundas dos problemas do espírito, nascidas da reflexão madura e do estudo metódico e profundo. Temos de acordar os dorminhocos da preguiça mental e convocar a todos para as trincheiras da guerra incruenta da sabedoria contra a ignorância, da realidade contra a ilusão, da verdade contra a mentira. Sem essa revolução em nossos processos não chegaremos ao mundo melhor que já está batendo, impaciente, às nossas portas.

Não façamos do espiritismo uma ciência de gigantes em mãos de pigmeus. Ele nos oferece uma concepção realista do mundo e uma visão viril do homem. Arquivemos para sempre as pregações de sacristão, os cursinhos de miniaturas de anjos, à semelhança das miniaturas japonesas de árvores. Enfrentemos os problemas doutrinários na perspectiva exata da liberdade e da responsabilidade de seres imortais. Reconheçamos a fragilidade humana, mas não nos esqueçamos da força e do poder do espírito encerrado no corpo. Não encaremos a vida cobertos de cinzas medievais. Não façamos da existência um muro de lamentações. Somos artesãos, artistas, operários, construtores do mundo e temos de construí-lo segundo o modelo dos mundos superiores que explendem nas constelações.

Estudemos a doutrina aprofundando-lhe os princípios. Remontemos o nosso pensamento às lições viris do Cristo, restabelecendo na Terra as dimensões perdidas do seu Evangelho. Essa é a nossa tarefa.


Fonte: Jornal Mensagem, órgão do Grupo Espírita Cairbar Schutel, sob a direção de J. Herculano Pires - Ano 1 - Set/75

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Curso "O pensamento filosófico de Herculano Pires e Humberto Mariotti" - Parceria entre IFEHP e IEEF

 


Em março iniciaremos uma nova e maravilhosa parceria, entre o Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires e o Instituto Espírita de Estudos Filosóficos, de São Paulo.

Iremos ministrar o curso O pensamento filosófico de Herculano Pires e Humberto Mariotti, com a chancela do IEEF, sendo um encontro semanal de uma hora e meia, de Março a Junho, aos sábados. O curso é gratuito e online.

Celebramos e agradecemos por essa parceria em prol da Filosofia Espírita e pela divulgação dos filósofos que contribuíram para uma visão mais ampla do Espiritismo, sobretudo em uma perspectiva progressista.

Link para inscrição e demais informações sobre o curso: INSCRIÇÕES ABERTAS

Inscrições abertas no site do IEEF!


domingo, 17 de janeiro de 2021

Odeio os indiferentes - Reflexões sobre o Movimento Espírita - Por Lindemberg Castro

 


Odeio os indiferentes: reflexões sobre o movimento espírita

Por Lindemberg Castro - Coordenador do Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires

 

“Odeio” os indiferentes espíritas-religiosos, aqueles que do alto da sua superioridade forjada pela consciência de rebanho que os segue e os alça aos mais altos patamares de legisladores da vida civil e espiritual dos seus seguidores, mas ignoram completamente os sofrimentos e desigualdades desse mundo, em um verdadeiro esbaldar masoquista. O meio espírita está cheio desses indiferentes religiosos, que desenvolveram percepções cruéis sobre as leis de causalidade espíritas, para justificarem o injustificável da barbárie cotidiana que vivemos, sobretudo no Brasil, um país desgovernado e com o povo asfixiado, morrendo pela negligência deliberada da necropolítica instaurada com o apoio dos mais fundamentalistas meios espíritas.

Gramsci (2020) nos diz acerca dos indiferentes, que “indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida”, de modo que estar reencarnado nos exige tomada de posição frente aos desafios históricos e sociais em que estamos inseridos; precisamos de uma antropologia da reencarnação, para que entendamos o retorno à carne como algo não contemplativo. O moralismo, como nos diz Herculano Pires em “Educação para a Morte”, forjou e ainda forja todo o trabalho das religiões da morte, que ávidas por prosélitos, desenvolvem a sua estrutura de funcionamento não para o desenvolvimento da autonomia das pessoas, mas para mantê-las sob as rédeas, ou como nos fala Foucault, mantendo corpos dóceis para controle sobre a vida e sobre a morte. docilização dos corpos visa tornar as pessoas “boazinhas”, sem lhes dar um espaço de reflexão acerca de sua posição na sociedade ou no mundo.

Parte considerável do movimento espírita, atuando de forma quase unicamente religiosa ao longo de décadas, também ajudou a criar a “religião espírita da morte”, com toda a estrutura das religiões tradicionais “cristãs”, religiões essas que forjam o ápice das contradições entre indivíduo e sociedade, como bem nos alertaram Freud, Marx e Weber. Na religião espírita da morte toda a consolação espiritual advinda da pesquisa psicológica e espiritual de Kardec transformou-se em lei de talião fatalista e capacitista, que culpa a vítima pelo seu sofrimento, tal qual a estratégia do machismo estrutural que culpa a mulher pela violência que ela sofre, e o racismo estrutural que culpa o negro pela discriminação que sofre.

Na religião espírita da morte, o amor foi transformado em meritocracia necropolítica, sempre pronta a apontar o dedo para dizer: você é o único culpado pelo seu sofrimento, não importa que tipo de sofrimento. E assim parte do movimento espírita tem se empenhado em justificar toda sorte de tragédias humanas passadas e presentes, desde desastres naturais a ditaduras, passando por genocídios e escravizações; tragédias sociais (mesmo as que são completamente evitáveis) também são justificadas por essa lógica, e não nos surpreendamos caso surja algum texto “psicografado” dizendo que as pessoas que morreram asfixiadas em Manaus esta semana, em plena pandemia devido à negligência governamental, na verdade passaram por isso porque mereceram, pois na vida passada foram nazistas que trabalharam nas câmaras de gás.

É por esse tipo de pensamento, que encontramos mais espiritualidade em pensadores considerados ateus como Judith Butler, Angela Davis, Nietzsche, Sartre, Freud, pois em suas reflexões encontram-se questões fundamentais para a existência do Espírito encarnado. Se, por um lado, os conhecimentos espiritualistas, dentre eles o Espiritismo, revelaram ao ser humano a sua verdadeira condição existencial como Espírito, por outro lado, não podemos ignorar os conhecimentos próprios do desenvolvimento do pensamento e das ciências. Quando o Espiritualismo não conversa com a vida objetiva na matéria, torna-se apenas contemplação; Herculano já prevera a vocação do Espiritismo ao desenvolver o conceito que ele chama de Espiritualismo Científico, mas que na prática, é um aspecto incompreendido pela maior parte do movimento espírita até hoje.

Na religião espírita da morte, há médiuns que se comportam como sacerdotes que, de tempos em tempos vem ao público ditar regras de conduta moralista através de verdadeiros sermões neopentecostais, pautados em obediência e justificação de toda sorte de desigualdades. Em poucos dias vimos o médium Divaldo Franco dar mostras de sua alienação frente aos contextos sociais deste tempo, de variadas formas; foram publicadas duas mensagens supostamente psicografadas atribuídas aos espíritos Ismael e Bezerra de Menezes, e mais recentemente foi publicado artigo do próprio Divaldo se pronunciando sobre a legalização do aborto na Argentina, escreveremos a posteriori um artigo específico sobre esse último texto do médium baiano.

Das supostas mensagens de Ismael e Bezerra de Menezes, já amplamente refutadas por diversos artigos lúcidos de companheiros espíritas progressistas, temos apenas a lamentar que mensagens tão enviesadas, anticientíficas e de teorias da conspiração, sejam atribuídas a dois espíritos considerados de notória evolução. Partes das mensagens parecem ter saído diretamente de um grupo de whatsapp de extrema direita, em que lemos coisas do tipo: ataques às universidades públicas, desconfiança sobre a “velocidade” de produção da vacina contra COVID-19 e que apesar da vacina o sofrimento da humanidade continuará (?), insinuações de que o Coronavírus foi criado em laboratório, insinuações de que governantes desviaram recursos de combate à pandemia, além das já tradicionais táticas discursivas baseadas em ameaça, medo, culpa e promessas de dias melhores através da regeneração, o tão idolatrado período mágico que alguns espíritas esperam que se realize, mas sem nenhuma atuação direta contra as desigualdades sociais.

Definitivamente, não acreditemos em ninguém que ataca universidades públicas, seja encarnado ou desencarnado! Afinal de contas, quem mais produz ciência e pesquisa nesse país senão as instituições públicas?! Atacar instituições públicas é discurso que se alinha muito mais ao fascismo do que aos valores democráticos, pois o fascismo não suporta instituições autônomas, e parece que certos médiuns e espíritos também não suportam.

É curioso observar que nos referidos textos psicografados por Divaldo, não haja nenhuma referência à dramática situação que vivemos no Brasil atualmente, dominado pela necropolítica, sabotado pelos que o governam em notória política genocida; é também curioso observar que nenhum dos textos trata do aumento da desigualdade social em plena pandemia, em que os bilionários do mundo aumentaram em 31% a sua fortuna, aprofundando ainda mais as desigualdades a partir do capitalismo voraz; também é de se admirar, que nenhum texto ou posicionamento de Divaldo, seja agora ou anteriormente, faça referência ao adoecimento psíquico causado pela pandemia e aprofundado pelas feridas da desigualdade que a pandemia deixou a descoberto. Também é absolutamente surpreendente que nenhum dos textos cite as bases das pesquisas mundiais que mapearam os vírus das famílias SARS e MERS há anos, ao invés disso, um dos textos insinua que houve pressa na produção da vacina contra a COVID-19.

  Ao invés de tudo isso que citamos acima, os textos insinuam teorias da conspiração ou apenas reafirmam a causalidade necropolítica presente na justificação da pandemia enquanto castigo à humanidade atrasada. Parece que a reafirmação constante da nossa “inferioridade moral”, deve servir como alguma forma de mantra ou compensação psicológica para determinados espíritos e médiuns que normalmente se colocam acima da própria humanidade. É possível ser humano estando acima da humanidade?

Desses pontos de vista que temos aludido até aqui, sobre as recentes produções do médium Divaldo Franco, é ainda mais surpreendente quando lemos a seguinte passagem de uma de suas obras psicografadas, ditada por Joanna de Angelis:

O pensamento de homens e mulheres audaciosos como Allan Kardec, Charles Darwin, Karl Marx, Sigmund Freud, Marie Curie, Albert Einstein, produziu uma revolução de tal porte nos conceitos e costumes das criaturas, que até hoje tentam adaptar-se ao novo mundo por eles descoberto (FRANCO, p. 13). 

 Essa passagem marca a importância dos grandes pensadores e pensadoras da humanidade para conseguirmos avançar no “novo mundo por eles descoberto”; o conhecimento produzido pelas vias da reencarnação não pode ser deixado de lado frente aos conhecimentos espirituais, enquanto continuarmos a reencarnar nesse mundo, sob pena de apenas contemplarmos a nós mesmos em uma reforma íntima individualista e alienada, enquanto aguardamos o desencarne para termos direito a uma casa em uma colônia espiritual. Seria essa a nova forma de comércio de indulgências?

“A indiferença é o peso morto da história”, como nos alertou Gramsci, e cada vez que os espíritas se alienam pela indiferença ao mundo material e aos contextos históricos e sociais, cresce também a quantidade de espíritas que veem de outra forma, que querem estudar, debater e entender melhor as dinâmicas sociais, porque perceberam as contradições existentes em um movimento eminentemente religioso, que preconiza a caridade material como principal forma de fazer o bem, mas que parte dele se coloca contra as políticas públicas e sociais que beneficiam a população mais pobre.

O bem-estar social para todos e todas deveria ser entendido como um direito básico da existência do Espírito na reencarnação, mas, ao contrário disso, vemos espíritas e médiuns famosos atacando gratuitamente qualquer política pública de assistência social, de saúde pública universalizada, de educação pública de qualidade, de acesso à universidade, de produção científica, de produção e acesso às artes, políticas de cotas e de reparação histórica, etc., como se elas fossem danosas, quando na verdade elas visam o interesse público no mais alto nível, que é garantir a vida encarnada digna para todos e todas que precisam.

Em um momento em que parece que alguns espíritos e médiuns desdenham do conhecimento humano e da própria vida humana, e que em tese deveriam ter uma visão mais ampla das coisas porque teriam acesso a informações que muitas vezes não temos, pelo menos hoje nós brasileiros temos um alento depois de dias tão terríveis dominados pela política genocida; hoje, a primeira brasileira foi vacinada contra a COVID-19, Mônica Calazans, uma mulher negra, da linha frente de combate à pandemia, enfermeira, e que representa bem a diversidade do povo brasileiro.

As Ciências, e não apenas as ciências duras, a cada dia vencem o fundamentalismo religioso, seja lá de que matriz for, inclusive o de matriz espírita; agradeçamos a Deus o dom da inteligência, da pesquisa, do desenvolvimento do pensamento, porque só assim conseguiremos superar o obscurantismo medieval e o fascismo que de tempos em tempos tentam retornar entre nós, seja através de espíritos encarnados ou desencarnados.

Que tenhamos dias melhores e abençoados em nosso país, que assim seja!

 

REFERÊNCIAS

ANGELIS, Joanna de (Espírito). Dias gloriosos. Psicografado por Divaldo Franco. 4ª ed. Salvador: Livraria Espírita Alvorada Editora, 2010.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Rio de Janeiro: VOZES, 2009.

GRAMSCI, Antonio. Odeio os indiferentes: escritos de 1917. 1º ed. São Paulo: Boitempo, 2020.

PIRES, Herculano. Educação para a Morte. 1º ed. São Bernardo do Campo: Correio Fraterno, 2016.