segunda-feira, 17 de maio de 2021

Consideramos justa toda forma de Amor! - Por Lindemberg Castro


 Lindemberg Castro, coordenador do Instituto de Filosofia Espírita do Ceará. Contatos: lindembergsousac@gmail.com / (85) 991482997.

Hoje é o Dia Internacional contra a LGBTfobia, data que marca a histórica retirada da homossexualidade do Cadastro Internacional de Doenças, monitorado pela Organização Mundial de Saúde. Aquele 17 de maio de 1990 ficou marcado como símbolo de luta por direitos e reconhecimento do ato humano mais básico e ao mesmo tempo mais elevado: AMAR. Por isso mesmo, consideramos justa toda forma de amor!

Longe de ser uma data comemorativa, é antes uma data de lutas, de conquistas, de resistência contra a necropolítica que define quais são os corpos que merecem viver e os que não merecem viver em uma sociedade, ou, como nos disse Judith Butler, as vidas que são consideradas choráveis.

Desde o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, através de golpe político-midiático-empresarial-religioso, houve o recrudescimento de posturas conservadoras nos discursos políticos e no âmbito da vida pública em todas as esferas, especialmente no que tange às questões de gênero e sexualidade (MISKOLCI, 2019). Lideranças religiosas e políticas que se autodenominam cristãs defenderam (e defendem) abertamente posturas contrárias a expansão dos direitos sexuais como união civil homossexual/homoafetiva, registro de pessoas trans com seu nome de auto-identificação em hospitais e delegacias, a instituição de cotas para pessoas trans/travestis em seleções de pós-graduação, etc., e cercearam debates sobre gêneros, sexualidades no âmbito das políticas públicas em geral.

Tais discursos e posturas tem tido repercussões midiáticas e geraram reações de apoio entre aqueles que se dizem conservadores, cristãos, defensores da família e dos bons costumes, e de rejeição, por opositores que denominam tais posturas como fundamentalistas e fascistas; mais que isso, atualmente esses discursos e posturas são alguns dos sustentáculos do bolsonarismo e do conservadorismo, alimentando intensa agenda de discursos de ódio e separatividade contra grupos sociais historicamente excluídos, como a população LGBTQIA+.

Bolsonarismo e Patriarcado/Machismo andam juntos na luta contra as diversidades, e, já que estamos em um dos países mais machistas do mundo, com taxas alarmantes de feminicídio e assassinato de pessoas lgbtqia+, o Bolsonarismo caiu como uma luva para reativar o conservadorismo sexual de dominação dos corpos e das vidas das pessoas.

As vozes conservadoras também se levantaram (e ainda se levantam) entre os espíritas, basta olharmos para a Pesquisa Data Folha realizada em 2018, publicada nos diversos portais de notícias, que apontou que mais de um milhão e setecentos mil espíritas votaram no candidato que representava o que havia de mais característico em relação ao conservadorismo e ao fundamentalismo religioso, muito embora, esse mesmo candidato não tenha apresentado, durante toda a companha presidencial, nenhum projeto de governo coerente e conectado com a realidade brasileira. O que vimos foi um show de discursos de ódio sendo propagados em toda a campanha, sem que isso não chocasse os cerca de 55% de espíritas que votaram em Bolsonaro.

Mas, como temos visto no Brasil, as diversas vertentes de fundamentalismo religioso e suas matrizes católica, espírita, neopentecostal, de religiões de matriz africana, etc., admitem toda sorte de discursos violentos, necropolíticos e dogmáticos, desde que determinados valores considerados conservadores sejam mantidos. O conservadorismo na esfera pública é um anti-humanismo!

A adesão à retórica conservadora por parte de parcela importante e contumaz dos espíritas guarda relação direta com práticas e discursos fundamentalistas altamente identificadas com os fundamentalismos existentes no Brasil. Sobre isso, Miguel (2020), nos diz que:

Entre importante parcela dos espíritas, se vê uma adesão à retórica autoritária e à ideia de limpeza contra a corrupção – que assume uma conotação ampla, abrangendo toda a sorte de comportamentos considerados desviantes ou decaídos. Aproximam-se assim do fundamentalismo neopentecostal (inclusive, em alguma medida, no perfil de voto, como revelaram pesquisas nas eleições presidenciais de 2018), denunciando a “implantação” da “ideologia de gênero”, o materialismo ateu esquerdista, corruptor da família, da autoridade, da sexualidade sadia etc. (p. 100).

Um episódio bastante conhecido entre os espíritas e que representa bem o apagamento que as diversidades sofrem com o discurso hegemônico e conservador de cunho espírita, e que teve grande repercussão nas redes sociais, foi a fala do médium e palestrante Divaldo Pereira Franco no 34º Congresso Espírita de Goiás em 2018, ao responder a pergunta da plateia: O que dizer sobre a ideologia de gênero? Embora a resposta tenha envolvido questões abertamente político-partidárias (mesmo o movimento espírita hegemônico adotando uma postura de suposta neutralidade seletiva), com direito à citação e exaltação da “República de Curitiba” e seu presidente o “Dr. Moro” (sic), além de Karl Marx e o marxismo cultural (sic), cito apenas a primeira frase da resposta e sua parte final, a seguir:

Eu diria em frase muito breve, que é um momento de alucinação psicológica da sociedade. [...] A doutrina nos ensina, e para os jovens, eu direi que há uma ética, liberdade, o sexo é livre. Livre sim. Mas ele não tem a liberdade de indignificar a sociedade, poderemos sim exercer o sexo, é uma função do corpo e também da alma, mas com respeito e com a presença do amor. Portanto, a teoria de gênero, jamé (DIVALDO).

A declaração, embora tenha encontrado receptividade na plateia que o assistia em ocasião, causou enorme repercussão negativa nos setores progressistas dos movimentos espíritas no Brasil, precisamente porque uma das mais conhecidas lideranças espíritas do país, reproduziu um discurso de ideologia de gênero deslocado dos mais referendados estudos sobre as teorias de gêneros, sexualidades, teorias queers, estudos decoloniais, estudos feministas, etc. Infelizmente, na estrutura sacerdotal imaginária criada dentro dos setores tradicionais do movimento espírita (o Espiritismo não possui classe sacerdotal), a postura de Divaldo Franco é amplamente encorajada e praticada, de modo que qualquer palestrante de projeção no meio espírita, se coloca na posição de emitir opiniões sobre assuntos que não pesquisa e que não conhece, pautados unicamente no discurso de autoridade mediúnico-espiritual.

A declaração de Franco não foi apenas anticiência, no sentido de ignorar a produção de conhecimentos dos estudos de gêneros e sexualidades, trouxe consigo também a invisibilização das identidades LGBTQIA+, das lutas sociais dos movimentos que compõem esses grupos diversos, priorizando um apagamento das diferenças, reafirmando um discurso heteronormativo que tenta a todo custo instituir quais são os corpos que importam mais.

Na perspectiva de Butler (2019), a hegemonia heterossexual cria materialidades sexuais e políticas, ou seja, cria a materialidade de sexo e gênero à força, atribuindo limitações ou supremacias aos corpos; é exatamente o que ocorre no movimento espírita mais inclinado à religião conservadora, apesar do Espírito ser uma categoria epistemológica no Espiritismo, e o conceito de reencarnação encerrar em si todas as diversidades humanas, o movimento conservador segue o padrão da normatividade e materialidade butleriana para designar supremacias, diferenças, tratamentos e discursos diferentes entre os corpos não apenas LGBTQIA+, mas também corpos negros, corpos que professam outras religiões, etc. É uma forma totalmente nova de materialismo produzida pelos próprios espíritas conservadores.

Arribas (2019), nos lembra que os espíritas, “como quaisquer agentes sociais, são produtos de processos de socialização e reproduzem esses processos”, portanto, não raro encontramos nas narrativas espíritas em livros, palestras, discursos, etc., a reprodução dessa materialidade a que se refere Butler, e que acaba por invisibilizar as identidades consideradas não-normativas.

Ainda sobre o discurso conservador de Divaldo Franco, Arribas (2019), nos diz que:

O que ele faz é reforçar uma visão conservadora e reacionária que vem constrangendo sobremodo intelectuais, professores e educadores com ações de amordaçamento intelectual e crítico. Os atos e interferências negativas de bancadas fundamentalistas e de movimentos como “Escola sem Partido” em temas ligados às lutas pelos direitos sexuais e reprodutivos, pelos direitos das mulheres e de grupos vulneráveis e minoritários – étnicos, culturais, comportamentais e religiosos – estão aí para dar o tom desse tipo de conservadorismo. É na gramática tacanha do reacionarismo brasileiro contemporâneo que o termo “ideologia de gênero” vem se popularizando, comprometendo princípios de civilidade, de tolerância e de respeito à pluralidade e à diversidade.

Apesar disso, a reação dos espíritas progressistas que alinham estudos decoloniais antirracistas, anticapitalistas, antilgbtfóbicos, antimachistas, e antifascistas, com as obras fundamentais de Allan Kardec e outros pensadores espíritas importantes como Leon Denis, Gonzalez Soriano, Anália Franco, Herculano Pires, Humberto Mariotti, Manuel Porteiro, Ney Lobo, etc., tem trazido à baila uma série de ações que visam combater o conservadorismo no seio dos setores mais tradicionais dos movimentos espíritas. Foi nesse contexto que surgiram os chamados coletivos espíritas progressistas, espalhados pelo país, e que desenvolvem estudos e práticas que relacionam o Espiritismo com as mais recentes pesquisas progressistas das ciências sociais, da filosofia, da história, da pedagogia, da antropologia, da psicologia, da psicanálise, etc.; aliás, o próprio Allan Kardec (2013), já no século 19, afirmava que o Espiritismo é uma doutrina progressista.

O potencial progressista do Espiritismo não está apenas na sua eventual relação com as ciências duras, mas também e talvez principalmente com as ciências sociais, as ciências psicológicas e a própria filosofia. Desse modo, na compreensão do próprio Kardec (2013), o Espiritismo deveria cumprir um papel na reencarnação dos espíritos, o papel de colaborar diretamente para o fim dos preconceitos e das desigualdades sociais, mas o movimento espírita conservador não admite tais ideias.

Kardec (2013) nos diz o seguinte sobre o papel da reencarnação:

Com a reencarnação caem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, nobre ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não há nenhum que supere em lógica o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação funda sobre uma lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, funda sobre a mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por consequência, o da liberdade (p. 25).

Ainda sobre o que nos diz Kardec acima, Arribas (2019) também lembra o potencial progressista do Espiritismo, e como ele poderia potencializar profundas transformações na vida social:

O espiritismo, que poderia ser, pelos seus princípios, protagonista na promoção da igualdade, da fraternidade e da justiça social, se limitou, por conta de uma visão paralisante, confortável e conformista de mundo, que está na origem social dos espíritas – provenientes em sua grande maioria da classe média branca, escolarizada e heterossexual –, a uma explicação reencarnacionista da meritocracia, das desigualdades sociais (se há miseráveis e vulneráveis no mundo, eles e elas nada mais fazem do que “pagar” por seus erros de vidas passadas) e da salvação pela caridade material pontual, de cunho assistencialista, em plena conformidade, portanto, com o pensamento conservador e reacionário.

Uma tendência espírita à direita, ou no caso da realidade brasileira, uma tendência muitas vezes à extrema-direita, são amplamente renegadas pelos chamados espíritas progressistas, que, apesar das suas diferentes atuações, discursos e relações identitárias com as pautas que abordam, estão amplamente engajados na reconfiguração de discursos, práticas e referências que ofereçam aos espíritas um caminho que não seja o da justificação divina das desigualdades sociais, e nem o do fundamentalismo religioso que transformou a obra de Kardec em dogma, em cânone inquestionável.

É preciso que nós espíritas compreendamos que a reencarnação guarda em si mesma as diversidades humanas de todas as ordens, e que, portanto, a atuação na reencarnação não pode ser somente no campo individualista, pois os preceitos cristãos presentes no Espiritismo nos convidam à ação de transformação no mundo, como nos diz Herculano Pires (1946); aliás, Herculano criticava o que ele chamou de “aplicação individual do evangelho”, como se não estivéssemos reencarnados em determinado tempo histórico e social.

Sendo assim, Arribas (2019) nos afirma que:

Ser homem, ser mulher, ser negro, negra, indígena, ser rico, pobre, escolarizado, heterossexual, lésbica, bissexual, do campo ou da cidade etc. são todas formas de classificação que interagem simultaneamente no mundo social, fazendo com que certos entrecruzamentos sejam objeto de um tratamento menos igualitário, mais desigual do que outros. E apesar de os homens brancos, da classe média e heterossexuais serem em sua grande maioria os grandes beneficiários ou privilegiados por desigualdades de gênero, não se pode ignorar que eles também carregam um pesado fardo ligado aos atributos da masculinidade dominante: autossuficiência, invencibilidade, agressividade, virilidade, violência, brutalidade, não manifestação dos sentimentos, proibição do choro e de demonstrações de fraquezas de todas as ordens – certamente formas nada cristãs de ser, de estar, de sentir e de agir nesse mundo. Enfatizar esses elementos, entretanto, não pressupõe que os homens sejam tão vítimas da desigualdade de gênero quanto as mulheres. Contudo, indica que a construção de uma maior igualdade de gênero depende não apenas de uma tomada de consciência em relação à opressão feminina, mas também de uma reflexão sobre o lugar e o papel dos homens nesse processo.

Nesse sentido da fala de Célia Arribas, queremos aqui destacar os grupos e coletivos que hoje fazem a diferença positiva para trazer um novo olhar para o movimento espírita, ofertando visões amplas e contextualizadas com a nossa época, e ao mesmo tempo, convidando os espíritas a uma ação mais assertiva e menos contemplativa frente ao mundo.

Destacamos aqui o trabalho pedagógico e de formação desenvolvidos pelos seguintes grupos: Ágora Espírita (Pernambuco), Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires (Ceará), Coletivo Girassóis – Espíritas pelo bem comum (Ceará), ABPE – Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (São Paulo), CEJUS – Coletivo de Estudos Espiritismo e Justiça Social (São Paulo), AEPHUS – Associação Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais (Goiás), ABREPAZ – Associação Brasileira Espírita de Direitos Humanos e Cultura de Paz (Goiás), o CEEEM – Centro de Estudos Espíritas Emmanuel (Suíça), provavelmente o primeiro centro espírita progressista da Europa, dentre outros valorosos grupos.

O trabalho de formação desenvolvido por esses coletivos é um trabalho de base, de educação, e visa ofertar outras referências e narrativas ao movimento espírita; há muito trabalho ainda pela frente, tendo em vista o crescimento astronômico do fundamentalismo religioso no Brasil, apesar disso, o trabalho continua na superação dos desafios em prol de um Espiritismo humanista, progressista e capaz de dialogar com os problemas do nosso tempo.

O preconceito não pode ser maior do que o amor, do que a nossa humanidade, do que a nossa espiritualidade. Consideramos justa toda forma de amor!

 

 REFERÊNCIAS

ARRIBAS, Célia. O sexo dos espíritos: gênero e sexualidade no espiritismo. REVISTA USP, v. 121, p. 97-108, 2019.

ARRIBAS, Célia. Espiritismo, Gênero e Política: uma equação tensa. Disponível em: https://revistaescuta.wordpress.com/2018/03/01/espiritismo-genero-e-politica-uma-equacao-tensa/. Acesso em 05 de janeiro de 2021.

BUTLER, Judith. Corpos que importam. Tradução de Veronica Daminelli e Daniel Yago Françoli. 1ª ed. São Paulo: N-1EDIÇÕES.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. 8ª ed. Rio de Janeiro: CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2015.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de José Herculano Pires. 10ª ed. São Paulo: LAKE.

MIGUEL, Sinuê Neckel. Disposições políticas no Espiritismo brasileiro: entre neutralidade conservadora e aspirações socialistas. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/srh/article/view/50928. Acesso em 05 de janeiro de 2021.

MISKOLCI, Richard, Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

PIRES, Herculano. O Reino. 1ª ed. Disponível em: https://files.comunidades.net/portaldoespirito/01__O_Reino_1946.pdf. Acesso em 05 de janeiro de 2021.


 

domingo, 4 de abril de 2021

Poema "Vida e Morte", de Herculano Pires - pelo artista Luciano Mendes

 



A pedido do Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires - IFEHP, o artista, compositor, cantor, escritor Luciano Mendes, aqui de Fortaleza, gravou um vídeo com o poema "Vida e Morte", do nosso saudoso Herculano Pires, agora musicado pela voz do nosso talentoso Luciano, a quem muito agradecemos pela inspiração de musicalizar o poema, e por gravar este vídeo em nosso pedido.

O poema "Vida e Morte", um dos mais belos escritos por Herculano, foi incorporado às edições mais recentes do livro "Educação para a Morte", figurando antes do capítulo 1. Esse livro, por sinal, é um dos mais profundos de Herculano Pires, refletindo a sua filosofia espírita e existencialista, vale a pena a leitura.

Segue abaixo o vídeo do nosso artista Luciano Mendes:




sábado, 3 de abril de 2021

Da hiperatividade social ao cansaço depressivo - por Marcio Sales Saraiva


DA HIPERATIVIDADE SOCIAL AO CANSAÇO DEPRESSIVO

por Marcio Sales Saraiva, escritor, sociólogo e cientista político 

A leitura do livro “Sociedade do cansaço” (2ª edição ampliada – Petrópolis, RJ: Vozes, 2019) do filósofo Byung-Chul Han (tradução de Enio Paulo Giachini) trouxe-me muitos insights sobre este tempo histórico que estamos vivendo. Eu fiz algumas anotações breves e destaquei algumas passagens que me marcaram muito. É isso que compartilho com você. Não é uma resenha, são apenas fragmentos sobre a doença que se tornou nosso mundo, nós mesmos.

Antes de começar, saiba que Byung-Chul Han nasceu na Coreia do Sul, mas fixou-se na Alemanha, onde estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. É professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim. Ok, o cara estudou bastante, mas vamos ao que ele está pensando sobre a vida.

“A sociedade disciplinar de Foucault, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos.”

“Alain Ehrenberg localiza a depressão na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho: ‘A carreira da depressão começa no instante em que o modelo disciplinar de controle comportamental, que, autoritária e proibitivamente, estabeleceu seu papel às classes sociais e aos dois gêneros, foi abolido em favor de uma norma que incita cada um à iniciativa pessoal: em que cada um se comprometa a tornar-se ele mesmo. [...] O depressivo não está cheio, no limite, mas está esgotado pelo esforço de ter de ser ele mesmo’”.

“O que causa a depressão do esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão de desempenho. Vista a partir daqui, a Síndrome de Burnout não expressa o si-mesmo esgotado, mas antes a alma consumida. Segundo Ehrenberg, a depressão se expande ali onde os mandatos e as proibições da sociedade disciplinar dão lugar à responsabilidade própria e à iniciativa. O que torna doente, na realidade, não é o excesso de responsabilidade e iniciativa, mas o imperativo do desempenho como um novo mandato da sociedade pós-moderna do trabalho.”

“(...) o sujeito de desempenho se entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção de maximizar o desempenho. O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. Essa autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência. Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal.”

“Essa atenção dispersa (hyperattention) se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo. Walter Benjamin chama a esse tédio profundo de um “pássaro onírico, que choca o ovo da experiência”. Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual. Pura inquietação não gera nada de novo. Reproduz e acelera o já existente. Benjamin lamenta que esse ninho de descanso e de repouso do pássaro onírico está desaparecendo cada vez mais na modernidade.”

A barbárie da hiperatividade no capitalismo pós-moderno...

“Mas a arte é uma ‘ação expressiva’. O próprio Nietzsche, que substituiu o ser pela vontade, sabe que a vida humana finda numa hiperatividade mortal se dela for expulso todo elemento contemplativo: ‘Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo’”.

“Precisamente frente à vida desnuda, que acabou se tornando radicalmente transitória, reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho e da produção. Também o aceleramento de hoje tem muito a ver com a carência de ser. A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre. Elas geram novas coerções. A dialética de senhor e escravo está, não em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria capaz também de ter tempo livre para o lazer. Leva ao contrário a uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a exploração é possível mesmo sem senhorio.”

Esta aceleração, a hiperatividade, é fruto da coerção do sistema sociocultural e político vivido na sociedade do desempenho. Ser livre, nesse contexto, significa dizer não a essa maquinaria do agir. É através da negatividade que podemos colocar algum freio à ordem do capital e seu paradigma de desempenho/cansaço.

“Hoje, vivemos num mundo muito pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios. No aforismo ‘A principal carência do homem ativo’, escreve Nietzsche: ‘Aos ativos falta usualmente a atividade superior [...] e nesse sentido eles são preguiçosos. [...] Os ativos rolam como rola a pedra, segundo a estupidez da mecânica’”.

A ira/indignação — se preferir, a revolução social — exige freio, tempo, crítica, mudança...

“A ira (...) coloca definitivamente em questão o presente. Ela pressupõe uma pausa interruptora no presente. É nisso que ela se distingue da irritação. A dispersão geral que marca a sociedade de hoje não permite que surja a ênfase e a energia da ira. A ira é uma capacidade que está em condições de interromper um estado, e fazer com que se inicie um novo estado. Hoje, cada vez mais ela cede lugar à irritação ou ao enervar-se, que não podem produzir nenhuma mudança decisiva.”

“A negatividade do não-para é também um traço essencial da contemplação. Na meditação zen, por exemplo, tenta-se alcançar a negatividade pura do não-para, isto é, o vazio, libertando-se de tudo que aflui e se impõe. Assim é um processo extremamente ativo, e algo bem distinto que passividade. É um exercício para alcançar em si um ponto de soberania, de ser centro.”

O zen é estruturalmente anticapitalista?

“A coação de desempenho força-o a produzir cada vez mais. Assim, jamais alcança um ponto de repouso da gratificação. Vive constantemente num sentimento de carência e de culpa. E visto que, em última instância, está concorrendo consigo mesmo, procura superar a si mesmo até sucumbir. Sofre um colapso psíquico, que se chama de burnout (esgotamento). O sujeito do desempenho se realiza na morte. Realizar-se e autodestruir-se, aqui, coincidem.”

“O responsável pela depressão, na qual acaba desembocando o burnout, é antes de mais nada a autorrelação sobre-exaltada, sobremodulada, narcisista, que acaba adotando traços depressivos. O sujeito de desempenho esgotado, depressivo está, de certo modo, desgastado consigo mesmo. Está cansado, esgotado de si mesmo, de lutar consigo mesmo. Totalmente incapaz de sair de si, estar lá fora, de confiar no outro, no mundo, fica se remoendo, o que paradoxalmente acaba levando a autoerosão e ao esvaziamento. Desgasta-se correndo numa roda de hamster que gira cada vez mais rápida ao redor de si mesma.”

Pior do que uma sociedade onde os indivíduos líquidos e desatrelados dos laços sociais de grupo/classe concorrem entre si é uma sociedade do desempenho onde os indivíduos concorrem consigo mesmo ou contra si, cindidos.

“Problemática não é a concorrência entre os indivíduos, mas o fato de tomarem a si mesmos como referência e de aguçar neles, assim, sua concorrência absoluta. O sujeito de desempenho concorre consigo mesmo e, sob uma coação destrutiva, se vê forçado a superar constantemente a si próprio. Essa autocoação, que se apresenta como liberdade, acaba sendo fatal para ele. O burnout é o resultado da concorrência absoluta.”

“É assim que doenças psíquicas como o burnout ou a depressão, que são as enfermidades centrais do século XXI, apresentam todas elas um traço altamente agressivo a si mesmo. A gente faz violência a si mesmo e explora a si mesmo. Em lugar da violência causada por um fator externo, entra a violência autogerada, que é mais fatal do que aquela, pois a vítima dessa violência imagina ser alguém livre.”

O capitalismo de desempenho coloca a sobrevivência como meta, abolindo a ideia aristotélica de boa vida. O fundamental não é viver ou bem viver, mas sobreviver no interior do sistema e, sorrindo, pois ninguém suporta tristezas.

“A economia capitalista absolutiza a sobrevivência. Ela se nutre da ilusão de que mais capital gera mais vida, que gera mais capacidade para viver. A divisão rígida, rigorosa entre vida e morte marca a própria vida com uma rigidez assustadora. A preocupação por uma boa vida dá lugar à histeria pela sobrevivência. A redução da vida a processos biológicos, vitais, deixa a vida desnuda, despe-a de toda narratividade. Retira à vida a vivacidade, que a vida é algo muito mais complexo que mera vitalidade e saúde. A mania da busca por saúde surge sempre que a vida se tornou desnuda, como uma cédula de dinheiro, e quando todo conteúdo narrativo se esvaziou.”

A mudança desse modelo de sociedade passa pela festa, pela celebração, pelo tempo contra o totalitarismo do trabalho e do desempenho.

“Talvez devêssemos reconquistar aquela divindade, aquela festividade divina, em vez de continuarmos sendo escravos do trabalho e do desempenho. Deveríamos reconhecer que hoje perdemos aquela festividade, aquele tempo de celebração na medida em que absolutizamos trabalho, desempenho e produção. O tempo de trabalho que hoje está se universalizando destrói aquela época celebrativa como tempo de festa.”

“Hoje em dia o tempo de celebração desapareceu totalmente em prol do tempo do trabalho, que acabou se tornando totalitário. A própria pausa se conserva implícita no tempo de trabalho. Ela serve apenas para nos recuperar do trabalho, para poder continuar funcionando.”

“Na época do relógio de ponto era possível estabelecer uma clara separação entre trabalho e não trabalho. Hoje edifícios de trabalho e salas de estar estão todos misturados. Com isso torna-se possível haver trabalho em qualquer lugar e a qualquer hora. Laptop e smartphone formam um campo de trabalho móvel.”

“A sociedade atual do sobreviver que absolutiza o sadio, destrói precisamente o belo. A mera vida sadia, que hoje adota a forma do sobreviver histérico, converte-se no morto; sim, num morto-vivo. Nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox. Assim hoje, estamos por demais mortos para viver, e por demais vivos para morrer.”

Não existe política se não há tempo, criatividade, alternativas, capacidade de construir coisas diferentes. É preciso espaço de criação para que o agir político se faça significativo e não mera administração de dados estatísticos na perspectiva de um eterno e linear processo de crescimento e expansão.

“A salvação do belo é igualmente o resgate do político. Hoje parece que a política vive ainda apenas de decretos de urgência. Já não é livre. Isto quer dizer: Hoje já não há política. Se ela já não admite nenhuma alternativa, acaba se aproximando de uma ditadura, da ditadura do capital. Os políticos, que hoje se degradaram em capangas do sistema, que no melhor dos casos são hábeis administradores da economia doméstica ou contadores, não são mais políticos no sentido aristotélico.”

Este não é um livro necessário?

___________________________________

Para conhecer mais sobre a obra do sociólogo Marcio Sales Saraiva, acesse seus livros pelo link: CLIQUE AQUI

O Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires agradece ao escritor Marcio Sales Saraiva, pela autorização de veicularmos o seu texto em nosso site, um texto que elenca reflexões fundamentais para o nosso tempo, e que vem ao encontro dos estudos desenvolvidos pelo IFEHP em torno da obra de Byung-Chul Han, incluindo um minicurso que iremos ministrar sobre aproximações do seu pensamento com o de Herculano Pires, no mês de maio.





 

domingo, 21 de março de 2021

Na pátria do racismo, os espíritas amam as florestas - Por Lindemberg Castro

 


Por Lindemberg Castro - Coordenador do Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires
lindembergsousac@gmail.com

Neste dia 21 de Março, é o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, um dia alusivo, um novo convite a repensarmos as nossas práticas cotidianas, as nossas relações e os nossos preconceitos estruturais. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas, para lembrar as vítimas que sucumbiram ou se feriram em um protesto no dia 21 de Março de 1960, em Johanesburgo, na África do Sul. O protesto seguia pacífico, um protesto legítimo contra a delimitação de circulação da população negra; mas, em se tratando do regime repressor em pleno Apartheid, em vigor no país desde 1948, a polícia abriu fogo contra a multidão, matando 69 pessoas e ferindo outras 186.

Hoje também é a data internacional alusiva à importância das Florestas para a biodiversidade no mundo e para a manutenção da vida, instituída também pela ONU, em 2012.

Daí você pode estar se perguntando o motivo de estarmos aproximando essas duas datas em um mesmo texto; apesar da consciência das datas, poderiam ser temas completamente distantes de se traçar qualquer paralelo. Mas, com os experimentos sociais que as redes nos permitem atualmente, é possível perceber que, para parte do Movimento Espírita Brasileiro em seus setores mais conservadores, aparentemente o Dia Internacional das Florestas é importante e necessário, enquanto o Dia Internacional contra a Discriminação Racial se configura como algo sem importância, porque afinal, “somos todos seres humanos”.

Em postagens que hoje foram veiculadas na página oficial da Federação Espírita Brasileira, no facebook, a instituição faz alusão à importância das duas datas, inclusive, na postagem sobre a luta contra a discriminação racial, cita a seguinte passagem do Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec (2009): “prescreve o respeito aos direitos de cada um, como cada um deseja que se respeitem os seus”; esse trecho nada mais é do que a reafirmação dos ensinamentos de Jesus, que nos orientou a desejar e fazer para os outros o mesmo que desejamos e fazermos para nós mesmos. É um princípio de amor e de fraternidade!

Contudo, parece que para alguns espíritas, qualquer perspectiva de amor e de fraternidade não se relaciona com a sua visão de mundo, criando um sistema alienante em que os ensinamentos espíritas são apenas teóricos e de aplicabilidade puramente individualista, e não possuem qualquer relação com práticas transformadoras no mundo. Basta passar o olhar nos comentários das duas postagens, para perceber que parte do movimento espírita não consegue dialogar com a realidade puramente humana, simplesmente não consegue aplicar ao mundo uma visão espírita da realidade.

Na postagem sobre a luta contra a discriminação racial, vemos de tudo, discursos moralistas, frases generalistas de que “somos todos humanos” ou que “todas as vidas importam”, vemos também algumas pessoas afirmando que a FEB está fugindo do “foco” ao fazer uma postagem com esse conteúdo, ou ainda, encontramos gente afirmando que esse tipo de data “comemorativa” reforça o racismo. Em contraposição a tantos pensamentos enviesados, na postagem sobre o dia internacional das florestas, todos os comentários são a favor da preservação das florestas; não há nenhum comentário do tipo: “montanhas também importam”, ou “somos todos Natureza”.

Ou seja, aparentemente, para alguns espíritas, as diversidades humanas não merecem respeito senão a partir de algumas diversidades apenas, e qualquer tentativa de retirar da invisibilidade temas importantes para grupos historicamente excluídos, é automaticamente alçado à categoria de heresia, como se o próprio Espiritismo não fosse uma filosofia preocupada com TODAS as questões sociais, com TODAS as diversidades humanas.

O racismo expresso nos comentários da postagem a que nos referimos acima, e em outros momentos, como na postagem em alusão ao Dia da Consciência Negra de 2020, feita pela própria FEB, nos coloca uma triste realidade acerca de parte do movimento espírita: há racismo escancarado em nome de ideologias excludentes, defendido por espíritas que, apesar de se dizerem cristãos, não conseguem aplicar ao mundo os preceitos básicos de fraternidade, de empatia, de acolher o outro a partir de seus desafios existenciais.

Há espíritas que se comportam como se no mundo não existissem desigualdades, preconceitos, injustiças, e demais problemáticas que atingem diretamente aos espíritos encarnados, e que, portanto, deveriam ser alvo da preocupação também dos espíritas, uma vez que Kardec deixou claro que a transformação da realidade não se dará somente pelo progresso pessoal impresso na tão famosa “reforma íntima”.

Kardec (2001), em “A Gênese”, deixa muito claro o objetivo principal da reencarnação frente aos processos transformadores no mundo,

Com a reencarnação, caem os preconceitos de raça e de casta, de vez que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grão-senhor ou proletário, patrão ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum há que saliente, pela lógica, o fato material da reencarnação. Portanto, se a reencarnação funda sobre uma lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, ela fundamenta sobre a mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade (p. 25).

 Ou seja, Kardec deixa claro que sem igualdade de direitos sociais, e sem a liberdade inerente a esses direitos, não há como pensarmos em progresso; Kardec fala de uma fraternidade universal, que, somente pode ser construída se tivermos “olhos para ver” o mundo com as suas contradições, e trabalharmos firmemente por um mundo melhor, mais justo, mais acolhedor e mais amoroso. Herculano Pires, Humberto Mariotti e Deolindo Amorim reforçaram o pensamento de Kardec quando nos afirmaram que ao lado da transformação pessoal é preciso ajuntar a transformação social, uma vez que as desigualdades são estruturais, são milenares, e não vão acabar como em um passe de mágica.

Herculano Pires (1969) foi um dos pensadores que sempre denunciaram os aspectos alienantes do movimento espírita em não dialogar com a realidade, e nem com seu tempo histórico e social. Ele chama o movimento espírita de misoneísta, ou seja, avesso a qualquer transformação profunda da realidade. E acrescenta:

Os espíritas que temem os problemas sociais e políticos, (...) são misoneístas extraviados no seio de um movimento espiritual renovador do mundo. Mas a participação espírita não é partidária, nem é política no sentido comum do termo. A revolução espírita não é um ato de violência, nem pode aceitar a violência, que é a negação do princípio de fraternidade, um crime contra o amor. Só a consciência da responsabilidade doutrinária, que resulta do conhecimento e da vivência da doutrina espírita, arma o homem para enfrentar a nova perspectiva política e revolucionária do espiritismo” (p. 15).

 Humberto Mariotti (1969) nos afirma que, “a ação solidária é transformadora dos sentimentos, e os sentimentos são transformadores da realidade social”; mas, aparentemente o movimento espírita está longe de compreender a segunda parte dessa reflexão, que diz respeito à transformação da realidade social. Ou seja, a frase pomposa e generalista que diz “somos todos espíritos, somos todos seres humanos”, poderia ser facilmente substituída por “somos todos misoneístas, odiamos mudanças estruturais”.

Diante desse quadro, é importante nos perguntar sobre os motivos que conduziram o movimento espírita em sua ala mais conservadora, a um discurso de neutralidade político-social, que simplesmente invisibiliza as vidas das pessoas, que simplesmente coloca na conta das leis de causalidade toda a explica das desigualdades, mesmo que em “O Livro dos Espíritos” haja a análise clara de que as desigualdades sociais foram criadas pelos espíritos encarnados, e estes é que precisam modifica-las.

Sinuê Miguel (2020) aponta algumas possibilidades para explicar a postura alienante da realidade social por parte do movimento espírita: discurso de neutralidade política, mas que na prática beneficia os sistemas de opressão vigentes, negação do pensamento social espírita por conta do perfil ideológico dos espíritas enquanto pertencentes à classe média, e a negação de qualquer relação entre Espiritismo e Socialismo, embora pensadores do quilate de Leon Denis, Herculano Pires e Humberto Mariotti, tenham produzido vasto material sobre essa relação.

Célia Arribas (2019) inclui ainda outras questões importantes, além das citadas acima por Miguel, incluindo outros recortes que explicam a alienação do movimento espírita para as realidades sociais:

O espiritismo, que poderia ser, pelos seus princípios, protagonista na promoção da igualdade, da fraternidade e da justiça social, se limitou, por conta de uma visão paralisante, confortável e conformista de mundo, que está na origem social dos espíritas – provenientes em sua grande maioria da classe média branca, escolarizada e heterossexual –, a uma explicação reencarnacionista da meritocracia, das desigualdades sociais (se há miseráveis e vulneráveis no mundo, eles e elas nada mais fazem do que “pagar” por seus erros de vidas passadas) e da salvação pela caridade material pontual, de cunho assistencialista, em plena conformidade, portanto, com o pensamento conservador e reacionário.

 Nós espíritas, temos muito trabalho pela frente em relação a todas as questões sociais, e para colaborarmos com o processo de retirar da invisibilidade a questão da luta antirracista, precisamos estudar mais a respeito, e produzirmos: textos, cursos, seminários, artigos, livros, etc., pautando esses temas. Precisamos entender que vivemos no mundo material e precisamos lidar com as questões sociais e históricas do nosso tempo. Alguns espíritas se utilizam de argumentos como “ah, mas somos todos iguais perante Deus”, ou “somos todos Espíritos”; as duas sentenças estão corretas em seu sentido essencial, mas não criam contextos com os processos reencarnatórios.

É na reencarnação que travamos as mais árduas batalhas morais e existenciais, e além das nossas questões individuais para darmos conta, é no mundo material que enfrentamos as injustiças e desigualdades, o preconceito, os processos anticivilizatórios, a necropolítica, e toda sorte de mazelas que, cabe a nós construirmos práticas e discursos que transformem para melhor este mundo. Nenhum conceito espírita serve para secar o nosso coração às dores dos outros, e nem para cruzar os nossos braços frente às desigualdades sociais. A práxis máxima do Espiritismo é o amor, sentimento que precisa ser transformado em ação de amparo, de empatia e de acolhimento a quem sofre; é a FILOSOFIA DA AÇÃO, a que se refere Herculano Pires, no Prólogo do livro de Humberto Mariotti, “O homem e a sociedade numa nova civilização”.

Para finalizarmos esse nosso breve artigo, exercitando as perguntas filosóficas como força motriz de nos questionarmos sobre a realidade, perguntamos: por que, uma data alusiva à discriminação racial incomoda tanto certos espíritas, mas o racismo não incomoda no mesmo nível? Por que parte do movimento espírita trata a luta antirracista como ideologia, mas propaga em alto e bom som, discursos fascistas da necropolítica que hoje governa o Brasil? Por que para parte do movimento espírita, a empatia frente às dores do outro só servem para desenvolver projetos sociais caritativos, mas não para defender vida digna a todos e a todas?

Sejamos todos antirracistas, nos convida Djamila Ribeiro (2019)!

São questões que precisamos pensar sobre elas, expô-las, e à moda como Herculano Pires sempre fez em toda a sua vida, precisamos denunciar essas práticas racistas e preconceituosas que correm a mancheias em setores conservadores do movimento espírita, afinal, o Espiritismo é uma filosofia progressista, e não para no tempo, malgrado o fundamentalismo religioso que impera em parte do movimento.

Ao sermos “nós”, que não invisibilizemos o outro! Se somos todos filhos de Deus, se somos todos espíritos, é preciso compreender que cada um de nós enfrenta toda sorte de desafios na realidade social em virtude das nossas diversidades. Como nos diz Grada Kilomba, precisamos ter o direito de sermos para além do que os outros nos definem, porque somente seremos a partir da coletividade, quando formos a partir da nossa individualidade e da nossa diversidade.

Ninguém deveria morrer de fome ou pela sua diversidade, se somos iguais em espírito, somos diferentes nas diversidades que compõem os nossos aprendizados e nas diversidades com as quais nos projetos na reencarnação. Espíritas, sejamos antirracistas, antilgbtfóbicos, antifascistas, anticapitalistas, anti-preconceitos de toda sorte, para que possamos efetivamente aplicar os ensinamentos do Evangelho, os ensinamentos de Jesus, pois Jesus se estivesse reencarnado hoje, seria tudo isso e muito mais para ajudar esse mundo turbulento a ser um lugar menos hostil para todos nós.

“Pessoas brancas devem se responsabilizar criticamente pelo sistema de opressão que as privilegia historicamente”, nos diz Djamila Ribeiro (2019), e nós acrescentamos ainda que: os espíritas devem se responsabilizar em pensar sobre o mundo e sobre as realidades sociais de forma crítica, percebendo e denunciando os sistemas de opressão vigentes, e atuando, tanto quanto puderem, na mudança de práticas e discursos que colaboram com esses sistemas.

 

REFERÊNCIAS

ARRIBAS, Célia. Espiritismo, Gênero e Política: uma equação tensa. Disponível em: https://revistaescuta.wordpress.com/2018/03/01/espiritismo-genero-e-politica-uma-equacao-tensa/. Acesso em 05 de janeiro de 2021.

 KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução José Herculano Pires. 20º ed. São Paulo: LAKE, 2001.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile. 365ª ed. São Paulo: IDE, 2009.

MIGUEL, Sinuê Neckel. Disposições políticas no Espiritismo brasileiro: entre neutralidade conservadora e aspirações socialistas. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/srh/article/view/50928. Acesso em 05 de janeiro de 2021.

 MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. Tradução de J. L. Ovando. São Paulo: EDICEL, 1969.

PIRES, Herculano. Prólogo. In MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. Tradução de J. L. Ovando. São Paulo: EDICEL, 1969.

RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. Tradução Heci Regina Canciani 1º ed. São Paulo: COMPANHIA DAS LETRAS, 2019.


sexta-feira, 19 de março de 2021

Reflexões Espíritas sobre a Sociedade do Cansaço - por Lindemberg Castro

 


Por Lindemberg Castro - Coordenador do IFEHP - lindembergsousac@gmail.com

No início de 2021, o Instituto de Filosofia Espírita Herculano Pires promoveu um curso relacionando temas de Saúde Mental com as obras de Herculano Pires, situando Herculano como um dos grandes pensadores ainda da atualidade, tendo em vista os debates suscitados pela sua vasta produção filosófica. Já no mês de fevereiro, o Centro Espírita Virtual Camilo Castelo Branco, promoveu em sua página no facebook, um bate-papo virtual com o mesmo título desse artigo: “Reflexões espíritas sobre a sociedade do cansaço”, e da qual também participamos; compartilhamos esse bate-papo virtual com os amigos Arivaldo Montalvão e Edson Tobler, a quem agradecemos pelas reflexões complementares que nos encorajaram a escrever esse artigo.

O presente artigo pretende estabelecer algumas relações entre três pensadores, o nosso filósofo espírita Herculano Pires, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han, e a psicanalista brasileira Maria Rita Khel; três pensadores necessários para compreendermos os desafios do mundo para os espíritos reencarnados, que tem que lidar com as questões históricas e sociais próprias do seu tempo. Indicamos aos nossos leitores, caso queiram aprofundar-se, utilizamos como principais referências os livros Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, Ressentimento, de Maria Rita Khel, e O Espírito e o Tempo e também Educação para a Morte, de Herculano Pires. É um artigo breve, que merecerá outros desdobramentos em momento oportuno, portanto, apresentamos aqui algumas questões iniciais para a reflexão dos leitores e leitoras.

Sociedade do cansaço é um livro curto – numa época de velocidade da informação e do esgotamento, trata-se de uma forma precisa de transmitir para o público leitor o aspecto tenebroso da valorização de indivíduos inquietos e hiperativos que se arrastam no cotidiano produtivo realizando múltiplas tarefas, ao mesmo tempo em que adoecem psiquicamente. Publicado originalmente em língua alemã, Sociedade do cansaço foi traduzido para o português em 2015 e ampliado na segunda edição em 2017 com dois textos anexos esclarecedores: “Sociedade do esgotamento” e “Tempo de celebração: a festa numa época sem celebração”.

No livro, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, professor de filosofia e estudos culturais da Universidade de Berlim, parte de uma constatação relativamente comum para o problema das relações entre sociedade e sofrimento psíquico: cada época tem suas enfermidades. Dado que os sofrimentos psíquicos são compreendidos nos dias atuais, sobretudo como desvios neuroquímicos, para ele a nossa época se configura como uma “violência neuronal” como consequência da sociedade adoecida sobretudo pelo capitalismo e suas diversas formas de opressão.

O termo “sociedade do cansaço” também se refere a sofrimentos psíquicos como síndrome de burnout , transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e depressão, que são apreendidos pela compreensão do autor em sua relação direta com o modo operatório do capitalismo contemporâneo. Ou seja, os indivíduos são convidados e estimulados a se explorarem e a explorarem os outros, e consideram que isso seja algum tipo de autorrealização, em processos que fetichizam a vida humana e o próprio indivíduo. Podemos dizer que o aprofundamento das contradições capitalistas coincide com o aprofundamento do adoecimento psíquico humano, sobretudo a partir do século XX, fazendo disparar as taxas de suicídio e depressão, por exemplo.

Em Educação para a Morte, Herculano Pires (2016) nos diz que as injustiças brutais da estrutura social nos pesam e nos adoecem, despertando em nós os impulsos da morte como a violência e o suicídio. Por outro lado, e como contradição da própria estrutura capitalista, “nosso anseio de transcendência é apenas horizontal, voltado sistematicamente para a conquista de prestígio social, dinheiro e poder temporal”. Todo esse desgaste nos leva ao esgotamento psíquico e a processos de ressentimento e frustração (para utilizarmos um conceito da psicanalista Júlia Kristeva) que reverberam simultaneamente na estrutura social e nos indivíduos em particular. O ressentimento, categoria de análise trazida por Maria Rita Khel, pode nos ajudar a compreender a própria dinâmica de adoecimento psíquico pelo qual passamos, e como isso se transforma em processos maiores que atingem a própria sociedade.

O ressentimento não é um conceito originário da Psicanálise, esse é um ponto importante; com exceção de Nietzsche, na filosofia, não houve em outras áreas autores que se dedicaram a esse assunto. O mais próximo disso na Filosofia diz respeito às Filosofias da Existência, que trouxeram à baila conceitos como frustração (Sartre), melancolia (Camus e Kierkegaard), angústia (Kierkegaard), relação entre o universal e o específico (Simone de Beauvoir, a respeito do feminismo), etc.

Para Maria Rita Khel, a atualidade do ressentimento enquanto tema, além de clínica, é política, e, portanto, social, e interfere diretamente na vida como um todo; espiritamente falando, a sua análise também compreende as consequências das questões sociais para os espíritos encarnados, envoltos em uma superestrutura de desigualdade e egoísmo. Além disso, ela nos diz:

O ressentimento é uma constelação afetiva que serve aos conflitos característicos do homem contemporâneo, entre as exigências e as configurações imaginárias próprias do individualismo e os mecanismos de defesa do eu a serviço do narcisismo. A lógica do ressentimento privilegia o indivíduo em detrimento do sujeito e contribui para sustentar nele uma integridade narcísica que independe do sucesso de seus empreendimentos (2020, p. 09).

Privilegiando o indivíduo em sua estrutura narcísica, e não os processos subjetivos próprios do ser humano, o ressentimento desumaniza as pessoas e os sujeitos ao seu redor, estes passam a ser considerados responsáveis pelo que fazem aqueles sofrerem, é uma compensação, uma barganha. No nível macro da sociedade, o ressentimento pode ser direcionado a grupos sociais diversos, que passam a ser considerados como inimigos, culpados por algum tipo de desordem social, e logo, precisam ser combatidos. Sobre esse ponto, recomendamos aos leitores a palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adichie, como título “O perigo de uma única história”, em que ela explica como esse processo também pode ser utilizado para a instalação de sistemas de exceção como o nazismo e a escravização.

Maria Rita Khel, ao se referir ao Brasil em específico, analisa que o ressentimento presente em nosso país é canalizado não para quem causa a verdadeira desordem social, como militares e sua ditadura, políticos corruptos, etc.; na verdade, o ressentimento social é direcionado a grupos sociais historicamente explorados ou que lutam por uma sociedade melhor e mais justa; é assim que um benemérito como o padre Júlio Lancelotti, por exemplo, causa tanto ódio por parte dos ressentidos. Se Gramsci odeia os indiferentes, os ressentidos tomam partido contra os que lutam por uma sociedade mais justa, pois estes causam desordem na ordem estabelecida. Ao mesmo tempo, Khel nos afirma que outras formas de compensação do ressentimento social brasileiro, são: 1) estar envolvido com política, mas não com transformação social, 2) práticas religiosas que não dialogam com a sociedade a não ser para direcionar seu fundamentalismo (podemos incluir aqui parte do movimento espírita), 3) cultura de massas, 4) figuras simbólicas que reafirmem o brasileiro como cordial e acolhedor; tudo isso funciona como formas de suavizar o ressentimento, ao mesmo tempo que invisibiliza todas as lutas sociais.

Em diálogo com Khel, podemos citar a passagem escrita por Herculano Pires (2005), em “O Espírito e o Tempo”, que também elenca uma descrição bastante verossímil sobre a situação atual do Brasil, mergulhado em pleno governo de práticas necropolíticas:

Os regimes totalitários fizeram uma inversão curiosa e trágica do processo de desenvolvimento cultural. Transformaram seus líderes em novos deuses, de um fanatismo brutal, em que o sentimento de humanidade foi revertido em ferocidade selvagem. As religiões da violência cevaram as massas de medo ao sobrenatural. Aos arbitrários poderes divinos e às prerrogativas sagradas da hierarquia clerical (p. 220).

Essa passagem escrita por Herculano Pires vem ao encontro de um Brasil ressentido, tomado pela necropolítica com amplo apoio dos setores conservadores e poderosos, que, em verdadeiro conluio sinistro contra o seu próprio povo, tem fomentado morte, miséria e adoecimento psíquico em plena Pandemia. As religiões da morte, como afirma Herculano, representadas aqui também pelo milhões de espíritas que votaram em um candidato que contradiz tudo o que professam, tornaram-se parceiras desse macabro projeto de asfixiar a população, com a licença nada poética da representação da divindade, mas que na verdade reproduzem simplesmente o que há de pior do fascismo tupiniquim.

Todo esse cenário em que estamos vivendo, confunde o Espírito encarnado, que, além das suas próprias questões internas para lidar, também precisa lidar com as contradições da sociedade, que incidirão sobre ele de forma mais ou menos aprofundada. No sistema capitalista, que, alinhado a outros dois sistemas de opressão principais - como nos diz Angela Davis, o machismo e o racismo, essas contradições são levadas ao extremo, de modo que a sociedade do cansaço é resultante do ser humano transformado em fetiche produtivista no sentido capitalista, e reprodutivista no sentido de reproduzir a estrutura desigual maior; sem o paradigma do espírito para lhe ofertar um contraponto, e ainda tendo que carregar consigo o ressentimento que pode ter sua fonte nas imperfeições do espírito ou como resultado das desigualdades sociais.

Em todas essas situações há um processo de desumanização dos sujeitos, que não são considerados como seres humanos a priori, mas passam a depender da fetichização e da colaboração com os sistemas opressivos para serem minimamente considerados humanos, mas jamais iguais aos que detém o poder majoritário. Todo esse processo sufoca o espírito encarnado, sequer considerado e valorizado, como resultado do materialismo presente na estrutura da desigualdade.

Parece uma visão distópica sobre um livro de George Orwell, contudo, as questões básicas da reflexão filosófica ainda permanecem em nossos dias: a questão do humanismo e da filosofia social e política; foi nesse cenário que Herculano Pires desenvolveu boa parte das suas obras, inclusive tentando trazer elementos filosóficos mais otimistas para fazerem frente ao pessimismo existencialista que marcou o século XX, foi assim que Herculano escreveu obras como “O Ser e a Serenidade”, “O Sentido da Vida” e “O Espírito e o Tempo”, sendo claras respostas a obras de Sartre, Heidegger, Kierkegaard, etc.

As contradições sociais que elencamos até aqui também nos ajudam a perceber que a estrutura social é complexa, tanto na sua organização como nos seus efeitos que retornam aos próprios sujeitos em diferentes formas de impacto nas suas vidas. Essa complexidade demostra que a estrutura social não obedece a imperativos das leis de causalidade que o Espiritismo nos apresenta, mas antes, são frutos das ações dos próprios seres humanos, pautados em sistemas de opressão seculares e estruturais, e contra os quais a vida moral individual nada pode, necessitando de nossa parte, uma atuação coletiva de transformação social mais ampla. Conforme nos explica o Espiritismo, em “O Livro dos Espíritos” (2016), a afirmação de que as desigualdades sociais são criadas pelo próprio ser humano (item 806 e seguintes), portanto, não são criadas como imperativos das leis de causalidade.

Em “A Gênese”, Kardec (2001) vai ainda mais longe, e determina a natureza que a missão da reencarnação possui, para o progresso e a transformação das realidades:

Com a reencarnação, caem os preconceitos de raça e de casta, de vez que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grão-senhor ou proletário, patrão ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum há que saliente, pela lógica, o fato material da reencarnação. Portanto, se a reencarnação funda sobre uma lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, ela fundamenta sobre a mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade (p. 25).

Sobre esse cenário desafiador da existência no mundo material, Herculano Pires nos diz:

A existência, em que o homem se afirma pela dignidade da consciência, pelo esforço constante de superação de si mesmo, foi trocada em miúdos, em níqueis inflacionados, pelo viver larvar do dia a dia rotineiro e da subserviência ao desvalor dos que conquistaram os postos de comando na sociedade aviltada. Inteligências robustas e promissoras esvaziam-se na consumação de si mesmas, servindo de maneira humilhante a senhores ocasionais, que podem assegurar-lhes o falso prestígio de salários altos e posições invejadas pela corja rastejante. (...) Os sonhos do antigo humanismo foram simples delírios de pensadores esquizofrênicos. A ordem geral, que todos aceitam, é viver para si mesmo e mais ninguém (2016, p. 64-65).

Por essas reflexões de Herculano, vemos que o individualismo, imperfeição nossa que deriva do orgulho e do egoísmo, tem a habilidade de se manifestar de diferentes formas na existência material, alimentando por vezes ilusões sobre nós mesmos e sobre a estrutura social; nos aviltamos para sermos encaixados no mundo, mesmo que o encaixe seja desproporcional e possa nos levar a condições de meros expectadores da desigualdade estrutural ou pior, reprodutores que colaboram com a desigualdade. A sociedade do cansaço precisa do individualismo para que possa funcionar a contento, pois é ele quem estimula o indivíduo a se auto-explorar e a explorar seu semelhante.

Yes, we can – o slogan utilizado pelo presidente estadunidense Barack Obama – expressa com precisão o excesso de positividade da sociedade do desempenho (HAN, 2017, p. 24). No lugar do enunciado disciplinar coercitivo “tu deves”, imposto de fora, entra em cena o novo enunciado “nós podemos”, o qual, em sua essência, remete a uma falsa liberdade ao impor aos indivíduos o imperativo da realização, da mobilidade, da velocidade e da superação constantes, transformando qualquer coisa diferente disso em culpa, medo, autoflagelo, etc.

Sobre essa questão do imperativo individualista camuflado no “nós podemos”, Byung-Chul Han nos diz que tudo reside na falsa liberdade e no processo destrutivo contido nesta transformação contemporânea que vivenciamos a partir do capitalismo. O filme Cisne Negro , de Aronofsky (2010), pode evidenciar sua tese. Neste thriller psicológico, a imposição da performance e do desempenho mediante a autossuperação é incorporada pela protagonista e levada às suas últimas consequências. A autodestruição da bailarina – que figura aqui apenas como metáfora do desempenho profissional e social – nada mais é senão a perseguição obstinada do enunciado “tu podes”. Em que pesem os efeitos destrutivos, o filme parece ratificar a constatação de Byung-Chul Han de que “[a] positividade do poder é mais eficiente que a negatividade do dever” (p. 25). Ou seja, a autossuperação postulada em yes, we can é capaz de extrair toda a potência e eficácia insuspeitas ao próprio sujeito, ainda que o custo da autossuperação possa ser a autossupressão, e o consequente adoecimento psíquico ou somático em forma de variadas doenças.

O capitalismo entretém o individualismo baseado no consumo e na produção excessiva da exploração do indivíduo pelo indivíduo, o machismo fortalece o individualismo da suposta supremacia do homem sobre a mulher e sobre os gêneros e as sexualidades considerados dissidentes, como as pessoas LGBTs, e o racismo entretém o individualismo pautado na diferenciação do outro pela sua cor de pele ou pela sua cultura, como se os Espíritos não reencarnassem em corpos e experiências diversas, como se não fosse da natureza da própria reencarnação, a diversidade de experiências; a natureza da reencarnação é a diversidade expressa na multiplicidade das vivências e habilidades humanas, e somente o nosso apego ao exterior é capaz de nos fazer crer em superioridade corporal ou cultural, qualquer que seja.

Como considerar que toda a estrutura de desigualdade descrita acima, não afeta em cheio a vida dos espíritos encarnados? Como considerar que apenas a chamada “reforma íntima” é suficiente para transformar a realidade? Como atribuir às leis de causalidade a responsabilidade frente às desigualdades criadas e fomentadas pelo próprio ser humano? A essas e outras questões, voltaremos a posteriori, em novo artigo que dará continuidade às reflexões introdutórias que elencamos até aqui.

Aos nossos leitores, agradecemos pelo exercício da leitura filosófica voltada para reflexões espíritas.

REFERÊNCIAS

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 1ª ed. Petrópolis: VOZES, 2015.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de José Herculano Pires. 1ª ed. São Paulo: EDICEL, 2016.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Victor Tollendal Pacheco. 20ª ed. São Paulo: LAKE, 2001.

KEHL, Maria Rita. Ressentimento. 3ª ed. São Paulo: Boitempo, 2020.

PIRES, Herculano. O Espírito e o Tempo. 9ª ed. São Paulo: PAIDEIA, 2005.

PIRES, Herculano. Educação para a Morte. 1ª ed. São Paulo: PAIDEIA, 2016.